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Somos todos um bocado macacos

21

Setembro

2016

Publicado por Sergio_Almeida às 16:10
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Sérgio Almeida

 

Um homem, fechado numa sala, é castigado pelo patrão a debitar incessantemente na máquina de escrever até que, por milagre ou pelo simples esgotamento de possibilidades, produza um livro. A teoria do macaco infinito, formulada por Charles Darwin, dá título ao novo romance de Manuel Jorge Marmelo, o décimo de uma carreira iniciada há 20 anos.

 

Na linha dos mais recentes livros do autor de Somos todos um bocado ciganos, Macaco infinito é uma interrogação sobre o exercício da escrita, como o próprio admite.

 

“O que fazem os que escrevem livros é semelhante ao macaco infinito: sentar-se em frente ao computador e tentar, partindo de um patamar evolutivo um pouco superior ao do macaco, produzir obras literárias capazes de interessarem a outros”, concretiza.

 

Interrogação sobre o exercício da escrita, o livro partiu da própria experiência de Marmelo, que ao cabo de tantos anos ainda se questiona regularmente sobre “o que ando aqui a fazer”.

 

Até porque “esta não é uma atividade fácil ou de reconhecimento imediato”, o que muitas vezes obriga a que qualquer livro tenha de ser escrito em horário pós-laboral, numa “luta em permanência contra o sono e o cansaço”.

 

O próprio estatuto do autor sofreu mutações consideráveis com a mediatização crescente. “Hoje, para um autor conseguir ser lido é preciso que seja também um bom comunicador. E nem todos os escritores o conseguem”, observa.

 

No *** onde decorre a ação, sugestivamente designado de Bar Mitzvá, deambulam personagens marcantes. Como Paulo Piconegro, um homem cruel preso numa cadeira de rodas que faz lembrar sem grande esforço o ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, reconhece o escritor.

 

Uma semelhança que não se deve apenas ao domínio do acaso, pois o prostíbulo é uma alegoria da Europa atual, cujo “fechamento contraria o cosmopolitismo de que nos gostávamos de orgulhar”.

 

Cético do ambiente “cada vez mais autoritário e austeritário”, o autor critica ainda a “paranoia securitária, anterior à crise dos refugiados”.

 

A cumprir 20 anos de atividade literária, Manuel Jorge Marmelo reconhece que já pouco resta do jovem escritor que se estreou de “modo desarmado e inocente” com a novela O homem que julgou morrer de amor. “Tinha mais certezas na altura do que hoje. A única coisa que queria na altura era escrever, publicar e chegar a pessoas. Hoje, de algum modo, isso não chega”, conclui. 

Quem descobriu, afinal, o Brasil?

08

Julho

2016

Publicado por Sergio_Almeida às 15:16
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Duarte Nuno Braga é o autor de "A confissão do navegador"

 

Sérgio Almeida


E se o Brasil não tiver sido descoberto por Pedro Álvares Cabral, como nos transmitiram desde sempre os manuais escolares, mas sim por um navegador hoje quase incógnito chamado Duarte Pacheco Pereira? Este é o ponto de partida do primeiro romance de histórico de Duarte Nuno Braga, um apaixonado pelo mar e pelos livros que não duvida de que a História está repleta de "inverdades oficiosas".


Como surgiu o interesse pela vida de Duarte Pacheco Pereira e, por arrasto, a ideia de criar uma biografia romanceada?


A descoberta do Brasil esteve sempre envolvida em mistério e é um assunto que me despertou um interesse redobrado, até porque também vivi naquele país, que considero fascinante. Quando começamos a pesquisar sobre o tema, torna-se incontornável a abordagem de que os portugueses lá passaram antes da viagem de Cabral, em 1500. E se há um nome comum às diferentes teorias, é o de Duarte Pacheco Pereira. À medida que fui encontrando pormenores da sua vida tornou-se claro que muito poderia ser escrito sobre aquele herói nacional, ao qual a História, provavelmente por razões políticas, não terá dado o lugar de destaque merecido. A maioria dos cronistas da época quinhentista não pouparam nos elogios àquele navegador, mas a verdade é que acabou por cair no esquecimento.


A tese de que foi Duarte Pacheco Pereira a descobrir o Brasil é defendida por alguns historiadores, mas é claramente minoritária. Como se explica que, perante a existência de provas documentais nesse sentido, subsista a tese de que foi Pedro Álvares Cabral o autor do feito?

Eu tinha essa ideia preconcebida. No entanto, estou convencido de que existem muitos historiadores a defender a teoria. Veja-se o caso do Prof. Jorge Couto e Prof. Contente Domingues, conceituados historiadores portugueses, que escreveram sobre o assunto. É claro que nas escolas continua a atribuir-se a proeza a Pedro Álvares Cabral. Devo salientar, contudo, que não deixa de ser referida a possibilidade de que os portugueses poderão lá ter estado anteriormente. Apesar de tudo, tenho algumas dúvidas se o assunto é devidamente aprofundado. Note-se ainda que, segundo alguns historiadores, na História não existem teorias oficiais, nem verdades absolutas. O que existem são correntes de pensamento, umas mais conhecidas e aceites do que outras.

 

 


Mais do que um navegador ou descobridor, ele era acima de tudo um combatente?

Naquela época os recursos eram escassos e homens como Duarte Pacheco Pereira eram muito polivalentes. Ele não era só um navegador ou descobridor. Era cosmógrafo, um estratega militar, um soldado, um gestor, um governador, um lutador e até empreiteiro. Repare que, por exemplo, na descoberta do Brasil terá sido capitão da armada, na Guiné foi governador, em Tordesilhas foi testemunha oficial, em Cochim lutou contra o samorim com a sua própria espada, construiu uma fortaleza com as suas próprias mãos, definiu a estratégia de combate, que venceu. Nos dias de hoje é quase impensável alguém ter capacidades tão distintas.


Terminou o livro a admirar mais o homem?

A minha admiração por Duarte Pacheco Pereira não parou de crescer desde que escrevi as primeiras linhas do manuscrito até ao dia em que se transformou em livro. De uma certa forma, sinto que herdei a missão de enaltecer o seu nome. Sempre que o seu nome é referido, quer pela imprensa, quer nas redes sociais com base neste romance histórico, encho-me de orgulho por ter contribuído para o seu enobrecimento.


Acredita que a História está repleta de muitas outras “inverdades oficiosas”?

Estou convicto disso mesmo. Repare que nos dias de hoje, nem sempre nos contam de forma transparente aquilo que se passa na atualidade. Ora quando o presente se transformar em História, existirão sempre "inverdades oficiosas", como lhe chama. Seria presunçoso da nossa parte acreditar que não existem muitas histórias semelhantes à espera de serem clarificadas. Cabe aos historiadores, de uma forma científica, ou aos romancistas, de uma forma bem mais informal, descobri-las, estudá-las e publicá-las. A História é uma ciência dinâmica, em constante evolução e é também esse facto que a torna fascinante.


Recriar a vida sentimental do navegador foi a parte mais desafiante do livro, dada a natural inexistência de documentos?

Não considero que essa tenha sido a parte mais desafiante, até porque é onde existe mais espaço para o romancista ficcionar. É óbvio que é necessário enquadrar os diálogos, os costumes e as tradições da época. Factualmente, Duarte Pacheco Pereira foi casado com a filha do secretário de D. Manuel I. Segundo a lenda, o navegador conheceu uma jovem indiana que se apaixonou perdidamente por ele. Com esta informação disponível torna-se mais simples balizar o enredo e adaptar à História, dando-lhe mais tensão e profundidade sem, no entanto, descurar a envolvência histórica.


Regressar à nossa História é uma possibilidade em aberto no futuro?

Sem dúvida. O romance histórico é um género literário que me agrada muito pelas duas vertentes: obriga a um estudo minucioso dos acontecimentos que me permite enriquecer o meu conhecimento e dar a conhecer aos leitores o resultado dessa investigação e, claro está, ter uma abordagem ficcionada que, embora dentro de determinados limites, oferece a possibilidade de colorir a História de uma forma romanceada


Que figura gostaria de biografar?

O meu próximo trabalho, sendo também um romance histórico, não se fixa numa figura tão mediática como terá sido Duarte Pacheco Pereira, mas sim num acontecimento histórico ocorrido em Portugal no início do século XX. No contexto regional em que se passou teve uma grande relevância, mas foi, infelizmente, esquecido pela História. Creio ter encontrado, de uma certa forma, o meu caminho na escrita, que passa certamente pelo avivar das histórias esquecidas dos nossos antepassados e que mereciam um lugar mais destacado no conhecimento do público. De momento, não posso ainda revelar qual o acontecimento histórico do próximo livro.


Uma das mais-valias do livro são as descrições marítimas e de navegação bastante pormenorizadas. Ser um apaixonado pelo mar foi uma vantagem durante a escrita do livro?

Ser um apaixonado pelo mar foi um importante contributo e uma obrigação ainda maior para conseguir o maior rigor possível na descrição. As obras literárias do Almirante Gago Coutinho, Prof. Contente Domingues e até os diários de bordo de Cristovão Colombo, entre outras, foram essenciais para recriar o ambiente, as rotas e as técnicas utilizadas a bordo das embarcações. Não deixa de ser gratificante escrever sobre um assunto que nos é muito querido e verificarmos um gosto acrescido por parte do nosso público na leitura dessas passagens.

"A vida rural fascina-me"

16

Dezembro

2015

Publicado por Sergio_Almeida às 17:38
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António Tavares venceu o Prémio Leya com O Coro dos Defuntos



Sérgio Almeida

A história dos habitantes de uma remota aldeia do interior português, que permanecem indiferentes a um Mundo em acelerada mudança, cativou o júri do Prémio Leya. O coro dos defuntos é o segundo romance de António Tavares, vice-presidente da Câmara da Figueira da Foz que, confrontado com a hipótese de escrever um livro sobre a política, confessa que optaria por algo “risível”.

 

Apesar de o livro relatar o fim de uma era e o início de outra, até que ponto as personagens de O Coro dos Defuntos existem ainda na nossa sociedade, representando arquétipos muito enraízados?

Creio que ainda existem. As comunidades vão mudando, mas a mudança social é lenta e deixa sempre um lastro do passado. Subsiste algum isolamento e as pessoas que vêm daquele tempo. Ainda há gente que não sabe ler.  

 

Quando é que soube que estava perante uma história especial?

Quando percebi a riqueza dos acontecimentos da época retratada e a excentricidade das personagens. Dir-se-ia que os condimentos estavam todos presentes, era preciso apenas transformar esse material em literatura.

 

As transformações que o país sofreu nos últimos 40 anos foram muito mais profundas do que esse período temporal propriamente dito?

Nos últimos 40 anos o país evoluiu muito e, portanto, as transformações foram mais profundas. Desde logo a quebra do próprio isolamento, as mentalidades, a instrução, a participação política. As diferenças são abissais. Aquele período, não obstante, é o germinar das transformações que viriam.

