Blogues JN Redes
 

As nossas escolhas

Obras em

Destaque

Resultados por tag: Lidos

A insanidade sã do eterno Rubem Fonseca

27

Maio

2016

Publicado por Sergio_Almeida às 17:18
Tags:
0 comentários


 

Sérgio Almeida

A capa da edição brasileira de Histórias curtas, o mais recente livro de Rubem Fonseca, ostenta uma série de camisas de forças desalinhadas.

A ideia é duplamente feliz: não só a loucura é o maior fio condutor destas 38 curtas histórias, como a escrita de Rubem Fonseca é uma tentativa permanente de libertação da camisa de forças em que qualquer indivíduo é colocado desde o nascimento, sob a forma de convenções, normas, regras ou quaisquer outros pré-requisitos.

Apesar de a opção da capa da edição portuguesa ter sido diferente – os tons dourados acompanham todos os livros de Rubem Fonseca publicados pela Sextante Editora, desta vez complementados com um enigmático ouriço cacheiro -, o tom insano ou subversivo continua a ser por demais evidente.

O livro resulta, deste modo, numa espécie de compêndio não exaustivo das doenças mentais. Com uma vantagem face aos sisudos tratados científicos: conseguem amiúde sobressaltar-nos, comover-nos, fazer-nos sentir vivos, enfim.

A lista de taras, obsessões ou simples manias incluídas no livro é extensa. Quase tão inesgotável como a imaginação do autor. Em O colecionador, um homem com uma fortuna imensa que se dedica à acumulação de objetos raros vê o seu interesse esbater-se assim que os obtém. Até que descobre a mais exclusiva e difícil das coleções: a  de caveiras humanas.


Atração, por sua vez, fixa-se num homem com um gosto particular por mulheres casadas que se apaixona inadvertidamente por uma solteira. Solução encontrada, após ter ponderado terminar a relação: casar com a amada.


Os exemplos sucedem-se e em todos os casos deteta-se o mesmo gosto pelo aparente desvio da normalidade, que, de tão comum, se transformou ela própria na convenção em si mesma.


Já nonagenário, Rubem Fonseca continua a colocar de lado a gestão calculista da obra que tantas vezes a idade e o reconhecimento trazem. Ao invés, continua a fazer de cada livro uma celebração da existência.

Uma celebração não necessariamente normativa ou convencional, mas ainda assim uma celebração que faz questão de partilhar com os que o leem.


Só com alguma boa-vontade poderemos incluir estas Histórias Curtas no lote das melhores obras do autor de A Grande Arte. O episódico facilitismo, os finais algo descuidados ou a propensão para uma certa gratuitidade espreitam com alguma frequência por entre as curtas narrativas.

E se é incerto que “o pior Rubem Fonseca dá sempre um bom livro”, como alguns críticos defendem, verdade absoluta parece ser a mestria do autor em transformar as vísceras dos seres humanos em exemplares de contemplação obrigatória.

Histórias Curtas

Rubem Fonseca

Sextante Editora

14.40 euros

Classificação (de * a *****) ****

Quando a vida se esvai entre os nossos dedos

09

Junho

2014

Publicado por Sergio_Almeida às 16:47
Tags:
0 comentários

 

Sérgio Almeida

 

Estirado na cama de um hospital, aguardando impacientemente a chegada da morte, um velho faz contas à vida. O corpo, um trapo feito de gente, não o deixa antever, mas a mente do homem é um torvelinho de emoções, acontecimentos e memórias que, no seu conjunto, transformam o pouco que resta da sua vida num exercício mais real do que a existência de muitos seres.


“(...) A vida passa-lhe em bobine, de frente para trás, muito salteada”, começa por narrar Manuel Andrade, num estilo envolvente e sem freio que mantém até às derradeiras páginas, convidando o leitor a embarcar neste “mergulho às vísceras do ser humano”, como escreveu Urbano Tavares Rodrigues na nota introdutória.

 

Se na história da literatura são incontáveis as propostas ficcionais que partem de idênticos pressupostos – o homem que reflete sobre o sentido da existência quando se encontra precisamente numa fase terminal da mesma –, menos frequente será a segurança que o autor exibe no primeiro romance que publica em nome próprio (escreveu anteriormente três livros sob o pseudónimo de Manuel de Varziela).

