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José Manuel Simões encerra trilogia sobre o Brasil

14

Outubro

2016

Publicado por Sergio_Almeida às 19:14
0 comentários


"Deus Tupã" é o novo livro de José Manuel Simões

 

 Sérgio Almeida

 

Romance histórico que entrelaça ficção e realidade, Deus Tupã é o novo livro de José Manuel Simões, o terceiro que dedica à realidade brasileira. A História e as estórias de Portugal e Brasil surgem mais próximas do que nunca nas páginas de uma obra que o coordenador do curso de Comunicação & Media da Universidade de San José em Macau classifica como o culminar de um trabalho sobre o Brasil, nas suas diversas matizes, iniciado com Os índios Potiguara e Ponto de luz.


Não é fácil catalogar este livro. Tanto pode ser lido como um romance ou um ensaio. Agrada-lhe esta hibridez?

Gosto de transitar entre géneros, percorrer estilos, focando-me na génese sem perder o espírito de aventura que um bom livro sempre suscita. Gosto de me conduzir e de conduzir os leitores por caminhos raramente percorridos, guiar-me e guiar por espaços para além de nós, sem que todavia nos deixemos de rever, de nos identificarmos através das descrições e da utilização dos sentidos. Amo as palavras, igualmente os odores, os sons, os tatos, os olfatos que os livros transportam. Amo as premonições, as deduções, os inusitados propósitos da mente que descobrimos por antecedência na leitura de um bom livro. Em Deus Tupã há História e estórias, ficção em comunhão com realidade, romance no seio da terra, o despertar - ou pelo menos a tentativa de - dos seis sentidos colocados à mercê do que vem a seguir. 

 


Há uma grande proximidade a vários níveis entre “Ponto de luz” e “Deus Tupã”. Não existiria um livro sem o outro?

São dois livros distintos, com linguagens distintas. O Ponto de Luz mais jovem, dinâmico, ousado e subversivo, o Deus Tupã sóbrio, sério, contido, com laivos de humor que até a mim me surpreendem. Enquanto que o Ponto de Luz conduz o leitor por uma viagem ao mundo real pela voz de um personagem que altera ficção e alterego, DuArte Camões, o protagonista, explora rotas, terras ou vivências, movendo-se por todas as 26 capitais de Estado do Brasil, o que faz com que o possamos colocar esse livro na prateleira da, mesmo que singular, Literatura de Viagens. Ali, entre o despertar de desejos e o desafio da novidade, desenrola-se uma trama que, ao mesmo tempo que penetra em questões como o existencialismo, a ética, a moral ou a religião, irrompe pelo mundo da cultura, numa relação próxima com artistas como Djavan, Sting, Tina Turner, Fafá de Belém, Caetano Veloso, Ney Matogrosso ou Gilberto Gil, de quem entra no âmago da personalidade, dando a conhecer as suas facetas mais desconhecidas.
“Ponto de Luz” é uma viagem de uma vida, mostrando o Brasil de lés-a-lés através da visão de um personagem que mergulha em atmosferas surpreendentes, ambientes perigosos, relações intensas, numa narrativa escrita como se fosse romance, representando um passo além no conhecimento do Brasil profundo, das suas gentes e memórias.
Deus Tupã vai mais atrás para se chegar mais à frente, recua ao papel do colonizador e do colonizado, portugueses e indígenas em antagónicos apelos à exclamação. Ali, a desventura tem início com a chegada de Mem de Sá ao Brasil em 1552; seu amigo, bispo Sardinha – qual ironia histórica - assado e comido na praia, em frente aos navios de bandeira que impávidos ao largo avistaram a cena. D. João III, O Piedoso, herdeiro de império colossal de D. Manuel I, despreparado para deixar um país em ruínas a seu neto, Sebastião - ainda O Desejado, dono do trono aos 3 anos -, informado do ato de canibalismo dos indígenas perdeu a cabeça.
Lá, Sinã, cacique da tribo dos pitiguares, aclamado entre parentes pelo nome de Luz Lilás, reuniu na oca central, pintaram-lhe o rosto com traços ainda mais firmes, a geometria dos signos direcionada a Tupã, seu Deus por natureza, protetor da consciência que arcos e flechas fragilizariam perante o número de canhões acabados de aportar em Acajutibiró – terra de caju azedo - denominada pelos portugueses Baía da Traição.
O encontro entre estes dois livros dá-se então no terceiro e último capítulo de Deus Tupã, ou seja, no momento em que, quatrocentos e cinquenta anos após a chegada dos portugueses à Aldeia Galego, o mesmo DuArte, português de Coimbra, encontrou Itapuã até às entranhas depois de uma aeronave ter caído mesmo à sua frente, num local ermo e distante de tudo; o destino à mercê do sangue. O jeito da índia, resoluta, sensação de “dejà vu” e profunda atração, uniram-os para além de lá. Olhar selvagem, cabelos como as ondas do mar; em ambos uma apurada espiritualidade. O português tinha mais 22 anos, vinha de percorrer outros mundos e isso poderia ser obstáculo. Nada os dissuadiu. No dia do casamento, tribal e católico, quando a pagé, a feiticeira, se abeirou do páraco, de DuArte e de Itapuã, o insólito resplandeceu.
DuArte surge assim como a ramificação de um livro ao outro, como o elo entre ambos, como o prolongamento de uma mesma raiz, espécie de alter ego meu.