 

Que relação teve na infância e na juventude com o mundo rural?

Nunca vivi numa aldeia como aquela em que decorre a acção da obra. Mas conheço e fascina-me a vida das pequenas comunidades rurais, a sua proximidade à natureza, os saberes, as tradições, tudo isso.

 

Essa ruralidade ancestral a que o livro se reporta está ameaçada de vez?

Não me parece. As coisas boas persistem e há quem, em nome delas, regresse a esse mundo rural, à proximidade com a terra, ao silêncio, ao ritmo do tempo que lhe é próprio. A vida nas cidades tem cada vez menos qualidade.

 

Assistimos, nos últimos anos, a um retorno da emigração. Encontra mais semelhanças ou diferenças entre ambos os fenómenos?

Grandes diferenças. Hoje, ninguém emigra com uma máquina Singer às costas caminhando por montes e vales. Ninguém emigra desconhecendo por completo para onde vai e ao que vai. Ninguém emigra para ir morar num bairro de lata e até os destinos da emigração são diferentes.

 

O livro é dedicado a Aquilino Ribeiro. Em termos de manejo da língua, há alguém na literatura portuguesa actual que, em seu entender, se lhe possa comparar?

Há alguns autores a manejar o discurso escrito de forma única, com uma voz bastante original. O Mia Couto, o João Ubaldo Ribeiro – falecido há pouco mais de um ano - ou o nosso Afonso Cruz, fazem-no de forma marcante.  

 

A obra aquiliniana está mais esquecida do que deveria?

Está, parece-me óbvio. Mas muitos outros autores estão perdidos na voragem da novidade e da necessidade autofágica do mercado. Alguns, como o Aquilino, é fundamental recuperá-los pela importância que têm na nossa literatura.

 

Tanto o seu primeiro romance como este, foram escritos em períodos muito curtos. Não fica descansado enquanto não os termina?

De certa forma, sim, não descanso. Vivo esse período de forma muito intensa e, portanto, tenho que me libertar dessa obsessão. Mas este sentimento só começa quando inicio a fase da escrita, não enquanto os trabalho enquanto ideia.

 

É verdade que para escrever O Coro dos Defuntos deixou para trás um outro projecto, já mais adiantado?

Não concretamente. Há um romance intitulado O tempo adormeceu sob o Sol da tarde escrito entre o que foi finalista do Leya em 2013 e este. Embora mencionado no Prémio Alves Redol, ainda não foi editado. Eu quis que este O Coro dos Defuntos fosse o segundo a ser editado.

 

Como se pesquisa para um livro como este?

Pesquisa-se lendo a imprensa da época, lendo, no caso, o Aquilino Ribeiro, e ouvindo quem conhece bem esta realidade.

 

O seu próximo livro implica, segundo disse, pesquisa, a qual foi parcialmente perdida, como já revelou numa entrevista. Esse imprevisto poderá fazer mudar o rumo do projecto?

De todo, não. Quando parto para a escrita já tenho o esquema na cabeça, ou seja, o fundamental já está inscrito na memória. Claro que há material que vou ter que recuperar através de nova pesquisa.

 

Além de um outro romance, publicou ainda uma série de peças de teatro. Era ainda um autor à procura da sua voz literária?

Cada género tem a sua própria voz e as suas regras. O teatro faz-se só dos diálogos e é preciso contornar as insuficiências de a acção se desenrolar no palco. No romance todas as portas estão abertas.

 

A voz narrativa do romance foi muito destacada pelo júri. Acredita que foi esse o elemento que fez a diferença?

Esse aspecto foi realçado, mas acredito que outros, que também foram assinalados, contribuíram para dar harmonia e originalidade à obra. De resto, creio que a ironia da obra é importante para segurar o leitor.

 

Somos seres, acima de tudo, feitos de histórias?

Somos, concordo inteiramente. Temos uma história pessoal e somos participantes de uma história mais alargada, a nossa história colectiva. É em ambas que reside a nossa identidade. Somos basicamente aquilo que vivemos.

 

Não há progresso que diminua esse encantamento que continuamos a sentir pelas histórias?

Não há. As histórias são a nossa memória e sem memória não sabemos de onde vimos e quem somos.

 

Algumas das personagens do livro foram inspiradas directamente em seres reais decerto. Quer destacar algumas, talvez as que mais impacto tiveram em si?

As personagens partem de gente concreta que depois é ficcionada na sua excentricidade; é isto que as torna literárias. Enquanto não reinventamos o real, não temos literatura ou arte. Destaco a figura da avó, uma mulher de personalidade forte, meio bruxa, meio vidente, que assiste aos partos e veste os cadáveres. Ela representa o seu tempo, mas, de certo modo, já está fora dele.  

 

Se escrevesse um romance sobre a política, qual seria o tom  que adoptaria (realista, dramático, humor?

A política pode ser vista como um serviço nobre e altruísta, mas confesso que perante aquilo que é habitual assistirmos, a política é mais do domínio do risível. O escritor argentino Jorge Fernandez Días dizia, há dias, numa entrevista, que “a política é uma novela negra”. Também não está mal.

“Aristides de Sousa Mendes personifica o herói moderno”

14

Dezembro

2015

Publicado por Sergio_Almeida às 19:48
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Luize Valente é a autora de "Uma Praça em Antuérpia"

 

Sérgio Almeida

 

A figura de Aristides de Sousa Mendes está no centro do novo romance da escritora Luize Valente, agora publicado em Portugal pela Saída de Emergência. Em Uma praça em Antuérpia, a também documentarista e jornalista conta a história de duas irmãs gémeas portuguesas enredadas numa luta feroz pela sobrevivência durante a Segunda Guerra Mundial.



Como surgiu a ideia para este romance?

A ideia surgiu do fascínio pela figura e trajetória do cônsul Aristides de Sousa Mendes, que arriscou a segurança de sua família ao desafiar as ordens de Salazar e emitir vistos que literalmente salvaram milhares de vidas, de judeus e não judeus fugindo da Alemanha e outros países tomados pelo nazismo. Escolhi falar deste capítulo tão esquecido da história mundial contemporânea do ponto de vista de uma família de refugiados. Narro a saga de duas irmãs gémeas portuguesas e a luta para sobreviver, fugir e manter suas famílias durante a Segunda Guerra Mundial. Uma delas, casada com um judeu alemão, tem o visto concedido por Aristides.


 
Que tipo de pesquisa levou a cabo para este livro?

Mergulhei numa vasta pesquisa história sobre a Segunda Guerra Mundial e também sobre o período de ascenção do nazismo e da Guerra Civil Espanhola. O livro se passa em seis países – Portugal, Espanha, França, Alemanha, Bélgica e Brasil – entre 1916 e 2000.
A maior parte da narrativa está concentrada entre 1933 e 1945. Além dos livros, os depoimentos e entrevistas de pessoas que viveram naquele período e o contato com descendentes que me abriram arquivos de família foram enorme fonte de pesquisa. Outra fonte fundamental foram os jornais portugueses da época, nos quais pude pesquisar o dia a dia da guerra. Também viajei pelas cidades citadas no livro. De Antuérpia a Bordeús e de Irún a Vilar Formoso – refazer o trajeto de fuga dos personagens Theodor e Clarice, com o filho Bernardo, foi fundamental para a verosimilhança interna da trama, que é, para mim, o que faz o leitor “embarcar” na história dentro da História.

 


Ficou a admirar ainda mais o Aristides de Sousa Mendes depois deste livro?


Com certeza! Eu já era fascinada pela figura do Aristides! Depois que mergulhei na pesquisa, que conversei com pessoas que receberam vistos, que visitei os prédios dos consulados em Bordéus e Bayonne, que me correspondi com os netos do cônsul, minha admiração só aumentou. Sousa Mendes foi de uma coragem e senso de honra e justiça únicos. As pesquisas e depoimentos só comprovaram isso. Um homem que lutou contra um governo, que desafiou um ditador sem nenhum interesse pessoal além de salvar vidas. Sousa Mendes é, para mim, a personificação do herói moderno.  

 

 

 

Além de escritora, é também documentarista e jornalista. É por isso que se esforça para que os seus livros sejam muito agéis e tenham muita ação? Que desafios enfrentou para se manter fiel a esta premissa?

O facto de ser jornalista e documentarista influencia muito a minha escrita. Meu estilo narrativo é marcado por uma característica visual. Já me disseram que sou uma escritora de imagens! E isso talvez contribua para a agilidade e ação da narrativa. Procuro escrever de forma direta, com ações a cada frase, instigando o leitor a ler a próxima e assim por diante. Procuro fazer capítulos curtos e com “ganchos” de suspense nos fins dos capítulos. Um grande desafio foram as idas e vindas no tempo – da década de 1910 ao ano 2000 – a fim de prender a atenção do leitor.  



O que a atrai tanto na temática da Segunda Guerra Mundial, já que não é a primeira vez que lhe dedica um projecto?

Todas as guerras são atrozes mas, para mim, nenhuma foi tão insana como a Segunda Guerra. A perseguição e o extermínio de judeus, ciganos, polacos, pessoas com deficiências, homossexuais e todos os que não se enquadravam no ideal nazista é algo que faz parte de um “mundo indecifrável” – expressão que li num livro de Primo Levi e que dá nome a uma peça de teatro que acabei de escrever, que retrata o encontro de uma sobrevivente do Holocausto e uma refugiada síria neste ano de 2015. O que tanto me atrai está no “indecifrável”. Ainda há muitas histórias da Segunda Guerra que não foram contadas e precisam ser lembradas para que este período de trevas não seja esquecido ou minimizado, principalmente para as novas gerações.


 
Estão a decorrer negociações para a adaptação deste romance ao cinema. Se isso acontecer, faz questão de acompanhar este processo?  
Meu primeiro livro O segredo do oratório (2012), que fala de um tema também ligado a Portugal – Inquisição e cristãos novos –, está em  negociações com uma produtora americana. Tive sondagens para a adaptação de  Uma praça em Antuérpia mas nada foi fechado ainda. O facto é que o livro é bem visual e vem despertando muito interesse neste sentido. Gostaria muito que um diretor português se interessasse, pois admiro o cinema português e boa parte do livro se passa em Lisboa, Guarda e Vilar Formoso. Se vier a ser realizado um filme, gostaria de acompanhar o processo, mas sem interferir, pois acredito que é um novo produto. A principal característica que creio que deveria ser mantida é o facto de ser uma história de muito amor, paixão e coragem! 

"O Infante D. Henrique era um péssimo gestor"

23

Setembro

2015

Publicado por Sergio_Almeida às 16:23
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Sérgio Almeida

 

Há seis séculos, Portugal conquistava aos árabes o disputado território de Ceuta, iniciando um período de expansão marítima que permitiu um impensável estatuto de potência dominante a um país com menos de 100 mil km2.