 

E se a escrita sôfrega, não raras vezes torrencial, pode, em muitos casos, significar mero atropelo de ideias, tal a vontade de enlear o leitor na história, há em Três bichos te esperam, quatro te comerão abundantes exemplos do contrário: o autor, um dos mentores do festival literário Escritaria, em Penafiel, sabe perfeitamente o rumo que pretende incutir à narrativa, conseguindo, mesmo ao fim de sucessivas páginas de profundo arrebatamento, retomar o curso exato da história a contar.

 

Valendo-se da própria experiência como psicólogo clínico que lida com pacientes em estado terminal, Manuel Andrade esmiúça com precisão cirúrgica a matéria de que somos feitos. Interessam-lhe menos as convenções, o socialmente aceite, do que as misérias e contradições humanas, por mais cruas que possam ser. É nesse “lirismo doloroso” a que se refere Urbano que reside a grandeza de um romance que merece ser descoberto por muitos.

O outro é sempre alguém demasiado distante de nós

19

Maio

2014

Publicado por Sergio_Almeida às 18:25
Tags:
0 comentários

 

 

Sérgio Almeida

 

Há um evidente cunho testamentário no décimo romance de Jim Crace, e nem sequer reside apenas no facto de, segundo o autor, este ser o seu derradeiro livro, decisão essa que surpreendeu o meio literário pelo caráter abrupto e inesperado.

 

O esgotamento ou a repetição de fórmulas, eufemisticamente chamados de “coerência” pelos críticos mais pacientes, foram males que nunca se apoderaram dos livros de Jim Crace.


Acima de tudo, com Colheita, o escritor demonstra ter atingido o estado de equilíbrio  da linguagem e de segurança narrativa que qualquer romancista secretamente alimenta, por mais que o negue.

Continuar a exibir tais predicados ao fim de  mais de três décadas de publicação contínua é pormenor de somenos importância para o caso, quando comparado com o que extrai o leitor do domínio patenteado por Crace ao longo do relativamente breve romance. 

 

Ao situar a história numa insignificante aldeia perdida no interior inglês, o autor quis enfatizar a ideia de que as grandes lições da História não estão reservadas para  os corredores do poder. 

 

Tudo se move devagar nessa inóspita povoação onde decorre a ação, habitada por homens e mulheres que trabalham a terra desde sempre, como se o tempo insistisse em passar ao seu redor.  Mas em poucos dias eclode a mudança, com a chegada de um grupo de estranhos à aldeia.

A nova ordem trazida pelo recém-proprietário das terras, acompanhado pelos seus homens de confiança, desperta fantasmas há muito adormecidos. E a desconfiança inicial logo resvala para a violência, assim que são conhecidos os objetivos do proprietário de acompanhar  as transformações que a emergente Revolução Industrial faz adivinhar, para sacrifício dos trabalhadores rurais.

 

Elemento decisivo na eficácia da estrutura narrativa de Colheita – verdadeira alegoria sobre a natureza humana – é a prosa poética e enleante com que Crace vai entretecendo a história, mesmo quando as passagens são mais duras. 

 

Uma beleza que caminha a par da violência.

O rebelde com causa que abraçou a maturidade

30

Abril

2014

Publicado por Sergio_Almeida às 18:34
Tags:
0 comentários

 

Sérgio Almeida

 

O  primeiro romance escrito por John Fante foi também o o último a ser publicado. Falecido em 1983,  bem distante da glória que os seus livros justificariam, Fante já não pôde ver nas livrarias Estrada para Los Angeles”, o livro com o qual deu a conhecer ao mundo  Arturo Bandini, personagem que o acompanhou durante grande parte da obra (como em Perguntem ao pó e A primavera há-de chegar, Bandini, ambos publicados pela Ahab).

 

Apenas uma ironia mais numa vida acidentada como poucas, que serviria de base para os próprios livros que o autor escreveu, incensados por nomes como Charles Bukowski.

Estrada para Los Angeles é disso exemplo.  O (anti)herói da história, Arturo Bandini, é, em larga medida, o próprio escritor. Descendente de emigrantes italianos, cresce numa família disfuncional,  privado da influência paterna, ansiando apenas pelo momento em que iria deixar a miséria que o cerca para trás, para construir um futuro radioso.