 

 

 

 

Trata-se do terceiro livro consecutivo que publica em que o Brasil está muito presente. É o fechar de um ciclo?

Acredito que sim. Estou a terminar um novo livro, Jornalismo Multicultural em Português, resultado do meu pos doutoramento em Ciências da Comunicação na Universidade Católica Portuguesa, um trabalho mais árido, científico, de investigação académica, onde faço uma análise de caso em Macau, região autónoma que me acolhe e me permite partir, desde 2008; e a começar um outro, um romance que tem duas histórias em paralelo, uma que se passa na Índia e outra em Marrocos, um personagem principal em ambas as estórias, intercaladas, que é também a narradora, omnipresente, uma alemã, Maggy, Maggy Koplin, médica, que nos conduz, em tempos diferentes, por mundos que nos remetem para o mundo da sétima arte, por tão rico ser em imagens. Portanto, parece-me que o Brasil, em termos literários, está resolvido, qual catarse, rescaldo de uma vida.


Há planos para que estes livros cheguem ao Brasil?

Eu e a editora Media XXI estamos a planear fazer dois ou três lançamentos no Brasil em Agosto do próximo ano, nomeadamente em João Pessoa, Belo Horizonte e Macaé, terras com que mantenho grande afinidades, amigos do peito, memórias inesquecíveis, momentos que transporto em mim até à eternidade.


Este novo livro pode ser lido também como um gesto de reconhecimento seu para com a tribo índia que o acolheu?

Há entre mim e os índios potiguara uma relação de grande intimidade. Sabe, eu acredito na reencarnação, em outras vidas. Aliás, numa regressão que fiz, provei perante mim mesmo, homem que também sou de ciência, que há vida para além da morte, outras vidas e várias passagens pela Terra. Não necessariamente com óbvios vínculos ou frequentes dejà vu. Acredito que um antepassado de mim ou alguém do meu sangue foi índio e ali viveu. Amo aquela terra, onde me senti regressar ao ventre materno, percorrendo aqueles trilhos, caminhos pouco explorados, modus vivendi seculares, cultura enraizada no seio daquela terra mítica, mística, profundamente capaz de despertar o que de mais integro existe em cada um de nós: tolerância, amor ao próximo, solidariedade, compaixão, abraço de coração com coração, círculos onde todos nos olhamos nos olhos de todos.


Tê-los conhecidos em 2001 mudou a sua vida? Já se sente um pouco índio também?


Mudou a minha vida, mudou-me, sim, fez com que me sentisse, para sempre índio, com memórias frequentes desse tempo; tempo de felicidade, de regozijo e qualidade de vida. Um dia destes ligava à minha sogra – há um telefone público na tribo que toca e a primeira pessoa que passa e ouve tocar pergunta com quem se quer falar. Com Maria, respondi. É você Manuel? Reconheceram o tom da minha voz que não ouviam há 9 anos. E as saudades reciprocas a comoverem. Dez minutos depois voltei a ligar e Dona Maria já lá estava para dizer: se vai ser sempre bem recebido? Claro, Manuel. Você é tão ou mais índio do que eu, do que nós. Porque você é nosso, dos nossos, é índio de coração.


Há um grande trabalho de investigação histórica mas também uma fluência acentuada na parte da narrativa e da ficção. É um académico que também preza a ficção?

É essa transição entre géneros de que falava. Há em mim um lado de jornalista que se move com a mesma naturalidade na televisão, no fotojornalismo, na notícia, na rádio; um lado académico, o de professor, o de diretor de curso de uma universidade católica, um ecletismo, uma sede de conhecimento que me leva a não ficar quieto, a buscar em permanência o saciar da curiosidade, sede de investigar, de recolher, de plantar e colher, de criar, de ser por vezes para além daqui, para além de mim mesmo no reconhecimento do Outro como parte desse mesmo eu.


Consegue entrelaçar no livro as Histórias de Portugal e do Brasil. É um contributo para que o desconhecimento mútuo que, em certa medida, rodeia estes países possa deixar de ser tão acentuado?


