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Polémica encerrada sob o signo da Saudade

07

Abril

2014

Publicado por Sergio_Almeida às 14:45
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Memória pedagógica da Renascença Portuguesa

 

11. António Sérgio: Explicações necessárias do homem da espada de pau ao arcanjo de espada dum relâmpago (1914) / Teixeira de Pascoaes: Mais palavras ao homem da espada de pau (1914)

 

José Carlos Casulo *  

 

"Pois, bondoso e arcangelical amigo: contra todos os meus projectos tenho de voltar às nossas cartas, por haver, entre os seus caprichos de imaginação, alguns que deixados sem resposta poderiam dificultar a compreensão do que vou expor na última parte (desta Águia e das futuras) sobre o sistema de educação que proponho ao nosso povo." (1).

 

É, pois, para defender a sua concepção de educação que Sérgio volta à polémica, o que não o impede de, como sempre, incorrer em reflexões sobre a relação economia/moral e temas a ela afins para, outra vez, expressar e fundamentar a sua opinião, para reanalisar a de Pascoaes, para aludir aos mesmos exemplos dos outros artigos…

 

No fundo, o que António Sérgio nos deixa concluir nesta sua última carta é que, para ele, a polémica sobre o saudosismo tinha um substracto pedagógico, concretamente, e no que a ele, Sérgio, tocava, o de refutar uma orientação educativa que resultaria na formação de "… um sentimental puro, (…) um contemplativo, um devaneador, ou um palrador e remexido…" (2), fruto de uma antropagogia que ele via como bem diferente daquela por que pugnava, e que ele próprio explicita como sendo a que era capaz de formar um homem racional, "… um disciplinador, concentrador e canalizador de energias úteis…" (3).

 

Teixeira de Pascoaes terminou a polémica com a carta-artigo Mais palavras ao homem de espada de pau, na qual diferenciava entre o que era e o que não era importante em Explicações necessárias…. Deu pouca importância à arrastada alusão do seu adversário a exemplos relativos ao tema, já mais do que discutido, da relação entre o progresso económico e o progresso espiritual:

 

"Tenho pena de o não poder acompanhar nesse campo, pois outros assuntos, de mais valor para mim, me solicitam. Não tenho tempo de folhear livros, nem o meu espírito se contenta com essa bisbilhotice intelectual que trata de saber o que os outros dizem.'

 

'A páginas tal, diz F., e Cicrano, na obra supracitada diz isto e aquilo, Vid. Bibliografia, e, sobretudo, a obra de Beltrano, na sua edição de Londres, ano de 1605, etc., etc., -nada disso me interessa." (4). 

 

Mas  se menos apreciou   esta parte da missiva do seu contendor, o  amarantino  não deixou de valorizar as reflexões sobre educação nela contidas: "Guardo para o fim o princípio da sua carta, porque é o mais importante." (5). Lamentando que Sérgio identifique a Saudade como mero sentimento, defende a necessidade de "A educação (…) ser sentimental e prática, preparando o homem a viver pela alma uma vida superior e, ao mesmo tempo, de trabalho fecundo e livre. O homem é carne e osso, sentimento e inteligência." (6). E foi assim, disputando sobre educação, que terminou a polémica sobre o saudosismo entre esses dois grandes pensadores portugueses que foram António Sérgio e Teixeira de Pascoaes.

 

Notas


(1) Cfr.  Sérgio, António  “Explicações necessárias do homem da espada de pau ao arcanjo da espada dum relâmpago”, em A Águia, Porto, IIª série, 1914, nº 30, p. 170.
(2) Ibidem.
(3) Ib..
(4) Cfr. Pascoaes, Teixeira de,  “Mais palavras ao homem da espada de pau”, em A Águia, Porto, IIª série, 1914, nº 31, p. 1.
(5) Ibidem, p. 5.
(6) Ib..