 

Mas Bandini não acalenta quaisquer  sonhos. Leitor ávido que devora as obras dos grandes pensadores, de Nietzsche a Kant, sem os compreender verdadeiramente, vê-se forçado, para sustentar o necessitado lar, a aceitar empregos atrás de empregos, sem que se detenha verdadeiramente em nenhum, por não se querer sujeitar a qualquer tipo de regra que possa condicionar a sua tão amada liberdade. 

 

Apesar de ter sido recusado por todas as editoras que John Fante contactou, Estrada para Los Angeles não é o típico romance de um jovem de 24 anos. Nota-se, é certo, uma influência talvez excessiva de alguns autores e livros – sobretudo À espera no centeio”, de J. D. Salinger, e, sobretudo, o magistral Fome, de Knut Hamsun –, mas o enorme talento do autor de A confraria do vinho já era por demais evidente no livro de estreia.

 

Espraia-se em passagens abundantes ao longo da narrativa, que descrevem com nitidez a rebeldia e insatisfação do imaturo Bandini, jovem com ânsia de agarrar o futuro com as próprias mãos.

O sexo e o humor como aliados anticrise

21

Abril

2014

Publicado por Sergio_Almeida às 19:37
Tags:
0 comentários

 

Sérgio Almeida

 

Especialista na arte de surpreender o leitor, de afastá-lo do conforto da zona de segurança para que possa contemplar com mais nitidez a matéria de que é feito, Manuel da Silva Ramos (MSR) espera pela última página de Perfumes eróticos em tempo de vacas magras para adverti-lo sobre o risco do livro que acaba de ler...

 

Apenas um exemplo mais da peculiar estratégia narrativa de um autor cuja obra, embora remonte já a 1968, permanece largamente desconhecida junto de demasiados leitores.


 

“Fazer rir os céticos, pôr de bom humor os bem-vividos”, explicita MSR na mesma nota final em que também defende que, ao contrário do que poderemos ser levados a pensar, “a literatura erótica tem como primeira missão provocar o riso”.
 

Se a “missão (sor)riso” a que o autor se propõe nem sempre é bem sucedida, apesar de não faltarem momentos recheados de humor, há um capítulo em particular em que acerta sempre no alvo. A zombetear o poder, a expor as fragilidades lusitanas, Silva Ramos revela-se mestre. Capacidade que aprimorou nos longos anos em que viveu afastado do país.

 Enquanto a maioria dos colegas de ofício insiste em deitar os portugueses  no divã do psicanalista para traçar à força um perfil psicológico, MSR move-se por outros propósitos. Não coloca os portugueses a olhar para o próprio umbigo, mas, sim, para as partes pudibundas. Ciente de que, deste modo, obtém um retrato mais preciso do que os dos pretensos tratados científicos. 
 

Até porque, como escreve em Bem-vindo à vida, “neste país, os negócios são como o sexo. Nada se sabe de concreto. É tudo segredo, especulação e inveja. Às vezes, também admiração maldosa. E os lesados são os últimos a saber”.

Ambientadas no Portugal de hoje, da troika e do eufemístico ajustamento, os 40 contos de Perfumes eróticos em tempo de vacas magras conseguem libertar-se do espetro da austeridade de que os portugueses não conseguem ver-se livres, comprovando que a vida mantém-se imune aos esforços dos que insistem em legislar até os prazeres íntimos.

Uma crónica de maus malandros

15

Abril

2014

Publicado por Sergio_Almeida às 20:03
Tags:
0 comentários

 

Jorge Fiel 

 

A arrepiante história de Diogo Alves, o homem que aterrorizou Lisboa no século XIX, é uma viagem no tempo até uma cidade violenta, em que todos os dias se registam dois roubos - e em cada dois dias há um assassinato.  

 

 

Não espanta, pois, que a malandragem tenha permanência assegurada nas conversas de gente de bem, que não se aventura a andar à noite em ruas mal iluminadas, onde a cada esquina se pode tropeçar num gatuno de maus fígados, azedados pelo álcool, e não ter tempo para dar sebo aos calcanhares.