Espero que sim. Dizia o meu amigo e professor Vitor Teixeira no mês passado, aquando do lançamento de Deus Tupã no convento Corpus Christi em Gaia, que este livro deveria ser de leitura obrigatória para os alunos das escolas secundárias, pois, através da sua linguagem, que ele define como “invulgarmente direta e escorreita”, consegue aproximar Brasil e Portugal através de laços de irmandade e de uma narrativa que nos conduz de forma convicta à história de ambos os países. Dizia então o Vitor Teixeira: “A capa de Deus Tupã é como uma criação do mundo ou a sagração da tormenta, como Giorgione, o texto como a cachoeira de Paulo Afonso: tonitruante impetuoso mas límpido e cristalino. O São Francisco o rio da unidade nacional. Um livro inspirador, cadenciado, com nervo que baste mas também poético enxuto e corrido.”


Regressar a Portugal está nos seus planos?

Sabe, encontro em mim vários eus, por vezes antagónicos, ora heterogéneos ora complementares, mais espirituais ou mais racionais, mais ou menos próximos a mim mesmo e ao meu desejo de alcançar uma certa ideia de perfeição, de bondade e de amor ao próximo. Tal como Pessoa, tenho mais saudades do futuro que do passado mas sei que o meu futuro, mesmo que a mim e aos meus pertença, está nas mãos de Deus, Tupã.
 

"Não quero ser consensual"

19

Setembro

2016

Publicado por Sergio_Almeida às 16:38
0 comentários

 

Vivemos num tempo em que a figura do autor tende a esvair-se (fotografia: Artur Machado/Global Imagens)
 


Sérgio Almeida


Mais “livre do que nunca”, Mário Cláudio atravessa um período feliz. Pelas provas de reconhecimento de que continua a ser alvo – agora é a vez da Feira do Livro do Porto, que o homenageou nesta edição –, mas sobretudo pelo ímpeto criador, que o leva a escrever religiosamente todos os dias. Lisonjeado com os tributos, rejeita, porém, o consenso. “Não tenho jeito para ser busto”, dispara.


Em menos de um ano, foi alvo de duas grandes homenagens. Sente que já é uma figura consensual?


Não! Nem quero. Além de me causarem sempre algum desconforto, estas homenagens não significam que me vou transformar num busto. Prezo tanto as pessoas que gostam do meu trabalho como as que o detestam. O que é importante é que o clarifiquem.


Os consensos inibem a liberdade?

Completamente. No entanto, não acredito que haja alguém consensual no mundo. Na ciência é diferente. Por exemplo, a descoberta da vacina contra a tuberculose é uma conquista consensual, mas nas artes as emoções são predominantes, pelo que a subjetividade tem um peso enorme.


O Manoel de Oliveira queixava-se de que muitos dos que o homenageavam nem viam os seus filmes. Sente que isso também acontece consigo?

Podem não ter lido, mas veem-me como alguém que escreveu livros de que outros gostam. Ser uma figura conotada com as letras, embora essas letras não sejam fruídas por toda a gente, já é um respeito pelo meu ofício.


Vê-se como um autor de culto?

Sinto que tenho livros de culto. O Amadeo transformou-se num livro de culto. Mais recentemente, Tiago Veiga: uma biografia chegou a leitores exigentes, apesar de ser um volume extenso e ainda por cima caro. Tenho-me interrogado sobre até que ponto será necessário vender muitos livros para se ser admirado. Não bastará escrever apenas um livro de culto? São dúvidas que me assaltam muitas vezes. Há autores que deixaram um livro só. Pense-se em San Juan de La Cruz, Bashô....


Tem conseguido chegar a muitos novos leitores.


É um fenómeno que já se tinha passado com o António Lobo Antunes, autor que começou por ser muito maltratado pela crítica e depois foi descoberto por leitores muito jovens. Não tenho os epígonos que ele tinha, mas chegam-me muitas opiniões de leitores jovens que acompanham o que faço.


A que atribui essa descoberta?

Um dos fatores foi a conquista de uma maior legibilidade dos meus textos. Aconteceu naturalmente. A minha linguagem continua a ser uma homenagem à riqueza da língua portuguesa, mas houve um esforço, sobretudo do ponto de vista sintático, para tornar a frase mais solta. É natural que isso tenha facilitado o acesso a muita gente.


Os grandes leitores são uma espécie em via de extinção?


Tenho-me deparado com surpresas agradáveis. Leitores muito novos com uma vocação de leitura superior à daqueles que agora andam pelos 30 ou 40. Dever-se-á à escola e até a algum cansaço da literatura pop, ou seja, livros de grande consumo que se leem e de seguida vão para o caixote do lixo. Há uma apetência maior para livros exigentes que reclamem mais deles.


Os prémios de carreira costumam ser entregues numa altura em que a pulsão criadora não é a mesma. No seu caso, continua a produzir.


Em Portugal, não sou o único caso. Há autores a quem foram dedicadas todas as homenagens e que continuam a escrever. Lembro-me do Mário de Carvalho e do António Lobo Antunes, autores de qualidade que continuam com o mesmo grau de exigência.