A efeméride não tem passado despercebida tanto ao meio académico – no início do próximo mês a cidade acolhe um importante congresso internacional – como ao próprio circuito editorial. Num curto período de tempo chegaram às livrarias pelo menos três títulos: Uma lança em África - história da conquista de Ceuta, de Paulo Drumond Braga (A Esfera dos Livros), A conquista de Ceuta”, de João Gouveia Monteiro e António Martins Costa (Marcador), e Ceuta 1415 - seiscentos anos depois”, de Luís Miguel Duarte.

 

Nesta último obra, publicada pela Livros Horizonte, o investigador e professor universitário portuense defende um conjunto de teses que procuram “colocar em causa, abalar, várias certezas oficiosas”.

 

Com “pouca vontade de baralhar e voltar a dar, de sintetizar com palavras minhas o que outros escreveram”, o autor da biografia de D. Duarte confessa ter tentado “trazer algo de novo” a um tema que, embora recorrente na historiografia lusitana, continuava a apresentar várias questões ainda por esclarecer na totalidade.

 

A mais premente delas está relacionada com as motivações por detrás da primeira incursão portuguesa fora do território continental. Ao confrontar várias fontes, incluindo muçulmanas, Luís Miguel Duarte afirma ter ficado com a garantia de que a ligação deste episódio à expansão marítima “não é tão evidente”, como os relatos hiperbólicos de Gomes Eanes de Zurara sempre insinuaram.

 

“Ceuta foi um ato de cavalaria, ou seja, militar. Uma espécie de continuação da reconquista”, defende, acrescentando que “D. João I tinha a consciência pesada por ter derramado sangue cristão em lutas anteriores, pelo que entendia que só lavaria esse pecado se vertesse sangue muçulmano”.

 

O professor de História Medieval e investigador do Centro de Investigação Transdisciplinar Cultura, Espaço e Memória) acredita que Ceuta não foi escolhida ao acaso, como Azurara quis fazer: “Era uma praça central do comércio e estava na altura de impressionar a Europa”.

 

O confronto de fontes permitiu-lhe ainda esbater as imagens antagónicas construídas ao longo dos tempos em torno da figura do Infante D. Henrique. Se os relatos oficiais do reino o imortalizaram como “o herói que conquistou Ceuta sozinho”, teorias mais recentes apontavam em sentido contrário, “quase como um tonto”. Luís Miguel Duarte discorda de ambas. Do que não duvida é que o infante “era um péssimo gestor”: “Chegou a ser o homem mais rico de Portugal e acabou sem nada”.

 

O descalabro financeiro foi extensivo aos cofres reais portugueses. “Ceuta foi um fardo financeiro”, sublinha o historiador, que alude aos crónicos erros nacionais de gestão

Somos mais passivos hoje do que éramos há 200 anos

08

Agosto

2014

Publicado por Sergio_Almeida às 18:24
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Sérgio Almeida

Há 214 anos, a sede da coroa portuguesa era apressadamente transferida para o Brasil, sob a ameaça iminente da chegada das tropas de Napoleão a Lisboa. É o relato dessa viagem marítima, tão dura que vitimou parte da numerosa tripulação, que José Manuel Saraiva narra em A última carta de Carlota Joaquina.

Três anos depois de A Terra toda, rara incursão do autor num género que não o histórico, Saraiva capta com invulgar precisão a multifacetada personalidade da controversa soberana.

Termina-se a leitura do livro com a convicção de que Carlota Joaquina foi uma personagem a todos os títulos abominável. Concorda que não foi necessário da sua parte enfatizar os traços negativos desse carácter, porque eles já eram por demais evidentes?

 Concordo de algum modo. Em geral, os historiadores nunca foram muito generosos para com Carlota Joaquina, que ficou para a posteridade como uma mulher ambiciosa, manipuladora e intolerante. Não nos esqueçamos de que tentou retirar o marido do trono e assumir ela própria os destinos do reino....E eu, que não sou historiador, confesso que não fiquei a "morrer de amores" pela princesa.

A conceção inicial que tinha de Carlota Joaquina foi substancialmente alterada à medida que se embrenhou neste projecto?

Claro que sim. Sempre que procuramos conhecer mais a fundo uma personagem e ir além do estereótipo que lhe foi colado, o nosso olhar também se vai alterando à medida que a sua "humanidade" se vai revelando. No caso de Carlota Joaquina, para lá da mulher intriguista, desajeitada e caprichosa, há que reconhecer que era bastante inteligente, possuía vastos conhecimentos em várias matérias e, na sua infância, havia sido muito bem preparada pelos pais para assumir o papel de futura rainha. Para a época, Carlota Joaquina revelava-se uma mulher extremamente interessada pelos assuntos da governação, com ideias próprias e metas bem definidas.

Apesar de ter sido soberana em Portugal, Carlota Joaquina nunca deixou de conspirar contra o país que a acolheu sempre que os interesses de Espanha estavam em causa?

É verdade. Carlota Joaquina permaneceu fiel às suas origens, eventualmente como resultado de uma certa nostalgia que acalentava relativamente à grandiosidade do Reino de Espanha e ao tempo em que tinha vivido na corte espanhola como presumível herdeira do trono.

Que razões encontra para que uma figura tão controversa como Carlota Joaquina tenha sido alvo de tão poucas incursões literárias?

Não lhe sei dizer. Possivelmente pela pouca simpatia que suscita junto dos ficcionistas. De qualquer modo, devo dizer-lhe que, no Brasil, a literatura tem dado mais atenção à personagem de Carlota Joaquina do que em Portugal.

A ausência de grandes atributos físicos terá cimentado esse calculismo de Carlota Joaquina?

É verdade que, muitas vezes, a falta de certos atributos promove o apuramento de outros dotes. Quem sabe se Carlota Joaquina se considerava "menos graciosa" e se não terá procurado compensar a sua fealdade com a exibição de certos comportamentos através dos quais sobressaiu e afirmou a sua personalidade perante os que a rodeavam. Nada nos permite concluir neste sentido. E como eu não entrei, felizmente, na intimidade da rainha, não posso ir além da mera especulação...

Apesar dos imensos defeitos que Carlota Joaquina tinha, não lhe deve ser atribuído o mérito de ter, pelo menos, tentado questionar o papel decorativo a que as soberanas estavam confinadas?

Claro que sim. Por muitos e variados motivos, ela foi tudo menos decorativa.... De resto, uma das coisas que mais a faziam sofrer era o afastamento dos negócios do Reino a que o Príncipe Regente a votava. Nada irritava mais Carlota Joaquina do que ser confrontada com decisões tomadas à sua revelia pelo marido e o Conselho de Estado...

 

O desprezo pelos anseios do povo está por demais evidente em todos os seus actos. Esta indiferença absoluta era a atitude mais frequente nos membros da realeza?

Penso que sim. O povo, enquanto tal, não fazia parte das prioridades reais. Na melhor das hipóteses, o rei preocupava-se com o supremo interesse do reino, como expressão da respectiva soberania. Na época de Carlota Joaquina, já tinha havido a Revolução Francesa e os ideais do Iluminismo começavam a surgir em alguns países da Europa, designadamente França, Alemanha, Escócia e Inglaterra. Contudo, em Portugal, a monarquia, altamente conservadora e dominada pela Igreja, mantinha-se fiel ao Absolutismo. Portugal era, sem dúvida, o país mais atrasado da Europa....

Aos olhos de Carlota Joaquina, o seu marido era um fraco. A História provou que não foi bem assim?

Sim. Carlota Joaquina tinha do marido uma péssima ideia. Considerava-o fraco, melancólico, mais interessado em missas e cânticos gregorianos do que na atividade da governação. Todavia, no Brasil, D. João VI viria a revelar-se um excelente rei. Logo que chegou, autorizou a abertura imediata dos portos ao comércio internacional e a livre concorrência. Aprovou a criação da primeira Escola de Medicina no Brasil, bem como uma companhia de seguros para o comércio marítimo. Fundou o Banco do Brasil, a Casa da Moeda, a Junta Geral do Comércio e o Supremo Tribunal de Justiça, criou a Academia Real Militar, a Academia das Belas-Artes, a Escola Real das Ciências, de Artes e Ofícios, o Museu Nacional, o Observatório Astronómico e a Biblioteca Real. Além disto, instituiu novos ministérios e organismos indispensáveis ao bom funcionamento da governação. Fundou o primeiro jornal do Brasil, a Gazeta do Rio de Janeiro. Perante estas medidas, D. João VI foi reconhecido pela História como um bom monarca.

A viagem da corte para o Brasil foi feita sob condições duríssimas, afectando não apenas os subordinados mas também os nobres e demais poderosos. Essa democratização aparente foi uma das marcas da viagem?

Sim, foi uma "democratização" forçada, de muito pouca dura, que terminou com o fim da viagem....De resto, esta proximidade entre a Nobreza e as restantes classes foi seguramente a prova mais rude a que os senhores do Reino foram sujeitos....

 As condições terríveis dessa viagem poderiam ser atenuadas se tivesse havido uma planificação mínima?

Claro que sim. Se a viagem tivesse sido planeada com antecedência, as condições teriam sido certamente mais razoáveis, mas não muito mais... Por essa altura, a frota portuguesa estava reduzida a poucas dezenas de navios, velhos e degradados, mal equipados para uma viagem daquela envergadura. Mas não houve tempo para grandes planificações. A decisão de a Corte se transferir para o Brasil foi sendo adiada até à última hora, quando as tropas napoleónicas chegaram a Portugal, e o embarque acabou por ser feito à "boa maneira portuguesa", com muita improvisação.... Não obstante, a "fuga" foi um sucesso, reconhecido pelo próprio Napoleão, que acabou por afirmar que D. João fora o único monarca da Europa a enganá-lo.

Por se tratar de um período tão importante da nossa História, a pesquisa acabou por ser facilitada, dado o manancial de documentos existente?

Sim e não. Existe muita informação sobre o período que antecedeu a viagem, nomeadamente o contexto político e diplomático que determinou a decisão de transferir a corte para o Brasil, bem como sobre a permanência da corte naquela antiga colónia. Mas já quanto à viagem propriamente dita a informação é muitíssimo escassa. Tive de apelar à imaginação para relatar aquilo que terá sido a vida a bordo das naus.

Pessoalmente, vê a fuga da corte para o Brasil como uma traição aos interesses pátrios?

De modo algum. Naquelas circunstâncias, pareceu a melhor solução, de resto, inédita, para preservar a soberania de Portugal. Podemos discutir se, dado o estado deplorável das tropas francesas à chegada a Portugal, não teria sido possível permanecer no território e combatê-las. No entanto, se a decisão tivesse sido essa, teríamos seguramente perdido o apoio de Inglaterra e sofrido pesadas consequências...

 A confiança do povo na monarquia nunca mais foi restabelecida por inteiro após este episódio?

Que seja do meu modesto conhecimento, este episódio não alterou a relação do povo com a monarquia.

Há 200 anos como hoje, continuamos a aceitar demasiado passivamente os deslizes das governações? 