 

As pessoas que habitam O assassino do Aqueduto, o primeiro romance histórico de Anabela Natário, vivem em tempos inseguros e já sofreram muito. Assistiram à fuga para o Brasil do príncipe regente e da corte - cerca de cinco mil pessoas, mais do que a população de muitas cidades portugueses. Aguentaram o saque das tropas de Junot e as humilhações da regência britânica. Viveram a Revolução Liberal e uma terrível Guerra Civil. E agora, que os anos 30 se aproximam do fim, a inexperiente rainha D. Maria II e “governos instantâneos na formação e na queda” (página 94) não lhes dão motivos para olharem o futuro com esperança.

 

Lisboa tem 200 mil habitantes, dos quais 10% são galegos que enchem o português de xis, alguns que ganham a vida honestamente, como aguadeiros, carvoeiros ou boleeiros, outros que nem tanto, como Diogo Alves, que entrou no imaginário como o assassino do Aqueduto, mas cometeu bem mais macabros, como os descritos neste livro e que o levaram à forca, após uma competente investigação dirigida pelo juiz Bacelar.  

Diogo Alves, 28 anos, “aquele de quem se fala” (página 20) é “um facínora espertalhaço, galego de má raça, rouba e mata, e escapule-se sem deixar rasto” (página 42), é de Lugo mas veio moço para Lisboa onde começou como boleeiro, profissão onde não se demorou, pois um dia caiu abaixo do cavalo, aterrou com a cabeça no chão, num acidente que “lhe terá chocalhado os interiores e invertido o senso” e lhe deu a alcunha de Pancada.


Amante de Gertrudes, a Parreirinha,  Diogo “Pancada” Alves é o cabecilha de um gangue, onde se destacam o Beiço Rachado (sapateiro e desertor do exército onde foi o rapaz do bombo), o Pé de Dança (transmontano, ex-barbeiro e fanático por teatro), e João das Pedras ( conhecido por o Enterrador pois nas horas vagas ajuda os coveiros a troco de uns pintos) patifes da vida real imortalizados numa ficção que além de uma viagem do tempo é também uma crónica de maus malandros, que não foi construída como um thriller e por isso se deve ler devagar, saboreando palavras, frases, ambientes, situações e personagens, tudo cozinhado em lume brando, como convém a um produto gourmet.

A música das palavras de Vanessa da Mata

20

Dezembro

2013

Publicado por Sergio_Almeida às 15:47
Tags:
0 comentários

Luísa Moreira

 

O romance de estreia da popular cantora brasileira Vanessa da Mata, A Filha das Flores, mais parece um conto de fadas. Conta a história de Adalgiza, conhecida por Giza, uma menina que vive com a família numa pequena vila do interior do Brasil, onde cultiva e vende flores.

Aqui, nota-se um paralelismo com a vida de Vanessa da Mata,que também cresceu numa pequena vila de Mato Grosso. Talvez por isso a riqueza dos pormenores de ruralidade e interioridade.

Orfã, Giza nunca conheceu pai nem mãe e interroga-se se seria irmã das suas tias e filha de seu avô: “Mantive as minhas perguntas em segredo e assim segurava as minhas esperanças, podendo ser filha de quem eu bem entendesse. A filha das flores”.

Além de se questionar sobre a sua origem, a menina vai-se tornando numa adolescente curiosa, questionando as crenças, rituais e dogmas católicos. Vai-se tornando uma mulher bonita, atraente aos olhos dos homens, coisa em que ela não acreditava antes.

A cantora pode surpreender pela leveza da linguagem e pela utilização de expressões alegres, que fazem sorrir, mas não tanto pelas frases ritmadas e melódicas, que nos remetem para a sua música. “O nome dela é Flor de Laranjeira, é como a chama, rapaz. Mas para você é apenas Flor, é prima minha que veio do interiorzão, meio bronca. Não ligue, meu bem, quase muda, sabe. O meu nome é Juliana, e o seu?” ou imagens poéticas: ”A terra da sua cor me chama, como se o seu corpo continuasse. Qualquer curva no horizonte deitado é sua… Pena que o oficío é maior do que eu”.

Na segunda metade do romance, quando Giza descobre a cidade vizinha e faz novas amizades, vive uma paixão intensa com Tito e acaba por ir descobrindo as suas origens com uma série de fantasias que mais parece um conto infantil ou uma Cinderela para adultos.