Mas o que leva um consagrado a querer continuar a escrever?

Talvez pensar que ainda fizemos muito pouco, sem qualidade por aí além, e que ainda é possível melhorar. Isto tanto se aplica à literatura como a qualquer outra área. Goya ou Oliveira trabalharam até ao fim.

É para afastar o espetro da morte?

Também. É uma maneira de se provar a si próprio que se continua vivo, lúcido e com capacidade inventiva de redescoberta do Mundo. Nem sempre os  trabalhos da velhice são os melhores de um criador, mas em muitos casos são-no, de facto. O período negro do Goya rasgou caminhos para a pintura moderna, os quartetos do Beethoven abriram caminho para as experiências extraordinárias da música contemporânea. Nem sempre a velhice é um apagamento. Por vezes, é uma oportunidade para novas iluminações. Acabei de ver um documentário do popular compositor polaco Krzysztof Penderecki que, aos 82 anos, ainda diz que tem projetos para mais meio século.

 
Conviveu com os maiores vultos da intelectualidade portuguesa do último meio século. A nostalgia apodera-se de si quando se lembra desses nomes?

Não sou dado a isso. Sinto muitas vezes falta da companhia das pessoas, tanto das que já morreram como das que já estão na minha vida. Isso tem mais que ver com a morte do diálogo do que com a morte física, até porque não acredito na morte física. Conheci bem o Vergílio Ferreira, o Jorge de Sena, o Eugénio de Andrade, o Urbano Tavares Rodrigues, o David Mourão-Ferreira. Todos eles continuam vivos em mim. Continuo a lidar com a obra delas. Lembro-me deles como vivos. O mesmo se passa com os meus familiares, que recordo como vivos. A morte é sempre uma despedida, mas sou um homem de crença e tenho a certeza de que a morte não é fim. Quem morre, fica.

Hoje faltam figuras da mesma estirpe de um Vergílio ou Sena?


Não acontece só na literatura. Vivemos num tempo em que a figura do autor tende a esvair-se. Isso foi notório no cinema. Os filmes passaram a ser conhecidos pelos atores em vez dos realizadores. Acontece na música e nos livros, sobretudo nos best-sellers. As pessoas fixam os títulos e não os autores. Hoje é tudo muito fugidio. É um fenómeno do nosso tempo. Não me parece que haja razão para ficarmos muito preocupados. O que tínhamos era a tradição renascentista italiana, em que desapareceu o anonimato do autor.


Durante estes anos já viu certamente chegar e desaparecer autores anunciados como o futuro. O tempo acaba por burilar tudo?

Sem dúvida. Mas não apenas na literatura. O grande Pierre Boulez dizia que a ópera tinha acabado. O que não é de todo verdade. Esses profetismos são muito perigosos.


A morte do romance já foi anunciada várias vezes.


Lembro-me de um crítico muito reputado dizer que o Finisterra, do Carlos de Oliveira, iria bloquear a literatura durante 50 anos. E quem lê hoje esse livro?


A homenagem na Feira do Livro do Porto foi anunciada por Paulo Cunha e Silva ainda no ano passado. Não o ter ao seu lado foi a pior parte?

Foi muito penoso. Tratava-se de um amigo, com quem convivi muito nos últimos anos. Rasgou novos horizontes para a cidade, no plano cultural mas também na vivência do quotidiano, no comércio, no turismo...


A atual dinâmica do Porto irá sobreviver a esta perda?


Sem dúvida. O seu legado está a ser muitíssimo bem interpretado pelo atual executivo camarário, porque o Rui Moreira conhecia a fundo a sua idiossincrasia e valores. Depois do período de obscurantismo que o Porto viveu durante muito tempo, acredito que a semente deixada por Paulo Cunha e Silva vai continuar a frutificar.

"Portugal ridiculariza os sábios"

10

Agosto

2015

Publicado por Sergio_Almeida às 19:45
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Sérgio Almeida



“Os novos pobres são os pobres que ainda não sabem que o são”. A perturbadora tese integra o novo livro de Paulo Reis Mourão, Economia sem gravata, publicado pela Chiado Editora.

Em entrevista ao Babel/Jornal de Notícias, este professor na Universidade do Minho, autor de diversos trabalhos científicos na imprensa da especialidade, lamenta a resistência à mudança que várias instituições públicas e privadas continuam a demonstrar, apesar da forte correção que a crise provocou na maioria dos cidadãos.


Crítico do esquecimento a que o interior tem sido sucessivamente votado, Reis Mourão acredita que a regionalização poderá ser a chave para contornar este problema, mas apenas se o modelo escolhido for o integral.