          

* Instituto de Educação da Universidade do Minho

Polémica verbal cada vez mais próxima do fim

24

Março

2014

Publicado por Sergio_Almeida às 17:16
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 (Teixeira de Pascoaes)

 

Memória pedagógica da Renascença Portuguesa
10. A polémica saudosista - António Sérgio: Despedida de Julieta (1914) / Teixeira de Pascoaes:  Última carta? (1914)  

 

José Carlos Casulo *


 
 Breve, muito breve, foi a resposta do rival em ideias de Teixeira de Pascoaes, resposta que, aliás, ele pretendia que fosse a última:

"A tudo, querido amigo, se pode responder, e são todas as discussões, por sua natureza eternizáveis; da minha parte, porém, está dito o indispensável, que era mostrar a outra estrada aos jovens leitores d'A Águia e da Vida Portuguesa: a estrada não-saudosista, não isoladora, ou não purificadora." (1).

E, neste texto, nada mais disse Sérgio que interesse, de momento, realçar.

Pascoaes não queria terminar o debate e, por isso, lamentou-se a Sérgio pela  intenção manifestadas em Despedida de Julieta:

 

"Sim! Há coisas cruéis neste mundo! E a mais cruel de todas é a sua última carta! Ah, meu caro António Sérgio, então, é no momento em que o seu feio vulto plutónico, vibrando contra mim os raios forjados para exclusivo uso de Júpiter (…), é num momento assim que me foge e diz adeus? (…).'

'Para que apelar nesta minha deslocação? Qual o último recurso? Resta-me a carta, a última, em cujas palavras madrugantes dir-se-á que paira a divina presença radiosa de Julieta, a mística Sombra bem-amada…" (2).

 

O vate de Amarante, como que cumprindo uma indesejada obrigação a que não se podia furtar, lá se dispôs a, mais uma vez, responder com as mesmas ideias às também mesmas ideias que Sérgio, no artigo anterior, tinha exposto sobre a já gasta questão da relação entre economia e espírito, tendo, até, chegado a concluir que as diferenças entre o seu adversário e a escola saudosista residiam mais no método do que nas finalidades:

 

"Ele [o saudosismo] nasceu para combater também os males de que fala o meu bom amigo. A sua espada, como a do Arcanjo, é feita dum relâmpago, enquanto  que a do meu caro António Sérgio parece-me de pau." (3).

 

Pascoaes pedia, ainda, ao seu interlocutor, que não abandonasse o debate. Sérgio acedeu ao pedido e escreveu a sua, agora sim, última carta.

 

Notas

(1) Cfr. Sérgio, António,  “Despedida de Julieta”, em A Águia, Porto, IIª série, 1914, nº 28, p. 109.
(2) Cfr. Pascoaes, Teixeira de,  “Última carta?”, em A Águia, Porto, IIª série, 1914, nº 29, pp. 129-130.
(3) Ibidem, p. 131.

 

* Instituto de Educação da Universidade do Minho

A polémica saudosista: a defesa de Pascoaes

03

Março

2014

Publicado por Sergio_Almeida às 15:52

 

 

 

9. A polémica saudosista - António Sérgio: Regeneração e tradição, moral e economia (1914) / Teixeira de Pascoaes: Resposta a António Sérgio (1914) (2ª parte)

 

José Carlos Casulo *

 

 De novo se fez Pascoaes à liça, desta feita com o artigo Resposta a António Sérgio, no qual não deixou de dirimir e responder aos ataques mais personalizados que Sérgio lhe tinha feito, como, v. g., o de que ele, Pascoaes, radicado no seu torrão natal, era um homem isolado, distante e desconhecedor dos progressos e virtudes do mundo civilizado existente muito para além do pequeno burgo de Amarante:

 

 "Eu também estive em Londres, meu bom amigo! Penetrei-me de sombrio nas escuras celas da trágica Torre!'
'Passeei, cá fora, entre os míseros corvos, borrifados de lama, e de spleen(…).'
 'Bebi o fog a largos haustos. Vi pastar ovelhinhas nos verdes campos do Hyde Park. Vi os leões de Regent Park, as pontes sobre o Tamisa, esse rio parente do meu Tâmega(…). Sim: eu admiro a Inglaterra, a França, a Alemanha! Amarante já está ligada por caminhos de ferro a todos os grandes centros. Não sabia?" (1).