 

TÍTULO: A filha das flores
AUTORA: Vanessa da Mata
EDITORA: Quetzal
PREÇO: 16,60 euros

Jamie Oliver contra o desperdício alimentar

11

Novembro

2013

Publicado por Sergio_Almeida às 15:08
Tags:
0 comentários

 

 

Maria Cláudia Monteiro

 

Compre bem, cozinhe melhor, desperdice menos é o novo desafio lançado pelo "chef inglês Jamie Oliver, no seu mais recente livro Poupe com Jamie.

 

“Um livro de cozinha com receitas deliciosas, todas tendo em mente a poupança, uma arma de efeito assegurado sempre à mão na prateleira da cozinha, para todo o tipo de pessoas”, explica.


 

O mediático cozinheiro britânico reuniu 120 receitas num livro de capa dura para ensinar “a cozinhar comida saborosa e nutritiva e com pouco dinheiro”. Receitas que põem em prática as grandes bandeiras de Jamie Oliver: cozinha saudável, nutritiva, criativa, fácil e, agora, económica.

 

“Cada receita é um valor seguro e fica mais barata do que a comida de um takeaway”, a promessa na lombada do livro é demonstrada nas 287 páginas seguintes. Mas mais do que a compilação de 120 receitas para poupar, o novo livro de Jamie Oliver explica e integra todo o conceito de cozinha trabalhado nos últimos anos pelo britânico.

 

Em Poupar com Jamie há conselhos sobre a melhor forma de comprar e de garantir uma despensa com tudo o que é preciso na hora de cozinhar. Há também dicas sobre como tirar o melhor partido dos ingredientes, fazê-los render mais e aproveitá-los melhor.

 

“É a mais-valia deste livro – ajudar a manter as pessoas bem alimentadas, felizes, bem nutridas e saudáveis, ao mesmo tempo que mantém os gastos sob controlo”, explica Jamie Oliver. “Estou aqui para lhe fornecer toda a informação útil possível”.

 

Poupar com Jamie é um livro fácil de usar e de consultar e está dividido em seis capítulos: vegetarianas, frango, vaca, porco, borrego e peixe. A precedê-los tem uma primeira parte com conselhos de congelação, outra com o “essencial” da despensa e com todos os utensílios básicos que deve ter à mão.

 

Nas últimas páginas do livro, existe informação nutricional de cada uma das 120 receitas de forma a ajudar o leitor “a fazer escolhas conscientes”.

 

Um livro para ser passado “de geração em geração”. “Será, sem dúvida, o primeiro livro de cozinha dos meus filhos, quando tiverem idade para cozinhar”, garante Jamie Oliver.

A normalidade fica à porta

20

Junho

2012

Publicado por Sergio_Almeida às 16:20
Tags:
0 comentários

 

Sérgio Almeida 

 

Doses nada despiciendas de surrealismo, absurdo e, sobretudo, muita imaginação estão fortemente presentes no novo livro do Joana Bértholo, jovem autora portuguesa que se estreou na publicação há dois anos com Diálogos do fim do mundo.

Já distinguida por várias vezes, de que é exemplo o Prémio Maria Amália Vaz Carvalho, a escritora reúne neste insólito livro largas dezenas de narrativas cuja dimensão oscila entre a meia dúzia de linhas e as três páginas.

Do homem que mastigava 78 vezes antes de engolir à rapariga que todos os dias ia tomar café com um poema, nas histórias aqui reunidas a normalidade fica à porta, trocada, com evidente gosto, pelos estimulantes territórios do non-sense.

Entre influências tão díspares como Mário Henrique Leiria ou Gonçalo M. Tavares, subjaz o caráter eminentemente lúdico da escrita de Joana Bértholo, que se recria com evidente deleite com o poder da linguagem, enriquecida pelas ilustrações de Daniel Melim.


TÍTULO: Havia
AUTOR: Joana Bértholo
EDITOR: Caminho
PREÇO: 11.90 euros

 

Ensaios visuais sobre a lucidez

31

Janeiro

2012

Publicado por Sergio_Almeida às 13:00
Tags:
0 comentários

 

Sérgio Almeida 

 

Com uma coerência acima de qualquer dúvida, Gonçalo M. Tavares continua a erguer  uma obra que, explorando como poucas as fragilidades da humanidade no que esta tem de mais imperecível, não se furta a dialogar com o presente, ao criar, sem necessidade de panfletarismos  gratuitos ou militâncias serôdias, ensaios que contribuem para um maior esclarecimento e lucidez.