Este é um livro de um economista dirigido sobretudo a não economistas, ou seja, quis fugir ao jargão típico dos livros de economia?
É um livro para todos compreenderem mais a Economia e sobretudo os espaços de decisão (a ‘economia’ com letra minúscula) que nos envolvem em cada segundo da nossa vida.
 

O livro denota um grande esforço da sua parte em oferecer uma visão da realidade que vai muito além dos gabinetes. Uma das grandes pechas da maioria dos economistas é o de virarem demasiadas vezes as costas à rua, concentrando-se mais na análise de números do que nos anseios das pessoas comuns?
Existem dois erros principais nos economistas analíticos (ditos, académicos) e nos analistas de Economia (ditos, comentadores). Os dois erros dos primeiros resumem-se em duas palavras: “obsessão pelo pormenor” e “impressionismo literário”. Significam estes erros que, por um lado, o economista académico anda toda a carreira fascinado por um tópico ou por um tema, perdendo-se o lado integral que sempre caracterizou os grandes pensadores da Economia e, por outra via, preocupa-se em escrever para o seu ‘clube’ metodológico, evitando o grande público. Ao invés, o analista económico também tem erros resumidos em três palavras – finanças, partidos e patrocinadores: fala sobretudo de finanças públicas, não esconde o viés partidário e geralmente oculta o patrocínio dos grandes grupos financeiros que o financiam.
 

Um dos temas sobre os quais mais escreve é o do desenvolvimento regional, mais concretamente o das assimetrias. É uma batalha perdida?
Assim vai parecendo, sobretudo por que temos novas gerações que detestam o seu interior, que preferem o litoral onde se formaram e que não podem, não querem, ou não lhes deixam querer, apostar na agricultura, nas áreas do interior do país, nas atividades sem perspetivas de grande valor acrescentado.
 

Acredita que a regionalização ajudaria a minorar essas assimetrias?
A regionalização assimétrica não diminuiria as assimetrias. Só uma regionalização integral, quer de receitas quer de despesas sim, pois criaria a obrigação de todos os municípios lutarem pela criação de condições desejáveis para os cidadãos desejados.

 

 

 
A passagem da troika por Portugal não provocou a correção orçamental que seria lícito esperar?

Houve uma correção sem dúvida que todos perguntam agora se teríamos tido a coragem de fazer sem a troika. A integração dos mercados na esfera global acelerou a necessidade dessa correção que, no entanto, foi mais dolorosa para aqueles que pouco ou nada percebem de mercados financeiros, de globalização bolsista ou de especulação de títulos. E neste desequilíbrio podemos ver já como  os choques e as correções são assimétricos: afinal, quando troveja, alguns apanham mais granizo do que outros.
 

Os passos dados nos últimos anos no sentido de uma maior transparência do Estado e das autarquias foram demasiado hesitantes para serem dignos de aplausos?
A sociedade civil também se organizou mas em iniciativas ainda relativamente modestas. A sociedade portuguesa anseia por “sangue” em julgamentos públicos mas não aplaude publicamente o mais transparente. Aceitamos que o governante que nos favoreça seja imperfeito conquanto nos favoreça; em contrapartida, duvidamos da seriedade do governante que parece que não nos favorece. Esta realidade ainda demorará muito a mudar (e se mudar…)
 

Com os níveis de encargo que o Estado possui, até nos chamados 'serviços da dívida', uma redução fiscal a curto e médio prazo é uma utopia absoluta?
Sim. A redução da dívida e dos encargos exige um acompanhamento assertivo da evolução do próprio PIB. Isto é, teríamos que apresentar taxas de crescimento de praticamente dois dígitos para uma redução fantástica da dívida pública enquanto peso no rendimento do país. Como tal cenário é praticamente impossível, as possibilidades de renegociação da dívida não devem ser dispensadas na estratégia governativa.
 

O Estado Social tem mesmo futuro?
Os nossos conceitos de Democracia, de República e de Europa assentam no Estado Social. Obviamente, a sua definição, as suas regras, o seu financiamento não podem ser hoje os mesmos dos de há 50 anos. Mas a essência do conceito – o de um Estado formado na preocupação com as funções sociais – como a Educação, a Saúde e o Compromisso intergeracional – fazem parte da alma de qualquer cidadão europeu hoje, independentemente do seu quadrante político ou telúrico. Mas aqui – nesta diversidade de interpretação – reside o maior problema para uma comunhão de cidadãos numa geração europeia social no futuro.

 

Escreve que as crises podem ser oportunidades para que possamos fazer novas escolhas, até para que no futuro não se repitam os erros. A crise que o país enfrenta há vários anos tem sido devidamente aproveitada nesse âmbito?
A maioria dos cidadãos corrigiu comportamentos. No entanto, algumas entidades (públicas e privadas) manifestam uma grande resiliência à mudança.
 

