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Comprimidos literários sem risco de sobredosagem

12

Dezembro

2014

Publicado por Sergio_Almeida às 18:31
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Sérgio Almeida

 

Que a poesia pode curar, já muitos leitores o sabem. O que muitos desconhecem é a existência de uma despretensiosa publicação mensal publicada no Porto que adota o nome e o formato das bulas médicas. Com uma nuance importante: em vez de indicações médicas, encontramos... poemas e ilustrações.

Um conceito original que, número após número, tem visto o seu número de seguidores crescer.

Em entrevista,o editor d'A Bula, Paulo Moreira Lopes, explica a origem da publicação e a sua forma de funcionamento.

 

Como surgiu este projeto?

A Bula constitui uma réplica da revista de literatura brasileira Um Conto. Foi a surpreendente conjugação do prazer intrínseco à leitura de poesia e prosa associado ao trabalho manual da criação do objeto, em que se vai dobrando e espalmando uma simples folha de papel de tamanho A4 até esta atingir a dimensão A7, que nos desafiou a repetir a iniciativa com textos e ilustrações de autores do distrito do Porto que íamos conhecendo no âmbito do projeto do Correio do Porto. O título advém da semelhança com os desdobráveis das bulas dos medicamentos (foi ideia da minha irmã mais nova), por sua vez o espírito e a solução gráfica (a autoria é do meu primo Leunam) acabaram por ser condicionados por aquela designação. Daí a alusão aos comprimidos literários e à advertência de que deverá ser mantida ao alcance e à vista das crianças e adultos. É importante salientar que, em momento algum, se deve confundir a nossa A Bula com a Bula Manifestis Probatum, pois não se pretende com aquela o reconhecimento da originalidade da literatura que se faz no Porto, quer seja por via papal, ministerial, associativo (SPA ou APE), jornalístico ou até académico. Ela existe e pronto!

 

A recetividade encontrada foi um incentivo?

Apesar da nossa forte determinação em concretizar a iniciativa (no Correio do Porto ou partilhando-a em família ou com os amigos), foi muito encorajadora a resposta positiva e entusiástica dada por Francisco Duarte Mangas e João Pedro Mésseder ao nosso convite. A participação daqueles autores nos números iniciais credibilizou A Bula perante o público mais interessado e representou, ainda, um estímulo para os autores menos divulgados pela comunicação social, os quais iam recebendo os nossos convites e tomando conhecimento das Bulas anteriores.

 

Como selecionam os autores em destaque?

O critério subjacente aos convites é, antes, depois e acima de tudo, o interesse do convidado em publicar, o qual se revela através dos blogues, da edição de autor ou da edição comercial. Perante a publicidade do trabalho artístico, presumimos a disponibilidade do autor em partilhar connosco o amor pela literatura. Por isso, tanto publicamos autores a iniciar como já consagrados. Não fazemos aceção de poetas ou escritores. Mas A Bula não é só literatura. É composta habitualmente por duas ilustrações (capa e interior) de um artista contactado por nós ou sugerido pelo participante. Os artistas plásticos também são convidados segundo o critério dos literatos. Podemos afirmar, com propriedade, que é um espaço de liberdade (cada autor sugere os textos), igualdade (não há diferença entre os autores) e fraternidade (o amor à arte é partilhado por todos) que nasce na internet às 00h do dia 1 de cada mês, em versão PDF, podendo ser impresso pelo leitor e depois dobrado no tamanho proposto (A7).

 

Que gastos estão associados ao projeto?

O único custo é a impressão, estando disponível no mercado da web sem qualquer condicionante (subscrição ou outra). Para acautelar a saúde das pessoas com quem nos cruzamos no dia a dia (indiretamente estamos a acautelar a nossa saúde) deixamos Bulas já dobradas nos cafés que frequentamos na cidade do Porto e em Gaia e na receção da Biblioteca Pública Municipal do Porto (S. Lázaro). À semelhança de Antero de Alda (autor publicado na Bula), só esperamos lucros no amor e na amizade (esta última é acrescento nosso). Um dos reforços positivos que temos tido é a representação mental de um português num lugar longínquo (China, Austrália ou outro país) a imprimir, dobrar e espalmar (três vezes) a Bula e a deleitar-se com a leitura e o seu manuseamento. A alegria provocada por aquela representação é, por si só, um suplemento que afasta qualquer desânimo que possa surgir. Será que estamos viciados?

 

O formato é para manter?

Sim. Já pensamos em acrescentar cor, mas decidimos apostar no preto e branco, sem prejuízo dos ilustradores criarem os trabalhos a cores. Uma das possibilidades de alteração será passar a publicar Bulas temáticas (Natal, por exemplo), alternando com as antologias. Advertência: para o caso dos utilizadores da Bula não sentirem, de imediato, os efeitos benéficos dos comprimidos literários, lembramos que devem ter paciência, pois como dizia Luís Veiga Leitão (autor a publicar na Bula), e nós acreditamos, o poema principia no fim.

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