 

Pascoaes, todavia, ultrapassava a pequena contenda pessoal para denunciar aquela que, realmente, tinha sido a grande falha de Sérgio em Regeneração e tradição…, a saber, a ausência de crítica aos aspectos mais essenciais do saudosismo: "O meu querido amigo abandonou o seu ataque à originalidade da Saudade, ponto principal da questão, assim como ao seu poético e filosófico significado que torna a alma portuguesa criadora duma concepção formosíssima do Universo e da Vida, a qual deve orientar superiormente a nossa actividade social." (2).

 

Em consequência, o autor de Marânus limitou-se, neste texto, a rebater as  divagações de Sérgio sobre o saudosismo feitas em Regeneração e tradição…, demonstrando, com alguns exemplos, que o seu émulo não mais tinha feito do que “… rir, e (..) baralhar, numa página, algumas frases minhas, arrancadas às suas companheiras naturais…” (3).


 

O amarantino, todavia, não deixou de dar relevo às questões do culto do passado e da relação entre progresso económico e progresso espiritual dos povos. Quanto à primeira, para defender que a importância do passado de um povo assentava no facto de a  identidade actual desse  povo resultar da dialéctica entre o seu génio  colectivo, partilhado e vivido por todos os seus nacionais, e esse mesmo génio personificado em alguns homens notáveis que, em diferentes épocas, surgiam no seio desse povo, dialéctica esta da qual resultava a evolução do génio colectivo e, consequentemente, a cada vez maior afirmação da idiossincrasia nacional de cada povo.

 

De onde se compreenda que, quanto mais longo o passado de um povo, mais homens notáveis esse povo tenha tido e, por conseguinte, por força daquela dialéctica, também cada vez mais singular, mais identificado consigo mesmo, seja esse povo.

 

No tocante à segunda questão  - a da relação entre progresso económico e progresso espiritual de um povo -, o poeta-filósofo, ao invés de Sérgio, entendia que  aquele (o progresso económico)  era efeito deste (progresso espiritual), porque “… a alma é que molda o corpo e lhe dá actividade. E do trabalho é que resulta a riqueza. Mas antes de tudo, é preciso saber trabalhar. Primeiro o saber, isto é o progresso espiritual que cria competências…” (4).

 

Por fim, mau grado a pública disputa intelectual em que se encontravam envolvidos, o fino trato entre os dois homens sobressaia, agora, claro, pelas palavras de Pascoaes: "Creia na sincera admiração e amizade que lhe dedica o seu camarada." (5). Esta admiração e esta amizade, todavia, não constituíram óbice a que o amarantino tivesse epitetado António Sérgio de "… Romeu travesti de Otelo…" (6), o que foi o mote para o jocoso título com que  o futuro seareiro apresentou a sua defesa.

 

Notas


(1) Cfr. Pascoaes, Teixeira de,  “Resposta a António Sérgio”, em A Águia, Porto, IIª série, 1914, nº 26, p. 37.

(2) Ibidem, p. 33.

(3) Ib., “frases minhas”, isto é, de Pascoaes.

(4) Ib., p. 38.

(5) Ib..

(6) Ib..

 

* Instituto de Educação da Universidade do Minho
                                           

Resposta de António Sérgio às críticas de Pascoaes

19

Fevereiro

2014

Publicado por Sergio_Almeida às 19:16

 

Memória pedagógica da Renascença Portuguesa
8. A polémica saudosista - António Sérgio: Regeneração e tradição, moral e economia (1914) / Teixeira de Pascoaes: Resposta a António Sérgio (1914) (1ª parte)

 

José Carlos Casulo *

 

 António Sérgio não deixou passar sem resposta Os meus comentários…, tendo seleccionado dois pontos para essa resposta, a saber, a questão da necessidade de as pátrias cultivarem o seu passado e a acusação de materialista que Pascoaes lhe tinha feito, não só a ele, Sérgio, como aos tempos que corriam:

