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"Só escrevo porque sinto prazer a fazê-lo"

08

Outubro

2013

Publicado por Sergio_Almeida às 15:36

 

 

 

Sérgio Almeida

 

Para onde vão os guarda chuvas, Assim mas sem ser assim e O cultivo das flores de plástico são os mais recentes títulos da fulgurante obra de Afonso Cruz. Ao Jornal de Notícias, o escritor – mas também ilustrador, músico, cineasta e não só – afirma não dissociar a escrita do prazer. A alternância de projetos artísticos é, para o autor de Jesus Cristo bebia cerveja, uma faculdade de que não abdica.

 

 

Os livros que tem publicado distinguem-se por norma dos anteriores. Procura contrariar a máxima segundo a qual os escritores escrevem sempre o mesmo livro?

Acho que me aborreço se passar a vida a fazer sempre a mesma coisa, tento que cada livro seja um novo projecto, com novos desafios e abordagens. E gosto de contrariar máximas, como essa de que os escritores escrevem sempre o mesmo livro.

 


Afirma que ser escritor é uma actividade de prazer, o que não é uma visão tão comum como isso, uma vez que impera no meio literário a ideia de que a escrita implica um sofrimento quase atroz... Tende a desconfiar dos que cultivam essa aura de inacessibilidade ou criação divina?


 Se escrever não me desse um grande prazer, provavelmente não o faria. Há momentos, como em tantas circunstâncias da vida, em que tenho situações mais trabalhosas ou difíceis de resolver. Mas é apenas isso. A ideia de sofrimento ligada a uma arte, qualquer que seja, parece-me um romantismo de outro século.

 


É quase obrigatório falar nas suas diferentes facetas de ilustrador, cineasta, músico e até produtor de cerveja. Acha que são aproximações importantes para compreender o teu trabalho literário ou não passam de simples curiosidades?


 Não sei se são importantes para compreender o meu trabalho literário, mas são muito importantes para mim e não me imagino a viver sem desenhar ou sem tocar. Tal como a escrita me dá prazer, a ilustração e a música também. Ultimamente, não tenho trabalhado com cinema de animação, porque é um trabalho de equipa e eu vivo no campo, o que torna difícil qualquer projecto nesta área. Quanto a fazer cerveja, é divertido, mas bebê-la é muito mais.

 


O reconhecimento que tem tido na literatura poderá fazer com que, num futuro não muito distante, se dedique a ela em exclusivo?

 Creio que isso não acontecerá, até porque os meus livros, mesmo os romances, têm muitas vezes ilustrações e acho natural que, no futuro, tenha cada vez mais projectos em que se justifique a inclusão e mistura de várias artes.

 

Teve uma juventude muito nómada, em que conheceu dezenas de países. Essas viagens sãs as responsáveis pelo facto de os seus livros serem tão abertos a outras culturas?

Pode ser uma explicação, mas quando se começa a viajar é porque já estamos abertos a outras culturas. Pelo menos, eu estava. Creio que o cosmopolitismo, que me agrada muito, é mais defeito ou feitio, do que resultado dessas viagens, que acabaram por ser uma consequência normal do modo como penso o mundo e a vida.

 

Curiosamente, a criação artística ganhou força a partir do momento em que se tornou mais sedentário. Tratou-se de assimilar primeiro para criar a seguir?

Talvez, mas sem consciência disso, a minha intenção não era acumular para criar, mas acabou por acontecer desse modo. De resto, a inquietação é a mesma: se não apanho um avião, sento-me a escrever. São duas boas maneiras de conhecer o mundo e os homens e a sociedade. O que me pareceria estranhamente impossível seria ter trocado uma vida nómada por uma vida sentado num sofá com o comando na mão.

 

Publicou já depois dos 35. Ter resistido a publicar mais cedo foi o melhor que fez?

