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A ambiguidade doutrinária da Renascença Portuguesa

04

Novembro

2013

Publicado por Sergio_Almeida às 18:40
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José Carlos Casulo *

 

Não quis Teixeira de Pascoaes (na foto) comparecer à reunião de Lisboa, tendo nisso sido acompanhado por Leonardo Coimbra, Augusto Casimiro e Augusto Martins. Assim, do grupo do Porto que tinha estado em Coimbra, só Cortesão e Álvaro Pinto estiveram presentes no encontro com "… Raul Proença, António Sérgio, Câmara Reis, Joaquim Manso, Mário Beirão, Veiga Simões e ainda Gastão Correia Mendes e Albino Forjaz Sampaio…" (1).

 

O grupo do sul discordou do texto de Pascoaes que Álvaro Pinto apresentou e encarregou Proença de redigir um novo manifesto, demonstrando-se, assim, logo de início e no núcleo do movimento, uma ambiguidade de posições que viria a culminar com a dissensão que levaria à fundação da revista Seara Nova. Com efeito, mais do que  uma oposição entre Pascoaes e Proença, o que se nota nos dois manifestos  é o início da evidenciação das diferenças que levariam ao abandono do movimento pelo grupo do sul.

 

Os dois textos só vieram a ser publicados em 1914(2),  o do mestre do saudosismo sob o título Ao Povo Português. A Renascença Lusitana, enquanto que aquele que constituía a réplica de Proença excluía a palavra Lusitana para se intitular Ao Povo. A Renascença Portuguesa. Tanto o primeiro manifesto de Pascoaes, como o de Proença, se bem que divergissem profundamente ao nível teleológico, elegiam para razão de ser da Renascença a tarefa de promover a educação do povo português, caracterizando-a, assim, como um movimento educacional, como uma sociedade cultural cujas diferentes manifestações (artística, literária, política, económica, religiosa e outras) serviam à realização do desiderato último da educação nacional.

Pascoaes acabaria por redigir um novo manifesto que seria o texto de abertura do primeiro número da segunda série de A Águia (3), agora órgão oficial da Renascença Portuguesa. Em Renascença, assim se intitulava o segundo manifesto pascoalino, que se tornou o manifesto oficial da Sociedade, evitando e expressão "Renascença lusitana", mas não sem referências aos lusitanos, o poeta amarantino via a República como o sinal de renascimento da alma portuguesa, que, feita verbo pela voz de Viriato, verbo encarnado e "… criador que se tornou Acção e Vitória…" (4) no nosso primeiro rei e verbo, ainda, nos Lusíadas, ressurgia, agora, em corpo de Saudade, no canto dos actuais poetas (os da época em que Pascoaes escrevia).

 

E invectiva todos os portugueses a um autêntico esforço de educação no sentido de, para além das diferenças próprias da particularidade da vida individual, conjugarem as vontades para criar a vida, mais nobre, de Portugal: "… impõe-se, por consequência (…), a união dos portugueses que vivam além da sua vida egoísta e individual, a vida vasta e profunda, porque é abstracta e transcendente, da Pátria Portuguesa." (5)

 


Notas


(1) Cfr. Santos, Alfredo Ribeiro dos, A Renascença Portuguesa - um movimento cultural portuense, Fundação Eng.º António de Almeida, Porto, 1990.p. 83.
(2) Ambos foram publicados em A Vida Portuguesa, Porto, 10 de Fevereiro de 1914.
(3) Cfr. Pascoaes, Teixeira de, “Renascença”, em A Águia, Porto, IIª série, vol. I, 1912, nº 1, pp. 1-3.
(4) Ibidem, p. 2.
(5) Ibidem.
 

 

* Instituto de Educação da Universidade do Minho

Memória pedagógica da Renascença Portuguesa

21

Outubro

2013

Publicado por Sergio_Almeida às 14:23

 (Vista do Choupal, em Coimbra, local onde decorreu a reunião fundacional da Renascença Portuguesa (postal ilustrado do início do século XX)

 

José Carlos Casulo *

 

1. A  fundação da Renascença Portuguesa

 

Datada do primeiro dia de Dezembro (dia da Restauração) do ano de instauração da República Portuguesa, surgiu, no Porto, o número inicial de uma nova fase de uma revista que contava entre os seus colaboradores com alguns dos nomes sonantes da intelectualidade de então, sendo que parte deles já se tinham distinguido, também na capital do norte, em movimentos culturais como o que estava por trás da revista Nova Silva e como o grupo dos Amigos do ABC.