 

"… tratarei ao de leve duas matérias importantes: o valor tonificante do culto do passado, e as relações do 'ruído da Matéria', da 'electricidade e do carvão de pedra', com os grandes surtos da Alma, nestes tempos que o meu caro julga 'embrutecidos de estreito materialismo mercantil' (…) e que eu creio ao contrário os mais luminosos, idealistas e esperançados de toda a história. É pela leitura de certos poetas que se insinua no meu espírito a escuridão e o desalento, e pela de certos economistas que me alvorecem dentro da alma os soberbos idealismos." (1).

 

 Este último período denota uma subtil crítica não já só às ideias, mas também ao próprio poeta-filósofo e ao seu estilo de vida, subtil critica essa a que Sérgio dedica a primeira metade (sensivelmente) de Regeneração e tradição…. Nela, para além de vários ataques genéricos às ideias saudosistas de Pascoaes, mormente às apresentadas nas conferências de doutrinação saudosista de 1912 (O espírito lusitano ou o saudosismo) e 1913 (O génio português na sua expressão filosófica, poética e religiosa), ressalta a diferença radical entre a mundividência e a postura perante a vida destes dois grandes vultos do pensamento português do  século XX.

 

Sérgio apelida Pascoaes de "… não só o rei dos reis, mas o Mago, o Sacerdote, a Pitonisa…" (2) do saudosismo, claro, e confessa "… ser este último carácter-, nocturnamente sacerdotal… " (3) de Pascoaes que o "… aterroriza e (…) conturba…" (4). Para além disto, lamenta o estilo de vida do amarantino: "Ah, Pascoaes, Pascoaes, meu querido amigo: V. é um puro, excelso e nobilíssimo poeta, mas uma vítima também desse ambiente social, como nós todos: desse horrível isolamento que V. louva e eu maldigo…" (5), "A Europa, o mundo civilizado da electricidade, não é tão suja, bronca céptica, encarvoada, como lhe parece em Amarante…" (6).

Mas retomemos a análise no ponto em que ela estava há um parágrafo atrás, volvendo, primeiramente, o nosso olhar para a crítica sergiana ao culto do passado. Defendia o autor dos Ensaios ser "O culto do passado (…) um efeito e não uma causa das energias actuais…" (7) e, no desenvolvimento desta tese, cita os Opúsculos de Alexandre Herculano e a conferência de Antero Causas da decadência dos povos peninsulares. No texto do desiludido de Vale de Lobos dá especial atenção à seguinte passagem: "Que são essas palavras retumbantes de regeneração pelas tradições, senão sons ocos, que não correspondem a nenhuma ideia?" (8). Do trágico vencido da vida escolhe esta afirmação: "Que é pois necessário para readquirimos o nosso lugar na civilização? Quebrar realmente com o passado… A nossa fatalidade é a nossa história." (9).

 

Talvez esquecido das constantes referências de Pascoaes aos lusitanos, Sérgio termina a sua crítica à apologia do culto do passado interrogando o seu émulo: "… e antes de as Pátrias terem séculos? Como se formaram Pátrias novas sem as energias necessárias de um passado inexistente? (…) e o Portugal de Afonso Henriques? Foi do Passado de Portugal que o Portugal de Afonso Henriques arrancou as energias?" (10).

A última parte desta carta-artigo dedicou-a Sérgio a defender a compatibilidade do progresso moral com o progresso económico por aquele depender deste: "Cada estado de economia determina os limites da moral pública…" (11). E o futuro seareiro aduziu exemplos: o da Inglaterra industrializada onde se encontra"… o operário nobilitado humano, com o sentimento de dignidade…" (12), o da atrasada Itália meridional onde se "… verá um bruto trabalhador, epiléptico no proceder e sanguinário…" (13), o do Portugal economicamente parasitário da época, e aduz, também, o argumento da prova estatística "… que revelou uma relação de dependência entre moralidade feminina e o preço do trigo. Nos anos em que sobe a economia, diminui a prostituição…" (14). E, a propósito, coloca ainda uma significativa pergunta a Teixeira de Pascoaes: "Já pensou, Pascoaes no que seria o seu espírito se tivesse nascido na miséria, e sido obrigado de criancinha a trabalhar espasmodicamente?" (15).