Defende que os sábios não devem governar, mas apenas aconselhar. Grande parte dos problemas que o país enfrentou não teriam sido evitados caso tivéssemos pessoas mais sábias ao comando?
Se tivéssemos mais pessoas mais sábias a aconselhar melhores políticos, teríamos um país muito melhor. Temos tido – infelizmente – muitos políticos a aconselhar sábios num país que põe os sábios ridicularizados em discursos para os quais não estão preparados, que põe os políticos a dissertarem sobre matérias complexas, e que põe os governantes a silenciarem os restantes sábios com projetos encomendados que depois nunca são aplicados.
 
São várias as figuras históricas que cita ao longo do livro. Acredita que as lições de vida dessas personagens resistem à passagem dos anos?
Como refiro no livro, D. João II seria um péssimo governante de Portugal hoje, bem como jamais seria suportado pelos atuais Portugueses. Mas ele – como muitas das figuras citadas – mostraram-nos que, com prudência, com sabedoria e com valor podemos fazer boas escolhas, isto é, podemos vencer na Economia.

"Escrevo muito a sangue"

27

Março

2015

Publicado por Sergio_Almeida às 16:13
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Fábio Silva acaba de publicar o livro de poesia "Branco nu preto"

 

O jovem poeta Fábio Silva acaba de lançar o seu segundo livro de poesia, "Branco nu preto" na 13ª edição do festival literário "Poesia à Mesa" em São João da Madeira, cidade que abraçou artisticamente. O criador concedeu uma entrevista ao JN, onde viaja em torno das suas inspirações, dos seus bastidores artísticos e da sua poesia.


Diogo da Costa Leal (texto)

André Gouveia (fotografias)


Local: Biblioteca Municipal de São João da Madeira, 13ª edição do Poesia à mesa. Numa das sessões do programa, realiza-se uma tertúlia com poetas da cidade. Entre os vários poemas, as suas explicações e as várias ovações intercaladas, destaca-se a presença de um poeta entre todos os outros, pela idade precoce.

O único jovem presente. 26 anos, entre uma maioria toda acima dos 40. Dias antes, o jovem poeta Fábio Silva havia apresentado o seu segundo livro de poesia: Branco nu preto, dois anos depois da sua estreia literária, Nu comum.

O seu novo livro é, ao contrário do anterior, “uma tentativa de chegar às pessoas realmente apaixonadas pela arte da poesia”, a quem "absorve a poesia a sério, um público mais raro" e não só àquele que "lê por ler, sem sentir", ou que acha os seus poemas simplesmente "bonitos".

Contudo, o jovem não quer com isso menosprezar quem gostou do primeiro livro, embora talvez "não entendam o que está escrito", apesar de cada um sentir"alguma coisa na leitura" à sua maneira.

Sobre o facto de ser o único jovem no meio de pessoas mais velhas, Fábio acredita que no futuro, para se atrair mais jovens para a poesia, é urgente que as iniciativas culturais do género sejam "mais contínuas e não tão pontuais", isto é, "não tão concentradas só numa semana", mas antes em atividades constantes durante todo o ano. Se não, parece uma efeméride, ou o Natal”, diz.

Durante toda a conversa, Fábio afaga sempre o seu novo livro com os polegares, num gesto de carinho pela obra criada. A obra foi acabada num mês de completa dedicação de seleção dos vários escritos. Alguns poemas foram escritos em voz alta, com um gravador no entretanto dos acasos: "De vez em quando acontece. Ligo o gravador e começo a debitar. Depois vem o trabalho de escrever. Raramente edito, confesso", diz, sorridente, mas tímido.

 "Não sei se isso será mau, se será bom. Normalmente escrevo em silêncio. Sou muito de escrever pela noite dentro", em cafés, em casa. Sempre sobre os "gritos interiores" no seu "exorcizar sentimental do caos".
Nem sequer é preciso questionar as influências artísticas do jovem. Fábio vai enumerando-as na fluidez do diálogo. Fernando Pessoa, Herberto Helder ou José Luís Peixoto são nomes que sobressaem logo nas várias analogias do escritor."Imagina que eu era o Pessoa. Não tenho heterónimos, mas sou feito de pequenas partes. Seja de erotismo, seja de algo cru, seja de um desamor, seja de uma brancura, de sonhos", tudo é circunscrito à sua poesia, "está tudo em mim. Somos partículas que andam por aí. Somos átomos poéticos", sustenta.

Relativamente à pessoa por detrás da caneta que esculpe o poema, Fábio Silva define-se como alguém "simples", porque crê que todos nós "levamos basicamente a mesma vida. Só que uns têm a poesia dentro da sua vida e tentam englobar a poesia em tudo, e tudo na poesia". A arte dos versos influiu dentro do poeta, desde muito cedo, na necessidade forte em "sair do orgulho dos pais" e da sua "querida avó". E a imaginação habita alguns dos territórios textuais de Fábio, mas nem todos.        