Em tempos em que a resignação e a revolta se tornaram, de tão antagónicas, em mecanismos de manipulação destinados à perpetuação do ‘statu quo’, Tavares propõe uma via alternativa – a desmontagem dos artifícios da escrita, no que constitui uma transformação interior de resultados mais duradouros do que qualquer uma das anteriores posições.

Dos dois tomos publicados nas últimas semanas, Short movies é o que melhor se inscreve nessa tentativa de reordenamento do Mundo através do paradoxo: são mais de meia centena de micro-histórias nas quais o escritor se converte em cineasta, dada a forte visualidade dos textos.

Sem julgamentos morais ou considerações ideológicas, o autor de Canções mexicanas (lançado recentemente pela Relógio D’Água) explana, com uma secura narrativa notável, situações que oscilam entre o absurdo, o risível e o medo.

Neste catálogo de sensações, no qual não faltam homens que fogem de si mesmos desconhecendo que se limitam a correr atrás de uma mesa, a câmara que observa o que a rodeia é fria e desapiedada. À imagem da própria realidade.

 

TÍTULO: Short movies

AUTOR: Gonçalo M. Tavares

EDITOR: Caminho

PREÇO: 11.90 euros

Espécie de policial que retrata uma nação

19

Janeiro

2012

Publicado por Sergio_Almeida às 14:44
Tags:
0 comentários

 

Rui Branco

 

Esta espécie de romance policial é mais uma história apaixonante passada numa povoação da Argentina de 1970, uma época particularmente cara a Ricardo Piglia. Em Alvo nocturno, tudo se precipita quando Tony Durán, um bem apessoado porto-riquenho que, diz-se, mantém uma tórrida relação com as gémeas ruivas Ada e Sofia Belladona, aparece assassinado no quarto do hotel.

A partir daí surgem as mais diversas teorias sobre o que terá estado na base do crime, que passam desde a lavagem de dinheiro até à questão passional homossexual, tendo sido injustamente acusado o desgraçado de um segurança japonês do hotel, que tinha uma foto de Durán seminu na mesa-de-cabeceira do seu quarto.

É então que entra em acção o alter ego de Piglia, o jornalista Emilio Renzi, que desagua na pequena povoação e vai encontrar um microcosmos que representa o país nesses tempos de ditadura, com a morte violenta, a corrupção, a lavagem de dinheiro e de empresas, o sexo, as drogas, as intrigas familiares, entre outras situações peculiares ao ambiente de ditadura militar que dominava a nação argentina.

Renzi encontra no detective Croce um precioso cicerone, ainda que se trate de uma personagem um tanto ou quanto desconcertante, uma vez que se refugia num hospício sempre que precisa de descansar durante algum tempo, longe dos dramas que povoam habitualmente o seu quotidiano. Mas ninguém conhece aquela terra e aquela gente como Croce.

Para acompanharmos de uma forma mais próxima os passos de Renzi, o autor acrescenta, no final de alguns capítulos, as suas anotações em itálico e é assim que ficamos a saber, por exemplo, que o jornalista acaba por se tornar visita frequente dos lençóis  de uma das belas e desejadas gémeas Belladona.

Apesar de ter ganho o Prémio Hammet para romance negro, a obra  não é exactamente um policial nos moldes que conhecemos, ainda que Ricardo Piglia se sirva desse clima para partir para um tipo de narrativa multifacetada, graças  às figuras que cria, só possíveis nas histórias que nos contam os grandes escritores sul-americanos. E Piglia é um deles

 

TÍTULO: Alvo Nocturno

AUTOR: Ricardo Piglia

EDITOR: Teorema

PREÇO: 16.90 euros

De obra promissora a bocejo literário

18

Janeiro

2012

Publicado por Sergio_Almeida às 17:28
Tags:
0 comentários

 

Vítor Pinto Basto

 

Uma estudante desaparece. A família do pai, chique e desestruturada, contrata detectives privados para a encontrar. Pista: Valentine não é flor que se cheire, costuma fazer sempre o que quer e da maneira mais descomplexada possível, uma explosiva “baby” parisiense que assume ser capaz de trocar os seus luxos pelos pais carinhosos que não tem.