 

Com cortesia e elegância reveladoras de que o debate decorria entre dois homens superiormente civilizados, Sérgio assim de despedia: "Numa carta particular, querido amigo, que com esta irá, mais curialmente lhe poderia dizer quanto o estima e o venera o seu muito grato admirador." (16).

 

Notas

(1) Cfr. Sérgio, António,  “Regeneração e tradição, moral e economia”, em A Águia, Porto, IIª série, 1914, nº 25, p. 5.
(2) Ibidem, p. 1.
(3) Ib..
(4) Ib..
(5) Ib., p. 5.
(6) Ib..
(7) Ib..
(8) Ib., p. 6 (transcrição).
(9) Ib. (transcrição).
(10) Ib., p. 7.
(11) Ib., p. 8.
(12) Ib..
(13) Ib..
(14) Ib..
(15) Ib..
(16) Ib., p. 9.

O confronto verbal entre Pascoaes e Sérgio

04

Fevereiro

2014

Publicado por Sergio_Almeida às 15:30
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Memória pedagógica da Renascença Portuguesa
7. A polémica saudosista - António Sérgio: Epístolas aos saudosistas (1913) / Teixeira de Pascoaes: Os meus comentários às duas cartas de António Sérgio (1913) (2ª parte)

 

José Carlos Casulo *  

 

Pascoaes acusou os remoques de António Sérgio, pelo que, em Os meus comentários às duas cartas de António Sérgio, o artigo que constituiu a sua resposta, se apressou a descomprometer-se com as opções políticas de Duarte Nunes de Leão: "Nada quero saber do carácter de Duarte Nunes. Só me interessa a vida do seu espírito que nele, como em todos os seres, é sempre inatingível e inocente." (1). E também não se esqueceu de responder ao exemplo do cão saudoso: "António Sérgio (…) afirma erradamente que nós não definimos a Saudade, mas um rude facto geral de toda a animalidade. E como prova, apresenta uma chalaça canina que pode fazer arreganhar os dentes… só para rir, é claro." (2).

 

De parceria com estas proezas de estilo, o nosso autor não descura o essencial da crítica sergiana e empenhadamente a refuta. Sustenta, em primeiro lugar, a inexistência de contradição entre a definição de Saudade de Duarte Nunes de Leão e a de Almeida Garrett, fundamentando-se na maior amplitude da primeira, a qual, por esta razão, inclui em si a segunda, sendo esta, por consequência, uma definição não contraditória mas apenas menos completa do que aquela. O director de A Águia evoca ainda em defesa da sua concepção o dinamismo criador da Saudade, incompatível com o cariz fixista e passadista que Sérgio lhe atribuía.

 

O amarantino desmente o reducionismo sergiano que pretendia ver a Saudade como mero sentimento cuja expressão na literatura pátria era motivada apenas por causas sociais. Contrapõe Pascoaes o povo português como fundamento específico da Saudade vivida e cantada pelos poetas a quem, anos mais tarde, viria a chamar de lusíadas.

 

Por fim, o Saudosista, não negando que alguns estrangeiros isoladamente pudessem ascender à Saudade, defende que só em Portugal todo o povo, e não somente um que outro homem excepcional, vive a Saudade de forma única e exclusiva, pelo que o termo Saudade é só seu e não tem correspondente em qualquer outra língua, salvo a galega, mormente nos exemplos dados por Sérgio, os quais directamente rebate.