 

                                 

 

Poema Dias trémulos lido na voz de Fábio Silva

 

O jovem prefere escrever "a sangue", e isso já lhe ofereceu danos ásperos.

"No Nu comum há um dos poemas em que eu digo:

 

 Já não quero sentir. Espero que me enterrem!
Pareço morto e os meus pensamentos tremem.
Peço a mil e um diabos que hoje me levem,
Só que há certos diabos que ainda hoje me temem.

Tenho mãe, tenho pai, mas às vezes não parece,
A calma não aparece, a minha alma padece,
O corpo adoece e eu lutaria, se pudesse,
Um pouco mais para continuar a ser quem toda a gente esquece.

 

Fábio arranjou algumas "chatices" com alguns desses poemas, mas não se arrepende. "Expus-me. O que crio é maioritariamente o que eu sinto real. Tento sempre ir por aí. De outra forma acho que não conseguiria chegar às pessoas", sublinha.

Não nos despedimos do escritor sem que antes ele nos confidencie algumas das principais dificuldades no meio literário. "Quase sempre as financeiras", admite. "Outra dificuldade é o facto de escrever poesia e não outro género. Temos um quilómetro de distância para poder editar um romance. Isto em dois quilómetros de literatura no seu todo. E para a poesia reservam-nos só 100 metros". Todavia, é sempre a poesia que o inspira mais. "Às vezes sentimo-nos tentados mais a escrever um romance. Contudo, não é isso que eu quero. Quero chegar ao público que gosta de poesia".

O poeta estima publicar o seu terceiro livro em breve, assim como difundir ao máximo a sua obra, quer pelos videopoemas que cria, quer pelos eventos como dizedor. E não desiste desse caminho, da sua paixão. Acredita na luta "de querer chegar mais além", e que para isso tem ainda de caminhar muito "para ser poeta, seja lá o que isso for", graceja.


 

 

 

"Caminhamos para uma tirania das crianças"

18

Março

2015

Publicado por Sergio_Almeida às 21:05
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Sérgio Almeida


Na segunda parte da entrevista concedida ao Jornal de Notícias, Mário Cláudio aborda com uma frontalidade incomum no meio literário português temas tão díspares como a velhice, a celebridade ou o poder excessivo das crianças nas sociedades contemporâneas.
A preparar atualmente um romance sobre a figura de Luís de Camões, o autor do recente O fotógrafo e a rapariga” afirma que a independência que hoje sente foi uma conquista da idade.

 

Com O fotógrafo e a rapariga encerra uma trilogia unida pelas relações entre pessoas de diferentes idades. Chega ao fim desta empreitada, com a sensação de que as distâncias geracionais são muitas vezes intransponíveis?

Acho que são inultrapassáveis, mas é preciso estabelecer diferenças entre cada um dos casos. No primeiro livro, a relação de Bernardo Soares com o empregado de escritório era perfeitamente saudável. O rapaz via nele uma figura paternal. É uma relação didática, como entre um aluno e um professor. No caso do Leonardo Da Vinci, a relação com Salai só não foi saudável porque ele  era um delinquente, um prostituto... Como pintor, era desastroso. No terceiro caso, foi uma relação penalizante para ambos. A relação que ele teve com Alice não foi a única com miúdas. Todas de foro platónico. Nas cartas que se conhecem, nota-se uma grande amargura nele por ver as miúdas crescerem e terem namorados.

 

Vivemos numa sociedade inimiga da velhice?

Apesar de, muitas vezes, serem os próprios que se automarginalizam, a verdade é que no universo mercantilista em que vivemos os velhos representam um peso de que muitos se alijam rapidamente. Sempre valorizei o diálogo com as pessoas velhas, porque aprendemos sempre muito. Desde  jovem que fiz isso. Hoje, estamos a caminhar do patriarcalismo para a pedocracia, a tirania das crianças... Num restaurante, as birras de uma criança são muito mais toleradas do que a tosse de um velho.

 

Quando, na juventude, tentava imaginar como seria a idade madura, estava próximo da verdade?

Ser velho tem muitas desvantagens, mas também vantagens. A forma vista como uma armadura desaparece. A expressão vale mais do que a forma. É  muito tranquilizante. Outra mais-valia é a independência. A opinião que possam ter de mim deixa-me indiferente.

 

Essa característica está presente na sua autobiografia, que vai publicar em breve?

Quando vivemos para lá de uma certa idade, passamos a ter uma grande angular. Os escritores de 40 anos não fazem ideia do que aconteceu a  outros escritores que na sua idade eram traduzidos para todo o Mundo e gozavam de enorme popularidade. E hoje, quem lê Urbano Tavares Rodrigues, Ferreira de Castro, Fernando Namora, Augusto Abelaira? Quando a escrita passa a ser mais um pretexto para estar num sítio ou fazer uma viagem, as coisas estão erradas. Sei, porque já passei por isso.