Para início de livro, a autora. Virginie Despentes (que nos é dada como ex-mulher a dias, ex-prostituta, ex-crítica de filmes pornográficos e cineasta), tem o condimento substancial para nos agarrar à leitura. Porém, à medida que entram em cena as duas detectives (Hiena, lésbica, arisca e com sincrética destreza intelectual, e a narradora, que acaba por ter uma relação lésbica, em Barcelona, durante as investigações), a história torna-se sensaborona até ao imprevisto final de Valentine.

Daí o nome do título, Apocalypse baby, tornado clarividente no fim de um livro elogiado por alguma crítica internacional, farto em orgias de gente mal-amada e em críticas ao niilismo de uma sociedade em queda livre para o nonsense, mergulhada no criticável individualismo.  

Assim, a fugitiva e o seu apocalipse surpreende e desilude. Transformando-se num penoso bocejo literário.

Bocejo que nos leva a questionar a importância dos prémios literários. Apocalypse baby venceu o Prémio Renaudot. É obra premiada como muitas, em Portugal e no estrangeiro, suculentas em desnecessários bocejos literários.

 

TÍTULO: Apocalypse baby

AUTOR: Virginie Despentes

EDITOR: Sextante

PREÇO:  16.60 euros

Histórias mínimas com efeito prolongado

11

Janeiro

2012

Publicado por Sergio_Almeida às 13:00
Tags:
0 comentários

 

Sérgio Almeida

 

São narrativas breves mas não fugazes as que compõem Contos do efémero, primeiro livro de Rui Sousa Basto.

Lê-las equivale a entrarmos num universo alternativo que, por improvável que possa parecer, é revelador da animalidade associada à condição humana. Evitando as fáceis armadilhas da gratuitidade e do moralismo, o autor colou a essas narrativas uma notável contenção estilística que apenas aumenta o seu impacto.

Os exemplos dessa atracção particular pelo sombrio ou insólito atropelam-se. Há políticos internados de urgência por terem sucumbido às garras da honestidade, agentes da autoridade escrupulosos no cumprimento das leis severas mas apenas fora das horas de serviço, octogenárias que, por recusarem os sinais do tempo, não abdicam do uso de máscaras...

Na derradeira micro-história, um escritor vê-se forçado, a pedido do editor, a resumir cada vez mais o seu romance de mil páginas, por razões relacionadas com as solicitações do mercado. No final, após sucessivas intervenções, o livro é condensado a uma única frase, escrita “na lápide da campa onde enterrou o editor”.

Num parágrafo, Rui Sousa Basto consegue descrever situações-limite, reveladoras do frágil equilíbrio em que assentam as supostas regras civilizacionais. A escrita seca, despida de artifícios, revela-se a mais indicada para traduzir estes estados de alma, à semelhança dos desenhos de Pedro Aires, cujos traços elegantes impressionam pela sobriedade. 

 

TÍTULO: Contos do efémero

AUTOR: Rui Sousa Basto

EDITOR: Opera Omnia

PREÇO:  13 euros

O que perdura quando tudo o resto desaparece

09

Janeiro

2012

Publicado por Sergio_Almeida às 13:00
Tags:
0 comentários

 

Sérgio Almeida 

 

O ano que findou há poucos dias não foi avaro foi para essa pequena legião de resistentes que são os leitores de poesia.

É verdade que o género voltou a estar quase arredado das apostas das principais editoras – tendência que, por certo, irá acentuar-se em 2012 – e não consta que  algum livro de poesia tenha entrado em qualquer tabela dos mais vendidos (como se isso significasse algo). E, no entanto, a poesia deu sinais de franco dinamismo.

Além da multiplicidade de edições (em formato artesanal ou de auto-edição, pouco importa), das revigorantes propostas de inúmeros colectivos de poesia e das novas obras de autores como Gastão Cruz, José Agostinho Baptista ou Bernardo Pinto de Almeida, só para citar alguns exemplos, o Prémio Camões foi entregue a um dos maiores artífices da língua portuguesa, Manuel António Pina, motivo de regozijo para todos quantos ainda entendem que a literatura não se esgota no marketing.

