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"A morte é uma aberração"

14

Março

2012

Publicado por Sergio_Almeida às 19:25

 

Sérgio Almeida

 

Madrid, 2109. A Humanidade atravessa dias incertos. A tensão entre humanos e replicantes, uma casta de andróides, atinge um ponto de ruptura. Por todo o lado, sucedem-se confrontos violentos que deixam vir ao de cima o pior que cada uma das espécies possui.

Novo romance de Rosa Montero, Lágrimas na chuva não esconde que se trata de uma homenagem ao lendário Blade runner, de Philip K. Dick. Mas a segunda incursão da autora de A louca da casa pelo género de ficção científica, mais de duas décadas decorridas sobre a primeira, está longe de cingir-se aos contornos futuristas.

Montero, uma das escritoras espanholas mais estimadas pelo público português, acredita mesmo que escreveu a obra mais realista da sua carreira, já que, ao contrário do que é hábito, situou lugares e acontecimentos com uma grande precisão.

“A ficção científica não está divorciada da realidade. Pelo contrário. Ajuda-nos a conhecê-la melhor, mesmo que através de metáforas. Infelizmente, em Espanha confunde-se este género literário com maus telefilmes, repletos de esoterismo e marcianos de orelhas bicudas”, lamenta.

A trama futurista não foi impedimento para que a romancista dissertasse no livro sobre os seus temas de eleição, como a identidade, a memória, a luta pela sobrevivência e a morte, a qual considera “uma aberração, algo antinatural e inconcebível”. E concretiza, defendendo que “todas as ações humanas, sejam literárias, históricas ou religiosas, são uma tentativa de lutarmos contra a morte”.

O desenvolvimento tecnológico ao longo da História não convence por inteiro a escritora, para quem a condição humana, pese embora todas as transformações que desencadeou, não mudou assim tanto ao longo dos anos: “É por isso que ainda hoje nos emocionamos tanto com histórias escritas há dois mil anos”.

Com Bruna Husky, a detetive que protagoniza o livro, criou uma relação de proximidade, a mais forte que desenvolveu até hoje com uma personagem. Rosa Montero revê-se na fúria de viver de Husky, mas afasta a hipótese de ter criado uma réplica à sua imagem. “Ela é uma pantera, como gosto de me ver, mas muito ampliada”, admite, esperançosa de que Lágrimas na chuva possa contribuir para esbater os estereótipos que ainda rodeiam a ficção científica, género em que tem como mestres, além de Philip K. Dick, Brian Aldiss ou Ursula K. Le Guin, "uma das maiores escritoras do século XX”.

A par da literatura, o jornalismo é outro dos eixos da vida da autora de Instruções para salvar o Mundo. A jornalista do El Pais, periódico onde colabora desde 1976, vê com preocupação a crise que assola a comunicação social mas rejeita cenários catastrofistas, porque “o jornalismo não vai morrer”. “O que estamos a assistir é a uma mudança de suportes e ferramentas, porque os jornalistas vão continuar a ser necessários. O jornalismo dos cidadãos não existe sem a mediação dos profissionais da comunicação social”, diz.

 

 

TÍTULO: Lágrimas na chuva

AUTORA: Rosa Montero

EDITORA: Porto Editora

PREÇO: 16.60 euros

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Sérgio Almeida: sergio@jn.pt