Não tive de resistir, pois só comecei a escrever com 37 ou 38 anos, portanto não tinha nada para publicar antes disso, ou intenção de ser escritor. A primeira coisa que escrevi foi Enciclopédia da Estória Universal e só a determinada altura do processo é que me apercebi de que poderia ter ali um livro publicável. O que a acabou por se concretizar. Enviei o original para a Bertrand e tive sorte.

 

Há uma certa ideia de jogo que parece envolver os seus livros. É um exercício que não faz sentido para si se o leitor não se sentir envolvido?

 Gosto que os leitores se envolvam e agradam-me metáforas e analogias, ligações, referências. Gosto de jogos. Sinto que os livros, se andarem de mãos dadas a outros livros, autores, artistas, ficam mais fortes. A companhia faz-nos isso e aquilo que escrevemos ganha mais dimensões se trouxer consigo mais histórias além daquelas que estão à superfície. Gosto de cerejeiras e nespereiras porque, qualquer uma delas, precisa de estar a ver uma outra da sua espécie para dar fruto. Uma nespereira necessita de outra. Os livros, para mim, são assim, precisam de outros para frutificarem.

 


É lícito dizer que experimentas uma liberdade maior num género livre como na Enciclopédia universal, em que cabe quase tudo, do que nos romances?

 Sim, a Enciclopédia permite essa liberdade mais facilmente do que um romance e permite-me, por exemplo, escrever poemas, micro-ensaios, sem precisar de justificar a sua inclusão, como aconteceria num livro com outras características.

 

Saber o que é real ou ficção acaba por ser secundário?

Acho que ter “realmente” acontecido não é tão importante quanto a mensagem que queremos passar. Os mitos gregos não perdem valor por serem fantasia, pelo contrário, parece-me até que estão mais próximos da “verdade”. A ideia de que a realidade é o que experimentamos através dos sentidos é demasiado pequena. Não vemos sentimentos ou pensamentos quando olhamos para uma pessoa, não lhe vemos o passado, e, no entanto, tudo isso está lá. De resto, eu não acredito na realidade. Como disse Kandinsky, ou Mondrian, ou Klee, ou outro pintor qualquer que não consigo precisar: Se achas que a fantasia não tem nada a ver com a realidade é porque não percebes nada da natureza.

 

Muitos dos seus livros estão na fronteira entre vários géneros. Os géneros literários convencionais parecem-lhe cada vez mais redutores?

Quando tenho uma ideia para um livro tento que todo o objecto ajude e reforce aquilo que pretendo transmitir e isso, claro, faz com que muitas vezes saia de lugares mais ortodoxos. Mas considero que, não tanto para mim, mas de um modo geral, os géneros são muito redutores. E há também muito preconceito relacionado com isto. O infanto-juvenil, o policial, a ficção científica, por exemplo, não são vistos da mesma maneira. Ninguém põe A Jangada de Pedra na secção de fantasia, do mesmo modo que ninguém põe Crime e Castigo nos policiais. Julgo que a maior parte das pessoas acha isso desprestigiante. E se, por exemplo, a Alice no país das maravilhas estiver na secção de “literatura normal”, é um elogio. Estando essa mesma secção tão cheia de porcarias quanto outra qualquer.

 

Lendo os seus livros ficamos com a ideia de qe foi mais influenciado por autores estrangeiros do que por portugueses. É mesmo assim?

 É mesmo assim, à excepção da poesia que sempre li mais portugueses. De resto, acho que é normal, os estrangeiros são mais do que nós e há um mundo enorme que não devemos deixar fora de nós. É verdade que damos pouco valor ao que fazemos, mas também é verdade que por vezes achamos que somos os maiores. Felizmente está-se a escrever muito bem em Portugal e cada vez mais se justifica ler autores portugueses.

 

Há quase cinco anos decidiu trocar a cidade pelo campo. A quietude que deve significar viver num monte alentejano repercutiu-se de algum modo na sua escrita (ou isso é também uma das muitas mistificações literárias)?