É verdade. E actualmente essa passividade é ainda mais clamorosa do que naqueles tempos. Não nos esqueçamos de que, no século XIX, as populações não tinham voz activa, qualquer tentativa de revolta era violentamente reprimida, ao passo que, nos dias de hoje, existem canais de protesto e formas de "luta" devidamente institucionalizadas, mas, infelizmente, pouco eficazes...

Afirma a dada altura que a Igreja foi a grande culpada pelo atraso português durante séculos, ao promover o obscurantismo e o analfabetismo ou impedindo a livre circulação de ideias. Ainda hoje arcamos com esse atraso?

Sem dúvida! A Igreja teve um papel nefasto no desenvolvimento económico, cultural, artístico.... dos países em que prosperou, sobretudo em Portugal. Portugal era o país mais católico e conservador daquela época, e ainda hoje estamos a pagar essa factura!

A vida de Carlota Joaquina foi tão rica que, além da estadia no Brasil, outras vicissitudes poderiam ser destacadas. Se tivesse que eleger outro período da sua vida que pudesse ser romanceado, qual seria a sua escolha?

Teria escolhido o período posterior ao regresso da corte a Portugal, quando se recusou a jurar a primeira Constituição Portuguesa (1822), numa clara resistência ao novos ventos políticos das monarquias constitucionais (como era de prever, o Cardeal Patriarca de Lisboa, Carlos da Cunha e Menezes, foi solidário com a Rainha).

"O Acordo Ortográfico permitiu unificar a língua portuguesa"

27

Maio

2014

Publicado por Sergio_Almeida às 16:24

 

 

Sérgio Almeida 

 

Guia para uma compreensão rápida e eficaz da língua. Português Atual é o novo livro de Lúcia Vaz Pedro, professora e formadora que assina semanalmente um artigo sobre língua portuguesa no Jornal de Notícias.

 

Cinco anos após a entrada em vigor do Acordo Ortográfico (AO), Lúcia Vaz Pedro afirma não ter dúvidas dos benefícios que o tratado trouxe para os utilizadores, destacando a uniformização da escrita e a maior visibilidade internacional entretanto adquirida.

 

No próximo mês a autora desloca-se a Macau, a convite do Instituto Politécnico local, para ministrar formação de Português aos professores universitários chineses.


 


Desde que o AO passou a ser uma realidade, foram publicados inúmeros guias e prontuários. Quais acredita serem as mais-valias do seu livro face à ampla oferta já existente?

 

Este livro não aborda apenas o novo acordo ortográfico. Português Atual é um livro que explica, de forma simplificada, alguns conceitos necessários a uma escrita eficiente, atual e correta.

 

Que balanço faz da implementação do AO entre nós?

 

Julgo que o balanço tem sido bastante positivo. Na verdade, a implementação tem sido feita de forma gradual nas escolas e os alunos aplicam-no com naturalidade assim como os professores. Ao nível da comunicação social e na generalidade das empresas o AO é seguido e aplicado sem dramatismos.

 

Ao fim deste período de implementação já é possível apontar algumas vantagens que o AO trouxe?

 

Tal como era previsível, o AO permitiu unificar a língua portuguesa. Essa unificação tem conduzido a uma política de língua que desperta interesse mundial. O Português transformou-se numa língua mais consistente, com regras bem definidas, nomeadamente no que diz respeito à hifenização.

 

O Acordo Ortográfico ainda não é uma realidade em todos os países da CPLP. Que razões encontra para o arrastamento do processo?

 

Todos sabemos que o problema de alguns países da CPLP se prende com a educação e não com o Acordo Ortográfico em si. Antes de se falar de AO, urge ter uma educação eficiente e que a escolaridade seja uma realidade acessível a todas as crianças. Saber ler e escrever são instrumentos essenciais para o crescimento de qualquer ser humano. Assim, penso que, neste momento, esses países estão a preparar-se para criar as condições para uma educação funcional onde a Língua Portuguesa seja a mesma que é utilizada por milhões de pessoas.

 

Diz na introdução que o adiamento nunca comprometeu a ratificação do Acordo. Mesmo com todas as críticas e petições existentes, acreditou sempre que o AO acabaria por vingar?

 

Sempre acreditei, porque a maioria da sociedade portuguesa e da sociedade brasileira utilizam o Acordo Ortográfico: os manuais escolares, as revistas, os jornais, as legendas dos filmes, os anúncios publicitários. O adiamento permitiu uma harmonização entre Portugal e o Brasil, quanto à data de entrada em vigor obrigatória em ambos os países. Esta sintonia fortaleceu ainda mais este tratado.

 

Que imperfeições poderiam ser corrigidas numa futura revisáo do Acordo Ortográfico?

 

Há algumas situações que poderiam ser revistas, nomeadamente a questão do acento facultativo da 1ª pessoa do plural do pretérito perfeito do indicativo dos verbos da 1ª conjugação, como, por exemplo, estudamos / estudámos; ou então a da 1ª pessoa do plural do presente do conjuntivo do verbo dar ( dêmos ou demos). Isto porque o acento é obrigatório noutras situações, como é o caso da 3ª pessoa do singular do pretérito perfeito do indicativo do verbo poder (pôde) para se distinguir da 3ª pessoa do singular do presente do indicativo (pode). Na verdade, a questão das facultatividades, em vez que facilitar confunde. Existe ainda uma situação que deve ser revista e que se prende com o prefixo co-. Ora este prefixo, segundo as regras do AO prescinde do hífen em qualquer tipo de situação, mas a palavra co-herdeiro surge com a dupla grafia co-herdeiro e coerdeiro. Trata-se de pequenos pormenores que, a seu tempo, serão limados.
 

Faz formação sobre o Acordo Ortográfico. Quais as dúvidas mais frequentes que encontra?

 

Por incrível que pareça, quando dou formação, as dúvidas que os formandos apresentam não se prendem com o AO em si, mas com a língua portuguesa em geral. Às dificuldades de escrita acrescem as do desconhecimento do funcionamento da língua e a falta de hábitos de leitura, o que se  traduz em  lacunas difíceis de superar. E é nessas formações que as pessoas tomam consciência da complexidade da nossa língua e de que o AO, pelo menos, conduziu a uma reflexão sobre alguns aspetos que poderão ajudar a racionalizar a sua utilização no dia a dia.

 

Sente maior abertura dos jovens para assimilarem as mudanças?

 

Os jovens são os que mais facilmente aprendem, compreendem e aplicam o AO. Os manuais escolares têm facilitado a aquisição da nova grafia e ao nível escolar não existe qualquer impedimento.

 

O meio literário tem sido, na sua maioria, um dos grandes resistentes do AO. A maioria dos escritores ainda adota a anterior grafia. Surpreende-a essa resistência?

 

Por um lado, compreendo essa postura. Trata-se de uma tradição. Fernando Pessoa e Teixeira de Pascoaes também rejeitaram a substituição do y grego pelo i latino, aquando do acordo ortográfico de 1911. Julgo que há sempre pessoas que resistem à mudança, seja por receio de não saberem escrever pelas novas regras, seja por elo emocional ou intelectual à memória gráfica da escrita. Porém, não nos podemos esquecer de que a nossa língua está tão viva que saltita pelo mundo. Parece uma criança feliz e não há quem não a queira aprender.

"Elite nacional não estava atrás das vanguardas"

23

Maio

2014

Publicado por Sergio_Almeida às 18:43
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Sérgio Almeida 

 

 Quase150 anos antes de Newton, o médico lisboeta António Luís formulou a ideia da gravitação universal; no século seguinte, um padre francês a residir em Portugal há longos anos antecipou a existência de satélites de Marte, comprovada cientificamente apenas um século mais tarde.

 

Dois exemplos das “intuições extraordinárias” que o investigador portuense Joaquim Fernandes descobriu no decurso da preparação de Moradas celestes – o imaginário extraterrestre na cultura portuguesa, adaptação da sua tese de doutoramento publicada pela Âncora Editora.

 

Concorda que Moradas celestes é um marco no seu trabalho académico e científico?

 

Diria mesmo que é a obra da minha vida, devido à extensão do projeto. Foram dez anos de trabalho, desde o momento em que o delineei até à apresentação da tese. Só as fontes primárias a que recorri compreendiam um total de 120 títulos.

 

Foi necessário um grande esforço de síntese?

 

Sem dúvida. Antes demais foi necessário comparar as ideias prevalecentes emcada época: um período entre meados de século XVII e final do século XVIII. Tive que compilar as muitas fontes estrangeiras que já eram conhecidas entre nós. A minha primeira grande surpresa foi precisamente essa: os nossos pensadores estavam a par das grandes ideias da época. Não só acompanhavam a atualidade como conheciam as tendências dominantes no pensamento.

 

O que contraria a ideia de que o país, no domínio científico, estava à margem de tudo quanto se passava na Europa.

 

Pelo contrário. Havia uma elite, comandada pelos jesuítas, com um grande conhecimento científico teórico e experimental. Não estávamos muito atrás das vanguardas europeias.

 

A ideia contrária, que prevaleceu até há poucos anos, começa finalmente a ser desmistificada.

 

Basta relembrar que vários companheiros de Galileu estiveram em Lisboa a dar aulas no Colégio das Artes logo no início do século XVI.

 

A tese revela ainda ideias pioneiras para a época defendidas por pensadores portugueses. Foi outra surpresa comque se deparou durante a investigação?

 

Várias ideias que hoje fazem parte da história da astronomia foram enunciadas por portugueses muito antes da sua descoberta. É o caso da lei da noção da atração universal. Cerca de 180 anos antes de Newton, o médico renascentista António Luís teve uma intuição fabulosa sobre a atração mútua dos corpos. Claro que a tese foi aprofundada posteriormente, mas o essencial foi expresso nessa ocasião.

 

Por que caiu no esquecimento?

 

Foi escrita em latim numa obscura publicação e, naturalmente, passou despercebida. Esse não foi, porém,o único contributo português. Já na primeira metade do século XVIII, Rafael Bluteau, um padre francês que viveu longos anos em Portugal, avançou coma revelação da existência dos dois dois satélites de Marte, Fobos e Deimos. Essa enunciação aconteceu muito antes de o Swift o ter feito nas Viagens de Gulliver e de terem sido observados por telescópio, no final do século XIX. Há ainda o exemplo do Padre António Vieira, o grande profeta do Quinto Império, que também era observador de cometas. A ele se devem observações singulares e únicas aquando da sua estada na Baía. Faz sobretudo uma leitura política dessa observação. Foi, além disso, dos primeiros a desmistificar a cor azul do céu – dizendo que nem era azul nem era céu – algo que só seria provado pela astrologia física no final do século XIX. São, todas elas, intuições fantásticas.

 

Essas intuições poderiam ter sido concretizadas se Portugal tivesse outro poder?