A Águia, assim se intitulava a revista (1), era dirigida por Álvaro Pinto e tinha por certa, desde esse seu primeiro número, a participação, entre outros, de Teixeira de Pascoaes, Leonardo Coimbra, Augusto Casimiro e Jaime Cortesão, precisamente aqueles que, ainda com Augusto Martins, se reuniriam no Choupal, em Coimbra, em 27 de Agosto de 1911, com outros  homens de letras do sul.

A iniciativa desta reunião e a ideia que a justificava eram da responsabilidade de Jaime Cortesão que, um mês antes, assim tinha  confidenciado, em primeira mão, a Raul Proença, a necessidade de criar um movimento apolítico, de artistas e intelectuais, que exercesse uma acção socioeducativa junto do povo português:

"… sinto-me cheio dum proselitismo sagrado e antevejo a alegria de pôr de parte todos os trabalhos egoístas, ainda mesmo os da minha Arte, para me dedicar a uma obra absolutamente nobre e necessária (…).'

 'Por isso vou entregar nas suas mãos a ideia em bruto como um diamante que é necessário lapidar. Lembre-se: falei-lhe da necessidade de fundar uma Associação dos artistas e dos intelectuais portugueses com o fim principal de exercer a sua acção, isenta de facciosismos políticos dentro da actual sociedade. Acção social orientadora e educativa num meio como o nosso, onde não há grandes ideias, nem grandes homens que se imponham."  (2).

 

Dando concretização a este projecto, realizou-se, cerca de um mês depois, a já referida reunião do Choupal, à qual o próprio Cortesão aludiu realçando o propósito educacional dela saído: "A 27 de Agosto de 1911, promovida por mim, realizava-se em Coimbra, no Choupal, uma reunião (…). Aí se lançaram as bases da nova organização que se propunha dois fins essenciais: restituir Portugal à consciência dos seus valores espirituais próprios; e promover em todo o país, por meio duma revista, que fosse o órgão do movimento, de edições de livros, Universidades populares, conferências, exposições e concertos, uma profunda acção cultural, junto de todas as camadas sociais."(3).

 

Nesta reunião elaborou-se, também, um projecto de estatutos para a novel associação e tomou-se a decisão de fazer um manifesto-programa do movimento, tarefa esta de que foi incumbido Teixeira de Pascoaes. O poeta amarantino redigiu o manifesto e enviou-o a Álvaro Pinto, para que este o apresentasse numa nova reunião que viria a ter lugar em Lisboa, em 17 de Setembro, na qual Proença e outros intelectuais do sul estariam presentes e à qual  Pascoaes entendeu que não devia comparecer:


"Aí vai o [manifesto] com as emendas que devem ser feitas com todo o cuidado(…).'

'Talvez convenha eu não ir [à reunião de Lisboa], para que não imaginem lá que me quero salientar neste assunto. Convém não ferir suscetividades, compreende?…"(4).

Notas

(1) A escolha do título da revista tinha sido inspirada “…pelo Poemeto A Morte da Águia, de Jaime Cortesão…" (cfr. Pascoaes, Teixeira, Renascença, em A Saudade e o saudosismo (dispersos e opúsculos) [compilação, introdução, fixação do texto e notas de Pinharanda Gomes], D. Maria Amélia Teixeira de Vasconcelos (e filhos)/ Assírio & Alvim, Lisboa, 1988, p. 201).

(2) Cfr. Carta de Jaime Cortesão a Raul Proença”, em Jaime Cortesão / Raul Proença, Catálogo da exposição comemorativa do primeiro centenário (1884-1984), Biblioteca Nacional, Lisboa, 1984, p. 277.

(3) Cfr. Cortesão, Jaime, No 40º aniversário da fundação da Renascença Portuguesa, em Portucale, Porto, IIIª série, vol. I, 1962, (suplemento 1), p. 3.


(4) Cfr. Pinto, Álvaro, Para a história da Renascença Portuguesa, em Ocidente, Lisboa, vol. XLIV, 1953, nº 177, p. 50.
                                                    
                   

* Instituto de Educação da Universidade do Minho



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