 Para mim, é uma mistificação. Escrevo em frente ao computador, na sala, e não debaixo de um sobreiro. Comecei a escrever ainda vivia em Lisboa, na Almirante Reis (existe, em Lisboa, lugar mais urbano e cosmopolita?) e não encontro diferença nenhuma entre fazê-lo na cidade ou no campo. A paisagem que está fora de minha casa não é nada importante para o meu trabalho. É muito importante para outras coisas, mas para escrever, não preciso da calma alentejana, preciso, isso sim, de um quarto ou de uma sala onde me possa sentar, sem que me incomodem, a escrever. E isso pode acontecer com a mesma facilidade tanto num apartamento da capital como num monte em Sousel.

 

É um dos nomes mais destacados da designada nova geração de escritores portugueses. Na ausência de grandes afinidades estéticas e ideológicas entre eles, podemos dizer que os une é sobretudo a despolitização e uma certa condição apátrida da literatura?

Não me parece. Se não temos grandes afinidades estéticas e ideológicas, algo que também não tenho a certeza de ser verdade, não me parece ser a despolitização que nos une. Em relação ao desinteresse pela pátria, penso que vivemos num mundo em que podemos partilhar, com muito mais facilidade do que há uns anos, culturas. Isso, evidentemente, influência aquilo que fazemos, com mais mundo. Já ninguém é português ou espanhol. Vestimo-nos todos da mesma maneira, com as mesmas marcas, lutamos pelas mesmas coisas, reivindicamos os mesmos princípios morais. Isso reflecte-se na literatura. Tem coisas boas e tem coisas más, mas eu gosto do potencial de crescimento que gera. Sabe sempre bem ultrapassar as nossas fronteiras, sejam geográficas, psicológicas, sociais, religiosas, políticas ou literárias.

 

Numa entrevista recente, Miguel Real criticava os escritores de hoje por estarem algo alheios dos problemas sociais, “dormitando narcisisticamente na sua concha”. Concorda?


 Discordo. A maior parte dos escritores de hoje têm preocupações sociais. Não serão todos, mas sempre foi assim, em todas as gerações. Esta não é pior ou melhor do que outras. Os livros não têm de nomear o FMI, as cagarras ou o Coelho para serem politizados e fazerem crítica social. A verdade é que Os miseráveis do Hugo ou Crónicas marcianas do Bradbury são tão actuais, no que respeita à sociedade, quanto qualquer jornal. O primeiro exemplo nomeia muitos políticos da época (curiosamente são as partes mais desfasadas da actualidade) e o segundo não. Ser mais ou menos panfletário, estar mais ou menos colado à actualidade, não é uma exigência para se estar envolvido socialmente. Há muitas maneiras de criticar o mundo à nossa volta. Posso fazê-lo tão bem e tão eficazmente com um conto passado na Antiguidade clássica como com um conto passado na praça Taksim. Diógenes de Oenoanda, há quase dois mil anos, criticava o consumo. Não nomeou ninguém, e, no entanto, o texto é perfeitamente actual. Curiosamente, li recentemente um texto numa revista colombiana, que comparava o Valter Hugo Mãe ao Fernando Vallejo, pela crítica que em A máquina de fazer espanhóis é feita ao nosso país.

1 comentário(s)

Ecfi sexta-feira, 11 de Outubro de 2013 6:10

Hoje conheci Afonso Cruz e Victor Hugo Mãe,e,como sonhar não custa nada,quem sabe um dia não seguirei seus passos na carreira literária?Sou carioca (ninguém é perfeito)  hoje radicada no sul do Estado do Rio de Janeiro,há décadas evadida da  capital e ,ex-advogada.etc,pretendo escrever em prol de um eventual socorro ao meu país,que anda bem dilacerado.V H M,fala da música brasileira - está em seu ocaso,pesquisem sobre Naldo e Anitta,os atuais ícones burlescos ,ridículos e revoltantes do Brasil,analfabetos que ganham fortunas que um Tom Jobim ou um Vinícius de Moraes nunca sonharam ! Sérgio Braga serei leitora habitual do seu blog.Saudações, Eci Figueiredo

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