 

É difícil dizer. O que me parece óbvio é que tínhamos um grupo de notabilidades nas ciências e matemáticas que participava ativamente nos principais meios europeus. Eram sócios de academias, escreviam em revistas...

 

Mas era uma comunidade muito pequena.

 

Sim, umas poucas centenas. A socialização da leitura só arranca com o crescimento das publicações periódicas, na segunda metade do século XVIII.

 

Como investigador,o período temporal que este livro abarca é o que considera mais fascinante?

 

Sim, porque era uma espécie de buraco negro. O conhecimento das temáticas celestes era praticamente zero na altura.Era uma área muito ignorada na historiografia das ciências.

"O centralismo é uma das causas do nosso atraso"

08

Março

2014

Publicado por Sergio_Almeida às 18:02
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Sérgio Almeida

 

A cada novo livro, João Pedro Marques, historiador convertido ao fascínio do romance, propõe uma abordagem apaixonante da História de Portugal. Depois da  epidemia da febre amarela e da colonização em África, o autor regressa ao seu período de eleição, o século XIX, para nos contar O estranho caso de Sebastião Moncada. 

Situada no turbulento período das Guerras Liberais, a história não se fica pelo retrato de um país a ferro e fogo, centrando-se também nos dramas pessoais e amorosos.

 

Se um leitor se detiver apenas numa das várias facetas do livro (que incluem policial,  mistério, guerra ou amor) ficará aborrecido?

Aborrecido não, mas será uma leitura redutora, porque esses diferentes elementos estão  entrelaçados pela narrativa. Mas é legítimo que o façam. Não há regras de leitura.


 

Colocar em diálogo esses diferentes planos foi mais complicado do que a própria investigação?

Talvez, mas os meus romances têm sempre várias camadas. O mais difícil é criar personagens coerentes e evitar anacronismos. Ou seja, conjugar a parte ficcional com a real sem que haja incoerências. Os meus livros têm uma cadência narrativa rápida. Herdei dos livros do Emilio Salgari, que li muito na juventude.

 

Este é o terceiro romance histórico que escreve. Não se sente tentado a escrever um livro centrado no presente?

Sinto. Aliás, estou a fazê-lo. Já tenho um capítulo pronto. É uma escrita muito diferente.

 

O livro fala sobre peso de coincidências que podem mudar o curso da história. A importância do acaso é subestimada?

Acho que sim. O acaso foi deixado um pouco à margem por historiadores que tiveram a pretensão de fazer uma leitura científica da História. Há muitos episódios célebres que se teriam desenrolado de forma diferente se não tivessem acontecido circunstâncias fortuitas, não planeadas.

 

No caso das guerras liberais onde entrou o acaso?


 A vitória dos liberais só foi possível porque a tropa que lhes fazia frente teve que ir a Beja esmagar uma revolta que estalou por lá, deixando o campo aberto até Lisboa.

 

Mas um chefe militar nunca atribui a vitória ao acaso.

Pois não, embora saiba aproveitar a oportunidade que lhe é trazida pelo acaso para  ganhar ascendente sobre os rivais.

 

O que sabia das guerras liberais antes de ter abraçado este projeto?

Não sabia muito. O que estudei na minha vida foi o período colonial, a escravatura.Foi um ensinamento ler os relatos dos historiadores sobre o cerco ao Porto. A verdadeira odisseia por que aquelas gentes passaram, dada a desproporção de forças. Nunca se pensou que os liberais ganhassem.

 

Seria impensável um cerco tão brutal nos dias de hoje?

Continuam a acontecer situações dramáticas, como na Síria, em que populações inteiras não têm sequer possibilidade de escolha. No Porto, quem quisesse podia abandonar o cerco e juntar-se aos apoiantes de D. Miguel, mas a verdade é que a maioria da população aguentou.

 

Este é um dos poucos romances sobre as guerras liberais. Encontra alguma razão para tamanha escassez?

É um período muito confuso e instável. Estava tudo centrado na guerra

 

O Porto é um dos protagonistas do livro. O que perde o país por não dispor de um Porto forte?

O centralismo é uma das grandes causas do nosso atraso. Existe Lisboa e o resto, infelizmente, continua a ser paisagem. Quando chegamos a qualquer país vemos que há sempre uma segunda cidade que rivaliza com a capital. Em Portugal não. Basta ver o que acontece no futebol. As pessoas são dos chamados três grandes, independentemente da cidade onde vivem. Na maioria dos países há uma grande ligação ao clube da cidade.

 

Em que sentido o Porto era mais poderoso na primeira metade do século XIX?

O Porto era um farol de liberdade, mas, com a transferência dos meios para Lisboa, perdeu imenso poder.

 

Consegue situar o início desse declínio?

A hegemonia de Lisboa começou a acentuar-se na época dos Descobrimentos. O Porto foi-se mantendo à tona nos séculos seguintes graças às suas atividades muito específicas, como o Vinho do Porto.

"Só escrevo porque sinto prazer a fazê-lo"

08

Outubro

2013

Publicado por Sergio_Almeida às 15:36

 

 

 

Sérgio Almeida

 

Para onde vão os guarda chuvas, Assim mas sem ser assim e O cultivo das flores de plástico são os mais recentes títulos da fulgurante obra de Afonso Cruz. Ao Jornal de Notícias, o escritor – mas também ilustrador, músico, cineasta e não só – afirma não dissociar a escrita do prazer. A alternância de projetos artísticos é, para o autor de Jesus Cristo bebia cerveja, uma faculdade de que não abdica.

 

 

Os livros que tem publicado distinguem-se por norma dos anteriores. Procura contrariar a máxima segundo a qual os escritores escrevem sempre o mesmo livro?

Acho que me aborreço se passar a vida a fazer sempre a mesma coisa, tento que cada livro seja um novo projecto, com novos desafios e abordagens. E gosto de contrariar máximas, como essa de que os escritores escrevem sempre o mesmo livro.

 


Afirma que ser escritor é uma actividade de prazer, o que não é uma visão tão comum como isso, uma vez que impera no meio literário a ideia de que a escrita implica um sofrimento quase atroz... Tende a desconfiar dos que cultivam essa aura de inacessibilidade ou criação divina?


 Se escrever não me desse um grande prazer, provavelmente não o faria. Há momentos, como em tantas circunstâncias da vida, em que tenho situações mais trabalhosas ou difíceis de resolver. Mas é apenas isso. A ideia de sofrimento ligada a uma arte, qualquer que seja, parece-me um romantismo de outro século.

 


É quase obrigatório falar nas suas diferentes facetas de ilustrador, cineasta, músico e até produtor de cerveja. Acha que são aproximações importantes para compreender o teu trabalho literário ou não passam de simples curiosidades?


 Não sei se são importantes para compreender o meu trabalho literário, mas são muito importantes para mim e não me imagino a viver sem desenhar ou sem tocar. Tal como a escrita me dá prazer, a ilustração e a música também. Ultimamente, não tenho trabalhado com cinema de animação, porque é um trabalho de equipa e eu vivo no campo, o que torna difícil qualquer projecto nesta área. Quanto a fazer cerveja, é divertido, mas bebê-la é muito mais.

 


O reconhecimento que tem tido na literatura poderá fazer com que, num futuro não muito distante, se dedique a ela em exclusivo?

 Creio que isso não acontecerá, até porque os meus livros, mesmo os romances, têm muitas vezes ilustrações e acho natural que, no futuro, tenha cada vez mais projectos em que se justifique a inclusão e mistura de várias artes.

 

Teve uma juventude muito nómada, em que conheceu dezenas de países. Essas viagens sãs as responsáveis pelo facto de os seus livros serem tão abertos a outras culturas?

Pode ser uma explicação, mas quando se começa a viajar é porque já estamos abertos a outras culturas. Pelo menos, eu estava. Creio que o cosmopolitismo, que me agrada muito, é mais defeito ou feitio, do que resultado dessas viagens, que acabaram por ser uma consequência normal do modo como penso o mundo e a vida.

 

Curiosamente, a criação artística ganhou força a partir do momento em que se tornou mais sedentário. Tratou-se de assimilar primeiro para criar a seguir?

Talvez, mas sem consciência disso, a minha intenção não era acumular para criar, mas acabou por acontecer desse modo. De resto, a inquietação é a mesma: se não apanho um avião, sento-me a escrever. São duas boas maneiras de conhecer o mundo e os homens e a sociedade. O que me pareceria estranhamente impossível seria ter trocado uma vida nómada por uma vida sentado num sofá com o comando na mão.

 

Publicou já depois dos 35. Ter resistido a publicar mais cedo foi o melhor que fez?

Não tive de resistir, pois só comecei a escrever com 37 ou 38 anos, portanto não tinha nada para publicar antes disso, ou intenção de ser escritor. A primeira coisa que escrevi foi Enciclopédia da Estória Universal e só a determinada altura do processo é que me apercebi de que poderia ter ali um livro publicável. O que a acabou por se concretizar. Enviei o original para a Bertrand e tive sorte.

 

Há uma certa ideia de jogo que parece envolver os seus livros. É um exercício que não faz sentido para si se o leitor não se sentir envolvido?

 Gosto que os leitores se envolvam e agradam-me metáforas e analogias, ligações, referências. Gosto de jogos. Sinto que os livros, se andarem de mãos dadas a outros livros, autores, artistas, ficam mais fortes. A companhia faz-nos isso e aquilo que escrevemos ganha mais dimensões se trouxer consigo mais histórias além daquelas que estão à superfície. Gosto de cerejeiras e nespereiras porque, qualquer uma delas, precisa de estar a ver uma outra da sua espécie para dar fruto. Uma nespereira necessita de outra. Os livros, para mim, são assim, precisam de outros para frutificarem.

 


É lícito dizer que experimentas uma liberdade maior num género livre como na Enciclopédia universal, em que cabe quase tudo, do que nos romances?

 Sim, a Enciclopédia permite essa liberdade mais facilmente do que um romance e permite-me, por exemplo, escrever poemas, micro-ensaios, sem precisar de justificar a sua inclusão, como aconteceria num livro com outras características.

 

Saber o que é real ou ficção acaba por ser secundário?

Acho que ter “realmente” acontecido não é tão importante quanto a mensagem que queremos passar. Os mitos gregos não perdem valor por serem fantasia, pelo contrário, parece-me até que estão mais próximos da “verdade”. A ideia de que a realidade é o que experimentamos através dos sentidos é demasiado pequena. Não vemos sentimentos ou pensamentos quando olhamos para uma pessoa, não lhe vemos o passado, e, no entanto, tudo isso está lá. De resto, eu não acredito na realidade. Como disse Kandinsky, ou Mondrian, ou Klee, ou outro pintor qualquer que não consigo precisar: Se achas que a fantasia não tem nada a ver com a realidade é porque não percebes nada da natureza.

 

Muitos dos seus livros estão na fronteira entre vários géneros. Os géneros literários convencionais parecem-lhe cada vez mais redutores?