 

Terminando, Teixeira de Pascoaes formula a António Sérgio um convite, de gosto certamente amargo para este:
 "O meu caro António Sérgio ama a chalaça; a Europa deu-lhe cepticismo de mistura com electricidade e carvão de pedra(…)'


 

'As suas palavras modernistas são aviadoras; pairam, portanto, sobre as coisas, sem pousar(…)'
 'Desça, desça um pouco à alma da sua Raça -, que o meu amigo é capaz de a sentir admiravelmente." (3).
 


Notas
(1) (1) Cfr. Pascoaes, Teixeira de,  “Os meus comentários às duas cartas de António Sérgio”, em A Águia, Porto, IIª série, 1913, nº 22, p. 104.
(2) Ibidem.
(3) Ib., p. 108.

 

* Instituto de Educação da Universidade do Minho

 

O projeto educativo da Renascença Portuguesa

19

Novembro

2013

Publicado por Sergio_Almeida às 15:35
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José Carlos Casulo *

 

O Estatuto da Renascença Portuguesa, já o primeiro, já, principalmente, o que, em 1913, foi produto da revisão da versão inicial, marcava bem a intenção educativa do movimento.

 

Na realidade, se o artigo 2º dos estatutos iniciais estabelecia que "a Sociedade tem por fim promover a maior cultura do povo português, por meio da conferência, do manifesto, da revista, do livro, da biblioteca, da escola, etc." (1), o artigo 3º dos novos estatutos era de uma clareza incontestável ao afirmar que "o objecto da Associação é, além do estreitamento das relações de solidariedade dos seus associados, o desenvolvimento educativo de todos os cidadãos portugueses, por meio da lição, da conferência, do manifesto, da revista, do livro, da biblioteca, da escola, da Universidade Popular, da excursão, da exposição, etc., etc." (2).

 Na consumação do seu projecto educacional, a Renascença Portuguesa desenvolveu uma notabilíssima actividade. Assegurou, por períodos mais ou menos longos, a edição de três órgãos periódicos, a saber, A Águia, A Vida Portuguesa e Princípio.

 

A Águia, editada entre 1910 e 1932, foi temporariamente propriedade de Álvaro Pinto - entre Dezembro de 1910 e Julho de 1911, o equivalente aos dez números da primeira série - e passou para a responsabilidade dos renascentes a partir da segunda e até à quinta e última série, tendo sido a seguinte a cadência da sua publicação enquanto órgão da Renascença Portuguesa: série II, cento e vinte números entre Janeiro de 1912 e Outubro de 1921; série III, sessenta números entre Julho de 1922 e Dezembro de 1927; série IV, doze números entre Janeiro de 1928 e Dezembro de 1929; série V, três números entre Janeiro de 1932 e Junho do mesmo ano.

A Vida Portuguesa conheceu trinta e nove números, publicados entre  Outubro de 1912 e Novembro de 1915. De Princípio, surgido já na fase de desagregação do movimento, publicaram-se quatro números, entre Maio e Julho de 1930, neles avultando alguns nomes sonantes da segunda geração de renascentes, se assim for lícito chamar a Agostinho da Silva, José Marinho, Delfim Santos e Álvaro Ribeiro, entre outros.

 

Ainda no campo das publicações, note-se que à Renascença se deve a edição de mais de duas centenas de obras (3) sobre temas que vão da educação à economia, da história ao direito, da etnografia à poesia, ou até do simples almanaque às memórias de guerra.

 

Notas

(1) Cfr. artigo 2º dos primeiros estatutos da Renascença Portuguesa em A Águia, Porto, IIª série, vol. I, 1912, nº 1, extra-texto (contracapa). Também na contracapa de alguns dos seguintes números se podem encontrar estes estatutos.

(2) Cfr. artigo 3º dos segundos estatutos da Renascença Portuguesa em A Águia, Porto, IIª série, vol. III, 1913, nº 13, extra-texto (contracapa).

(3)) Uma relação completa e classificada das edições da Renascença Portuguesa pode encontrar-se em Samuel, Paulo, A Renascença Portuguesa: um perfil documental, Fundação Engenheiro António de Almeida, Porto, 1990, pp. 85-91.

 

* Instituto de Educação da Universidade do Minho


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