Na recta final de 2011, o mesmo autor, após um hiato poético de oito anos, publicou Como se desenha uma casa, livro em que a depuração e a pureza presentes há muito na sua escrita atingem um novo cume.

“Uma casa é as ruínas de uma casa, / uma coisa ameaçadora à espera de uma palavra; / desenha-a como quem embala um remorso, / com algum grau de abstracção e sem um plano rigoroso”, escreve logo no inaugural poema homónimo, num tom que encontra eco ao longo das páginas seguintes.

O regresso à essência, a marcha inexorável do tempo e a necessidade do silêncio pairam sobre estes escritos, nos quais a beleza e a melancolia caminham de par em par, numa dança assombrada que ora nos cativa ora nos repele. De permeio, convoca os companheiros de sempre, como os gatos e os livros, “esta espécie de coração (o nosso coração) dizendo ‘eu’ entre nós e nós”.

Não menos impressiva é a segunda parte do livro, Amigos e outras moradas. Nos nove poemas aí inscritos, Pina revisita amizades (e)ternas, como as de Eugénio e de Mário Cesariny, e, para lá da dor que a partida de alguém próximo nos provoca, tudo relativiza com a ironia desarmante de sempre. “Mortos estamos todos. A gente vê-se um dia por Aí”.

 

TÍTULO: Como se desenha uma casa

AUTOR: Manuel António Pina

EDITOR: Assírio & Alvim

PREÇO: 10 euros

A vida do escritor maldito vista à lupa

08

Janeiro

2012

Publicado por Sergio_Almeida às 13:00
Tags:
0 comentários

 

Cristiano Pereira  

 

Luiz Pacheco construiu um percurso de vida, no mínimo, singular. João Pedro George, professor de Sociologia da Cultura na Universidade Nova de Lisboa, que se tem debruçado em investigações sobre o meio literário português, fez dessa vida errante a sua tese de doutoramento.

Parte dela está agora reunida em *** que os pariu! A biografia de Luiz Pacheco. O livro, com carimbo das edições Tinta da China, já está  nas lojas e pode ser adquirido por pouco mais de uma nota de 20 euros, coisa pouca tendo em conta o retorno: quase 600 páginas onde são reconstruídos, com um rigor assinalável, os passos de uma das personagens mais fascinantes e polémicas do meio literário português das últimas seis décadas.

A labuta de João Pedro George parece ter sido tarefa épica: conversou com Pacheco ao longo de imensas horas, recolheu depoimentos de dezenas de pessoas que lhe eram próximas, estudou e dissecou todos os textos que o autor publicou e teve acesso a um vastíssimo naipe de material inédito (cartas, sobretudo).

Chega, aliás, a ser impressionante a quantidade de fontes e bibliografia que passou pelas mãos do biógrafo – e o resultado é uma minuciosa reconstrução da vida e obra de Pacheco. Está lá tudo, e devidamente arrumado e organizado: as mulheres e as prisões, a faceta de editor com a Contraponto, a marginalidade, o alcoolismo, a causticidade da sua verve de crítico literário e, claro, a obra escrita. 

“A obra de Pacheco é claramente uma transposição quase directa da sua situação existencial”, escreve, já no final, enumerando os “problemas, conflitos e angústias gerados pela sua vida conjugal, a separação dos filhos, as relações amorosas e sexuais, as deambulações pelo país, as prisões, a miséria material, a vida picaresca, as múltiplas e obsessivas doenças, a experiência como escritor profissional, a tensão entre a exigência de ganhar dinheiro (fazendo traduções, revisões tipográficas, colaborando na imprensa) e o trabalho de criação literária propriamente dito”.

João Pedro George fez um magnífico e denso trabalho.  E deixou a questão: “Pode um biógrafo, depois de conhecer profundamente a vida de um escritor, ficar a gostar mais do autor do que da obra?”

 

TÍTULO: *** que os pariu! A biografia de Luiz Pacheco

AUTOR: João Pedro George

EDITOR: Tinta da China

PREÇO: 23.90 euros


publicidade

Arquivo do blogue

Fale com o autor

Sérgio Almeida: sergio@jn.pt