Quando tenho uma ideia para um livro tento que todo o objecto ajude e reforce aquilo que pretendo transmitir e isso, claro, faz com que muitas vezes saia de lugares mais ortodoxos. Mas considero que, não tanto para mim, mas de um modo geral, os géneros são muito redutores. E há também muito preconceito relacionado com isto. O infanto-juvenil, o policial, a ficção científica, por exemplo, não são vistos da mesma maneira. Ninguém põe A Jangada de Pedra na secção de fantasia, do mesmo modo que ninguém põe Crime e Castigo nos policiais. Julgo que a maior parte das pessoas acha isso desprestigiante. E se, por exemplo, a Alice no país das maravilhas estiver na secção de “literatura normal”, é um elogio. Estando essa mesma secção tão cheia de porcarias quanto outra qualquer.

 

Lendo os seus livros ficamos com a ideia de qe foi mais influenciado por autores estrangeiros do que por portugueses. É mesmo assim?

 É mesmo assim, à excepção da poesia que sempre li mais portugueses. De resto, acho que é normal, os estrangeiros são mais do que nós e há um mundo enorme que não devemos deixar fora de nós. É verdade que damos pouco valor ao que fazemos, mas também é verdade que por vezes achamos que somos os maiores. Felizmente está-se a escrever muito bem em Portugal e cada vez mais se justifica ler autores portugueses.

 

Há quase cinco anos decidiu trocar a cidade pelo campo. A quietude que deve significar viver num monte alentejano repercutiu-se de algum modo na sua escrita (ou isso é também uma das muitas mistificações literárias)?

 Para mim, é uma mistificação. Escrevo em frente ao computador, na sala, e não debaixo de um sobreiro. Comecei a escrever ainda vivia em Lisboa, na Almirante Reis (existe, em Lisboa, lugar mais urbano e cosmopolita?) e não encontro diferença nenhuma entre fazê-lo na cidade ou no campo. A paisagem que está fora de minha casa não é nada importante para o meu trabalho. É muito importante para outras coisas, mas para escrever, não preciso da calma alentejana, preciso, isso sim, de um quarto ou de uma sala onde me possa sentar, sem que me incomodem, a escrever. E isso pode acontecer com a mesma facilidade tanto num apartamento da capital como num monte em Sousel.

 

É um dos nomes mais destacados da designada nova geração de escritores portugueses. Na ausência de grandes afinidades estéticas e ideológicas entre eles, podemos dizer que os une é sobretudo a despolitização e uma certa condição apátrida da literatura?

Não me parece. Se não temos grandes afinidades estéticas e ideológicas, algo que também não tenho a certeza de ser verdade, não me parece ser a despolitização que nos une. Em relação ao desinteresse pela pátria, penso que vivemos num mundo em que podemos partilhar, com muito mais facilidade do que há uns anos, culturas. Isso, evidentemente, influência aquilo que fazemos, com mais mundo. Já ninguém é português ou espanhol. Vestimo-nos todos da mesma maneira, com as mesmas marcas, lutamos pelas mesmas coisas, reivindicamos os mesmos princípios morais. Isso reflecte-se na literatura. Tem coisas boas e tem coisas más, mas eu gosto do potencial de crescimento que gera. Sabe sempre bem ultrapassar as nossas fronteiras, sejam geográficas, psicológicas, sociais, religiosas, políticas ou literárias.

 

Numa entrevista recente, Miguel Real criticava os escritores de hoje por estarem algo alheios dos problemas sociais, “dormitando narcisisticamente na sua concha”. Concorda?


 Discordo. A maior parte dos escritores de hoje têm preocupações sociais. Não serão todos, mas sempre foi assim, em todas as gerações. Esta não é pior ou melhor do que outras. Os livros não têm de nomear o FMI, as cagarras ou o Coelho para serem politizados e fazerem crítica social. A verdade é que Os miseráveis do Hugo ou Crónicas marcianas do Bradbury são tão actuais, no que respeita à sociedade, quanto qualquer jornal. O primeiro exemplo nomeia muitos políticos da época (curiosamente são as partes mais desfasadas da actualidade) e o segundo não. Ser mais ou menos panfletário, estar mais ou menos colado à actualidade, não é uma exigência para se estar envolvido socialmente. Há muitas maneiras de criticar o mundo à nossa volta. Posso fazê-lo tão bem e tão eficazmente com um conto passado na Antiguidade clássica como com um conto passado na praça Taksim. Diógenes de Oenoanda, há quase dois mil anos, criticava o consumo. Não nomeou ninguém, e, no entanto, o texto é perfeitamente actual. Curiosamente, li recentemente um texto numa revista colombiana, que comparava o Valter Hugo Mãe ao Fernando Vallejo, pela crítica que em A máquina de fazer espanhóis é feita ao nosso país.

"Os responsáveis pela crise deviam ter sido presos"

01

Outubro

2013

Publicado por Sergio_Almeida às 19:12
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Sérgio Almeida 

 

Desde que visitou pela primeira vez a Islândia, Valter Hugo Mãe sabia que, um dia, iria escrever um livro sobre o país cuja paisagem mais se aproxima da superfície lunar. A desumanização é o resultado dessa paixão, que parece ganhar novo fôlego sempre que regressa.

No próximo mês volta a partir rumo a Reiquiavique, agora com um objetivo preciso: conseguir a tradução do novo livro para islandês.

O livro vai ser apresentado no domingo em Lisboa, no Teatro Maria Matos. No Porto, a apresentação decorre no dia 10, às 21.30 horas, na Casa da Música, e em Vila do Conde (Teatro Municipal) no dia seguinte.

 

Quem ler o livro não deixará de fazer uma pergunta: porquê a Islândia?

É um local incrível.  Mantém um elevado grau de encantamento mesmo depois de lá termos estado várias vezes.  Aumenta as nossas possibilidades de loucura. É tamanha a mundividência do local que o que aconteceu comigo acontece com outros – oferece facilmente um livro.

É a necessidade de assumir riscos que justifica a escolha de um local remoto?

A dada altura foi-me muito importante escapar aos vícios da portugalidade. Não quero fixar-me em receitas que me impeçam de aprender algo mais sobre estar vivo. A Islândia foi um desafio a que me propus.

Até que ponto a especificidade de um ambiente como o islandês tem influencia a nossa forma de agir?

Os islandeses formam uma comunidade em que a interioridade é muito trabalhada. Há toda uma intensificação da pessoa a partir do que podem ser as capacidades do interior. Toda a gente canta ou toca instrumentos, por exemplo.

É um isolamento autista?

De todo. Há um sentimento comunitário acentuado, uma responsabilização social grande e uma perceção clara das necessidades de cada um corresponder a uma função.

O romance é uma declaração de amor aos fiordes. Amar uma paisagem agreste exige maior devoção?

Não será para qualquer um, embora nunca conheci ninguém que não tenha ficado deslumbrado. É preciso gostarmos de uma beleza que também nos assuste e seja capaz de subjugar-nos. Na Islândia a beleza vem sempre acompanhada pelo medo. É por isso que o encantamento não exclui um imaginário repleto de monstros.

Uma descoberta em massa pelo resto do mundo pode fazer perigar essa espécie de paraíso que a Islândia ainda é?

É um risco, mas eles têm demonstrado grande inteligência na gestão do seu património natural. Como os monumentos islandeses foram levantados pela Natureza, a única coisa que têm que saber fazer é não destruir. Não precisam de arquitetos. Enquanto gente sinto-me elogiado sempre que lá chego. A confiança dada às pessoas é tão grande – a porta das casas está sempre aberta e os hotéis têm apenas uma chave para cada um dos quartos – que quem chega de fora sente esse apelo. Se fizesse o oposto, seria humilhada por ela própria.

 

Outro dos países que mais lhe fascina é o Brasil, que em todos os sentidos está nos antípodas da Islândia. Esta atracção pelos opostos é algo inato em si?

Há países que me fascinam sem lá ter ido. O Cambodja, por exemplo. Os templos que estão construídos sobre os pântanos, e que progressivamente estão a ir ao fundo sem que nenhuma engenharia possa fazer nada, são um dos motivos dessa atração. Quero lá ir antes que desapareça, mesmo que nunca escreva um livro sobre o Cambodja. O fascínio do Brasil deve-se à música, a uns vizinhos brasileiros que tive na infâncias e às telenovelas. Era um miúdo quando as novelas tinham um poder enorme. Era uma forma de pensar o mundo. Quando a “Gabriela” foi transmitida teve um impacto enorme, mexendo com questões como a sexualidade ou a libertação das mulheres. Com a sua descomplicação tropical, os brasileiros chegaram lá mais rápido do que nós. Com a Islândia é diferente. Não fui lá com saudade, como aconteceu com o Brasil, mas em busca do fantasia, de algo mágico.

 

Foi a primeira vez que um livro seu exigiu tanta pesquisa?

Sim. E interferiu muito com o meu processo de escrita. Basicamente foi uma ***. (risos). Eu escrevo muito por intuição. Ora, se tive sempre que consultar apontamentos com notas sobre a viagem... Para uma reportagem ou guia turístico talvez me tivesse sido mais fácil. A dada altura concluí que tinha que fazer desaparecer os apontamentos, sob pena de nunca mais conseguir acabar o livro. Tinha que esquecer o que aprendi.

Como contornou o problema?

Fiz o caminho pelo interior dos personagens. E a Islândia cabou por tornar-se uma personagem do romance. A ilha e os fiordes tornam-se um ser pensante. Foi muito bom ter ido à Islândia quatro vezes, mas toda a informação que recolhi dificultou-me a escrita. Comecei e  recomecei vezes sem conta, porque não estava satisfeito. Procurava uma intensidade da linguagem que permitisse fazer ver e sentir a aspereza do lugar. Se voltar a escrever sobre um lugar que não conheço vou tentar não ir lá, para que possa continuar a seguir o caminho de forma intuitiva.

 

Desde o início tinha decidido que a Islândia ia ser a protagonista?

Sim, Ir buscar a Islândia era o que me permitia fazer algo diferente. Acaba por ser um livro cheio de poesia mas também filosofia, Mais do que a procura do sentido da vida, é a procura da justificação do universo, . Se alguma coisa se torna real depois de a percecionarmos Os limites da linguagem e do pensamento A Islândia tem muito disso é no limite. Era importante que ela pudesse quase falar, ser gente.
 

As suas viagens coincidiram com a bancarrota islandesa. A crise mexeu com o orgulho da população?

Para um português habituado à crise, a crise islandesa é de difícil explicação, dada a qualidade de vida que têm. Em jeito de provocação, dizia a amigos islandeses que o impacto da crise era a perda da casa de férias ou do segundo jipe... Um desempregado islandês tem mais segurança do que um empregado português. Além de receber um subsídio mínimo de 1500 euros, vê o Estado pagar-lhe a renda da casa. A prova de que a crise foi uma abstração financeira, sem ligação ao real, é que, um ano depois, já era o país com maior crescimento do mundo e um dos líderes do ranking da felicidade.

A forma como enfrentaram a crise, rejeitando as diretrizes do FMI, é um exemplo para Portugal?

Se alguém em Portugal não tivesse o rabo preso, tudo teria sido diferente. Ninguém desata a pagar uma dívida sem mais nem menos. Qualquer pessoa a quem apresentam uma conta questiona o seu teor. Como podemos imputar uma dívida gigantesca a pessoas que não tiveram  responsabilidade na acumulação dessa verba? Não foi a população que encomendou submarinos nem nada que se pareça. O que qualquer Governo de boa fé teria feito seria a renegociação da verba que nos foi imputada. A Islândia foi exemplar. A primeira medida que tomaram foi mandar prender as pessoas que, através da da contração de dívidas impossíveis, contribuíram para a crise. Também devíamos ter prendido os responsáveis.

Escrever sob o ponto de uma menina de 11 anos  foi muito difícil?

Devia ter sido mas não foi. Cresci com duas irmãs mais velhas, o que me poderá ter ajudado. Por outro lado, há livros meus em que as vozes femininas já são vincadas.

A forte carga poética do livro não exclui imagens de violência. O belo e o abjeto caminham lado a lado?

Sempre fui atraído por essa junção dos opostos. As ilustrações do livro, da Cristina Valadas, são disso exemplo. São monstros, mas ao mesmo tempo florescem, são belos. Essa atração pela perigosidade faz parte de mim.

A escrita tem uma utilidade concreta para si?

Sim, é para me curar. Impede-me de ser mais maluco. (risos) Nenhuma obra de arte se justifica pela questão estética ou até pela pretensão ética. Há sempre uma dimensão terapêutica. Quem cria uma expressão fá-lo para responder a pulsões incontidas, para encontrar respostas para as quais não encontrou resposta.

 


Nos próximos meses terá pela frente uma agenda sobrecarregada, com solicitações em série. É o período de maior ansiedade para si?

São complicações distintas da escrita. É gratificante, mas também exigente e cansativo. Quando termino um livro e começam os compromissos, sinto uma grande angústia, porque é complicado desativar a máquina de escritor. A minha natureza gostava que estivesse agora a escrever. Este travão que sou obrigado a fazer é violento.

 

Nos próximos tempos será impossível escrever?

Sim. Se conseguir escrever as minhas crónicas já será uma sorte... 

 

Já lida melhor com a exposição pública crescente?

Há sempre um desconforto. Sempre que me falam numa determinada apresentação ou evento tenho tendência a dizer logo que sim, mas depois começo a fazer contas à vida e fico sempre nervoso e atrapalhado. O aparato do público custa-me sempre muito.


 

Mas aprendeu finalmente a dizer não.

E a não responder. Até há algum tempo fazia questão de ser disciplinado para responder a quem me escrevia, mas a partir do momento em que se avolumam quatro mil emails, é impossível... Até certo ponto não tenho obrigação de responder a toda a gente. Há convites para todos os gostos. Desde festas de casamentos a aniversários, prefácios, posfácios... . Ainda hoje há gente que me pergunta por que escrevia romances com minúsculas. E sempre que vou ao Brasil recebo nas semanas anteriores dezenas de emails de pessoas que não conheço a pedirem-me para ir tomar café... Por mais que me custe, não pode ser de outra maneira.

"Como confiar num Estado que nega o que jurou?"

26

Abril

2013

Publicado por Sergio_Almeida às 15:41
0 comentários

 

 

Sérgio Almeida 


A controvérsia suscitada pelo anterior ensaio de Miguel Real, Nova teoria do mal, com críticas incisivas à atual classe dirigente, apenas acentuou a convicção deste prolífico autor de que é chegada a altura de os intelectuais assumirem um papel mais ativo na sociedade. Em Nova teoria da felicidade, não abranda o tom, ao questionar a intromissão crescente do Estado na vida das pessoas.

 

Em vez de escândalo, diz que gostaria que Nova teoria da felicidade provocasse um absoluto silêncio. Não acredita que da discussão possam sair contributos válidos para a discussão dos temas presentes no livro?

 

Claro, do debate saem sempre novos e importantes conhecimentos. Mas também aprendi que o debate deve ser promovido entre parceiros do mesmo ofício, com o mesmo nível de conhecimento. O que não aconteceu na Nova teoria do mal, que, digamos assim, caiu na praça pública e todos se acharam no direito de opinar, mesmo sem ter lido o livro. Todos liam a introdução, mas não o miolo do livro. Percebi isso em várias apresentações do livro em livrarias e bibliotecas públicas.

 

Quando o Estado português se assume como “uma máquina implacável e aterrorizante de generalização de infelicidade, individual e coletiva”, a resposta da população só pode ser a insubmissão?

 

Sim, a rebeldia, a heterodoxia face ao pensamento dominante, a insubmissão, a revolta, a ocupação não violenta de rua, o protesto democrático, a acção colectiva concertada face a pontos exactas de abuso do poder, até que nasça uma alternativa política organizada que force que se arroga do poder de mandar a conformar-se, não com interesses financeiros, mas com os verdadeiros interesses nacionais.

 

Numa sociedade amputada do sentimento de conforto e segurança generalizada que prosperou durante décadas, o medo tornou-se no principal inimigo da felicidade? Em que sentido nos tolhe?

 

Tolhe-nos a Esperança, esvazia a vida de sentido. Que interesse tem trabalhar se nunca se passará do patamar da pobreza? Como confiar num Estado que nega hoje o que jurou ontem, num político medíocre que não segue o ditado popular, fruto de milénios de sabedoria: "Bom pastor é aquele que tosquia as ovelhas , não o que as esfola"? Os Governos portugueses, no século XXI, não têm "tosquiado" a população, mas "esfolado", deixando-a de pele a sangrar. Que respeito nos merece um Governo assim?

 

Uma interioridade rica é um bom lenitivo para fazer face às políticas predatórias antifelicidade?

 

Exatamente. Quem reflete sobre si próprio e a sua existência tem mais possibilidades de ser feliz do que aquele que o não faz. A Felicidade é um sentimento sereno, que exige reflexão sobre o que se fez e o que se deseja fazer.

Assume que o livro é bastante influenciado pelo pensamento de Matias Aires, autor português do século XVIII largamente desconhecido da maioria da população. As suas Reflexões sobre a vaidade dos homens encerram maior atualidade do que muitos ensaios contemporâneos?

 

Caro Sérgio, não tenha dúvida. A aplicação das teses de Matias Aires aos nossos governantes, deixar-nos-ia estupefactos. Porventura, onde Matias Aires fala de "nobreza", falaríamos de políticos e financeiros: homens que retiram prazer do acto de humilhar e explorar os seus concidadãos.

 

O que a presente crise tem de mais perturbador é que pode fazer diluir os laços de solidariedade entre os seus membros (vide funcionários públicos vs trabalhadores do privado?)

 

Sim, a crise fez nascer três sentimentos que, cruzados, podem ser explosivos e levar à rebelião popular (espero, sinceramente, que levem a uma rebelião pacífica): o esvaziamento da esperança de que a nova geração possa viver melhor do que a anterior, o desenvolvimento de um sentimento de desconfiança face ao vizinho ou ao colega, agora considerado concorrente ou rival, e o desenvolvimento de um sentimento de vazio face à existência, onde americanamente a maior parte da população se considera um "perdedor", um frustrado.

 

Mesmo sem o contexto da crise, acredita que o chamado “austeritarismo” continuaria a determinar a política que nos rege? Ou seja, esta avalancha quase diária de medidas corresponde ao quadro mental dos nossos governantes e não tanto à conjuntura económica?

Existe algo de patológico na acentuação sem fim da austeridade, quando já se percebeu - mesmo os poucos inteligentes - que austeridade apenas conduz a um maior nível de pobreza. Presumo existir uma ideologia conservadora a animar a "auteridade". Primeiro, uma forçada e voluntária acentuação da desigualdade social; segundo, a destruição do Estado Social, convertendo o ser humano num "escravo" do trabalho de modo a enriquecer uma lata burguesia, doravante dona de Portugal.

 

Por que optou pela apresentação do livro mediante tópicos/itens?

 

É um estilo como outro qualquer, constituído por frases sintéticas e lapidares adaptada a quem viaja muito e não pode andar com grandes bibliotecas na mala. O filósofo portuense José Marinho aplicou-o com grande mestria.

 

O seu livro anterior causou viva polémica. Esperava algumas das reações suscitadas?

 

Não, não esperava. Sou um autor de qualidade mediana, tanto no romance quanto no ensaio. Os autores como eu não esperam grande reacção aos seus livros. Terá tido a ver, porventura, com o tema: o "mal". Alguns pensadores consideram-no coutada sua, como os pensadores ligados à Igreja ou à Esquerda marxista.

 

Foi a primeira vez em muitos anos que um ensaio filosófico causou brado. É sinal que vivemos numa sociedade adversa ao pensamento?

 

Sim, desde há cinco, seis anos, o importante é sobreviver, subsistir no dia a dia, não pensar, ou pensar apenas sobre o que permite uma melhor sobrevivência. Portugal tem mais tradição no fazer do que no pensar. É um tique histórico das elites portuguesas, são mais ávidas de seguir modas estrangeiras do que gerar pensamento próprio.

 

Muitos dos que leram Nova teoria do mal não eram leitores habituais de ensaios. É para si motivo de particular satisfação atrair uma faixa de público que, por razões várias, nunca teve uma ligação próxima aos ensaios?

 

Sim, quanto mais se atrair público para a leitura melhor. Mesmo que esteja em desacordo com as teses enunciadas. O desacordo é, não raro, sinónimo de lucidez.

 

Na sua mira não estão apenas os políticos e tecnocratas, mas também certos intelectuais, “ansiosos por se auto-reconhecerem como vanguarda”, mas que se “encontram profundamente fossilizados”. Cabe-lhe também um punhado de culpa pelo estado a que chegámos?

 

Enfatizo o que disse acima: as elites intelectuais portuguesas, vivendo as modas estrangeiras, presumem possuir uma vida intelectual própria. É um tique histórico detectado culturalmente desde o tempo do Marquês de Pombal, muito agudizado no século XX e hoje altamente realçado.

 

É chegada a altura de os intelectuais intervirem, assumindo um papel mais dinâmico?

 

Sim, sentimos hoje a falta da ironia de Agustina Bessa-Luís ou o empenhamento crítico e mordaz de Saramago ou a lucidez analítica de Eduardo Prado Coelho. Com três ou quatro excepções (Vasco Graça Moura, Baptista Bastos, Boaventura de Sousa Santos, José Gil, Manuel Alegre, Rui Zink...), a maior parte dos intelectuais continua a narcisisticamente a dormitar na sua concha. É imperioso retomar a antiga teoria do intelectual como uma espécie de sismógrafo da sociedade.

 

O ensaísta irá conviver sempre com o romancista histórico e o crítico literário ou admite que esta atual alternância possa dar lugar no futuro a uma predominância de alguma destas facetas?

 

Não consigo esgotar-me num único género literário. Uma semana a escrever um romance e tenho de parar para dar lugar à crónica, ao ensaio, ao teatro... É-me constitutivo.

"Gosto de enganar os leitores"

26

Março

2013

Publicado por Sergio_Almeida às 17:56
0 comentários

 

Sérgio Almeida 

 

O Porto, tão marcante na maioria dos livros de Miguel Miranda, está ausente do novo romance, A paixão de K que se desenrola entre Londres, Havana e a fictícia aldeia espanhola de Consolacion. Mas os leitores habituais deste médico de 56 anos não terão dificuldade em identificar-se com uma história capaz de pôr em contacto o mundo da arte, os motins sociais e o poder de uma paixão avassaladora.

 

Sendo um romance dos nossos dias, narrando acontecimentos recentes, concorda que é também uma história intemporal, porque contém reflexões sobre a condição humana?

A realidade interessa-me muito. Por um motivo concreto: influencia o nosso modo de vida. Os motins de Londres de que falo no livro são um pretexto para falar da natureza humana, da influência das memórias... A verdade é que a nossa sociedade, que julgávamos ter atingido um patamar de desenvolvimento muito elevado, vai deparar-se com problemas que julgávamos ultrapassados e, ainda por cima, em locais que jamais suspeitaríamos.

Isso significa que conquistas que dávamos por adquiridas estão em causa?

Sim. Basta ver o Estado Social, que ainda há poucos anos era uma certeza, e hoje será tudo menos isso... No futuro, a erosão social poderá não ser em torno das dicotomias a que nos habituámos – como ricos e pobres ou Ocidente contra Oriente -,  mas sim em volta das classes médias. É essa improbabilidade do caos que me move.  Isso não significa que pretendo dar orientações sobre o futuro, quero apenas levantar interrogações.

Será um romance mais político do que os que costuma escrever?

É uma das dimensões do livro. Os livros anteriores  também contêm reflexões sobre o quotidiano, embora, pessoalmente, não tenha intenção de fazer intervenções sociais.

Subscreve a ideia, várias vezes formulada ao longo do livro, de que a vida é uma sucessão de planos?

Só existe passado, memória, porque o presente acabou de acontecer e o futuro está sempre por vir. O que somos hoje  é feito em larga medida do que fomos ontem. Exemplo disso mesmo é o protagonista, Perfecto Cuadrado, que vê as suas memórias intercecionadas com o presente.  E a realidade, em última instância, é uma abstração, porque o nosso olho só consegue discernir planos com um décimo de segundo de distância. Nessa fração de tempo podem ocorrer coisas que não vemos.

Muitos dos seus livros nasceram de viagens. Foi o caso?

Conheço muito mal Londres, a cidade que aparece mais destacada no livro.

Quem lê a história fica com a sensação de que conhece bem a cidade.

Gosto de enganar os leitores. Tentei documentar-me para que as informações soassem credíveis. O mesmo aconteceu com a aldeia imaginária de Consolacíon, que acaba por ser um concentrado de todas as aldeias rurais de Portugal e Espanha.

Ao contrário da maioria dos escritores, abdica dos habituais blocos de notas. Não há registo mais fiável do que o da anotação mental?

Acredito que sim. Registo de forma emotiva o que vi ou vivi. Esse registo já é, de certa forma, um trabalho literário. Se escrevesse, o mais provável seria perder os papéis... Como não conto perder a cabeça, é mais seguro registar mentalmente.

Não depender economicamente da escrita é uma vantagem?

Dá-me uma certa liberdade para escrever o que quero. Salvo raras exceções, o que se ganha na escrita são trocos. Claro que gostaria de vender mais, mas o tempo poderá encarregar-se disso.

"O Vaticano aceita dinheiro até de mafiosos"

25

Março

2013

Publicado por Sergio_Almeida às 18:09

 


Sérgio Almeida

 

As intrigas e conspirações do Vaticano voltam a servir de matéria ficcional a Luís Miguel Rocha. A filha do Papa parte de um rumor – a possibilidade de Pio XII e a sua companheira terem tido uma filha –, mas, segundo o autor de A virgem, descreve com exatidão a realidade quando coloca a nu o que considera ser o suspeito edifício financeiro do Vaticano.

 

Mais do que ligação entre o Pio XII e a Madre Pasqualina, da qual terá resultado uma filha, concorda que as principais novidades do livro têm que ver com funcionamento pouco claro  do Banco do Vaticano?

 

Com o livro, os leitores vão conseguir perceber como funciona este banco de investimento, onde existe um paraíso fiscal que conta com dinheiro de mafiosos ou partidos políticos.

 

Por mais duvidosa que seja a proveniência, nenhuma verba é negada?

 

É verdade. Como explica Gianluigi Nuzzi em Vaticano S.A., o dinheiro vinha até escondido em caixas de sapatos... Como um bispo ou um cardeal tem passaporte diplomático, consegue imunidade. Curiosamente, Bento XVI tudo fez para combater essa praga, mas rodeou-se das pessoas erradas, como Tarcisio Bertone. Apesar de não ter ganho a batalha, teve um gesto importante, porque é muito provável que agora  a União Europeia ameace com impostos sobre transações financeiras. Não nos podemos esquecer que o Vaticano é uma luta de poder constante.

Um Papa que faça frente aos poderes  não aguenta muito tempo no poder?

 

Se for um Papa forte politicamente como João Paulo II, sim. Se for fraco do ponto de vista político, como Bento XVI, não aguenta. Foi um Papa limpador, não reformador. Só em 2010 é que ele se apercebeu que estava muito mal assessorado. Quando o biógrafo lhe perguntou por que não mudava de secretário, ele desculpou-se, alegando que estava muito velho.

 

Já se tinha resignado, mesmo antes de ter resignado.

 

Exato.

 

É muito crítico em relação ao círculo íntimo dos Papas. O Cardeal Bertone representa muito do que o Vaticano tem de perverso?

 

Foi um péssimo secretário de Estado. Além de ser arrogante, inoportuno e ter o ambiente todo minado, é um adepto do clientelismo. Nem sei se acredita em Deus...

 

Gostava que a identidade da suposta filha do Papa fosse revelada?

 

Se me fosse dada essa hipótese, optaria por não escrever o livro. Porque isso significaria torná-la real e é uma responsabilidade muito grande. Esta história é baseada num rumor. Se é ou não verdade, isso ultrapassa-me.

Alterou a imagem que tinha de Pio XII?

 

Ele foi muito injustiçado. Ficou com a fama de ser cúmplice dos nazis, mas o seu único “crime” foi ter estado na Alemanha durante 13 anos. Recebia nazis como outros dignitários. Agora que temos os dados todos, é fácil acusá-lo. mas, na altura, o que Hitler estava a fazer era desconhecido da maioria. Ele mandou falsificar certidões de batismo em favor dos judeus, por exemplo. Só no Vaticano viviam três mil. Foi um Aristides de Sousa Mendes em larga escala. Basta dizer que terá salvo 800 mil judeus. Para mim, foi o melhor Papa do século XX.

 

Concorda que a melhor maneira de alguém perder a fé é conhecer os meandros de qualquer religião?

 

No Vaticano há duas estruturas, a religiosa e a política, e ambas raramente se tocam. O que me faz duvidar da Igreja é a forma como, teoricamente, dizem que abraçam toda a gente, mas aos poucos vão excluindo os homossexuais, os divorciados, os que são a favor do aborto ou usam preservativo. Ou estamos todos ou não está nenhum.

 

"Sem coragem, o amor esgota-se num instante"

26

Novembro

2012

Publicado por Sergio_Almeida às 18:47
0 comentários

 

Sérgio Almeida 

 

A narração da história de amor absoluto entre dois jovens tem valido a Natasa Dragnic uma popularidade internacional que, há pouco mais de um ano, nem se atreveria a imaginar. Portugal é apenas o mais recente  membro de uma lista de 25 países que já publicaram Cada dia, cada hora.

Um amor tão intenso como o que descreve neste romance só existe na literatura?

Não é difícil que duas pessoas se amem. Mais complicado é que esse amor se prolongue no tempo. No entanto, se estivermos atentos às necessidades do outro, sou da opinião que o amor pode durar muito.

Mas sermos felizes o tempo todo deve ser insuportável.

(risos) Sem dúvida. Quando o meu livro foi publicado, estava tão feliz que nem conseguia dormir. Na altura, só queria relaxar e não conseguia. A felicidade pode ser muito cansativa, sem dúvida.

Acredita mesmo que o amor pode vencer todos os obstáculos?

O amor não chega. Sem coragem, não funciona. Esgota-se logo. Temos que ser  corajosos para vivermos o amor que temos.

As sociedades contemporâneas são inimigas do amor? O tempo que uma relação necessita para florescer é precisamente o tempo que as pessoas dizem não ter...

É por essa razão que deixei de dizer que não tinha tempo. O tempo não é pouco. Está à nossa espera para que possamos usufruir dele. Não podemos atribuir ao tempo as culpas pelo que não conseguimos fazer.

A história do livro é pura ficção?

Diria que sim. Mas, como em tudo quanto escrevo há muito de mim, não tenho a absoluta certeza disso. Muitosamigos disseram-me que, ao lerem o livro, sentiam que me ouviam, tão familiar soava.

O enorme êxito do seu livro surpreendeu-a?

Tive sensações distintas. Por um lado, uma parte de mim achou que, por fim, me faziam justiça. Afinal, escrevo desde os seis anos. (risos). Por outro, saber que a história que criámos toca fundo em tanta gente, é uma grande honra e responsabilidade.

Acabou há pouco o segundo livro. É verdade que os autores não voltam a experimentar a sensação de liberdade inicial?

Não posso dizer isso, porque, quando escrevo, não penso nos leitores.

O título do livro é extraído de um verso de Pablo Neruda. A poesia é uma grande fonte de inspiração para si?

Não sou grande leitora de poesia, porque tenho alguma dificuldade em entendê-la. Sou um pouco avessa às abordagens filosóficas ou existenciais. Com Neruda, é diferente. Ele faz-me sentir. E penso que é disso que a poesia se trata – dos sentimentos, da capacidade de nos fazer sentir vivos.

Vive há longos anos na Alemanha, país que, por esta altura, não é dos mais populares em Portugal. Os alemães são assim tão difíceis, como se apregoa?

Há diferenças entre os povos. Estou mais perto do afeto dos povos do Sul, mas nunca tive razão de queixa dos alemães. Gosto de viver lá, o meu marido é alemão... Ainda bem que as nações europeias são diferentes. Quem ganha é a diversidade.

A ideia de uma união europeia não é utópica, por causa dessa diversidade?

Há uma identidade europeia. O problema que noto, como mera observadora, é que a união monetária não faz sentido sem uma lei fiscal idêntica para todos. Essa é a raiz dos problemas.

 


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