 

Nota diferenças dessa geração de 40 anos para a sua?

São todas iguais. Passam todas pelo mesmo. Não há gerações melhores nem piores. Há apenas umas que cometem os mesmos erros na juventude, na maturidade e na velhice. Os erros são investir excessivamente na aparência, no folclore, no brilho momentâneo. O Valter Hugo Mãe é um exemplo acabado de um tipo que perdeu completamente as estribeiras. Tenho tão pouca admiração por ele nesse domínio, como respeito pelo Gonçalo (M. Tavares). É outro escritor com qualidade – neste caso, com muito mais qualidade -, mas que tem uma atitude séria quanto à escrita.

 

Ainda assim, algo distinguiu a sua geração das outras?

A identidade nacional. Já vinha das gerações anteriores, mas a minha geração preocupou-se muito em saber quem éramos. O António Lobo Antunes, a Lídia Jorge, o Mário de Carvalho, eu próprio. Andámos sempre em torno da mesma questão: das nossas figuras e da nossa identidade. Havia ainda uma tensão entre urbanidade e ruralidade, que ainda se mantém. A consequência disto tudo é que passou a ser tudo igual, uma espécie de blue jeans, Os romances deixaram de ter um cidade e um país por trás. Deixaram de ter um espírito do tempo. O que se publica hoje em Portugal é igual ao que se publica em Nova Iorque ou no Rio de Janeiro. Já não existe uma geografia literária. É impensável um caso como o Jorge Amado no Brasil, o García Márquez na Colômbia ou um Faulkner nos Estados Unidos. Isso acabou. Para mim, é mau. Significa a estandardização, a homogeneização.

 

Há outra leitura possível: a de que os autores são mais cosmopolitas, abertos ao Mundo.

Tudo isso é verdade, mas acontece graças à perda da noção de autoria. Veja-se o universo nova-iorquino do Paul Auster. Mesmo aí, embora seja um escritor contemporâneo, é um universo que já se tem perdido. Fixamos nomes de escritores que estão nos 60 ou 70 anos, mas noutros tempos autores como Faulkner, Graham Greene, D. H. Lawrence, Steinbeck ou Hemingway já eram célebres aos 40 anos. Esse género de celebridade acabou e passou a ser tudo igual. Estas questões deviam ser objeto de estudo por uma disciplina que em Portugal nunca é lecionada. Refiro-me à Sociologia da Literatura. Por isso é que não sabemos nada da receção das obras no seu tempo de autores fundamentais. Os jovens de hoje não sabe que os primeiros livros de António Lobo Antunes foram cilindrados pela crítica. Ele foi enxovalhado, insultado... Isto significa que quem é muito bem recebido logo à entrada tem que se pôr a pau.

 

Essa indiferença de que falava não significa ausência de interesse pelo bom acolhimento dos seus livros.

Claro. Fico muito feliz quando alguém me diz que gostou de um livro meu, sobretudo se disser os motivos. Hoje sei até que ponto há juízos de valor feitos por ordem afetiva.

 

Gosta-se de um autor pela mesma irracionalidade com que se gosta de um clube.

Exatamente.

 

Concorda com os escritores que, para evitar ferirem suscetibilidades, apenas aceitam publicar as autobiografias após a sua morte?

É uma forma de se protegerem, porque falam de pessoas que ainda estão vivas. No meu caso, essa situação não existe e, mesmo quando acontece, envolve pessoas na mesma situação da minha, ou seja, estão-se marimbando. O que sinto é que perdi a vergonha. Mesmo em relação a este livro, sinto que há dez anos não seria capaz de escrever sobre a pedofilia.

 

Essa indiferença em relação aos outros é recente.

É recente e muito libertadora. Há uma idade em que temos muito cuidado, até na combinação de cores no vestuário. Hoje, valorizo o contrário. É interessante.

 

 

 

Como é que um biógrafo de outros gostava de ser biografado?

Nunca pensei nisso. A pior coisa que pode acontecer a alguém é ser levado muito a sério. Não tenho jeito para ser busto.

 

Sente que, a dada altura, tentaram colar-lhe esse rótulo?

É possível,mas nunca me pavoneei desse modo. Conheço muitos que nunca foram jovens. Já nasceram bustos. Isso não sou. Agora, devido a um trabalho que tenho entre mãos, voltei a Camões. Noto que o perdemos na altura em que o começámos a ver como uma estátua, um autor de programa.

 

O que pretende ser uma homenagem acaba por revelar-se o oposto.

O Camões era um tipo humaníssimo. Um criminoso, alguém que em Lisboa vivia entre as arruaças públicas, o seu gabinete de leitura e o ***. Foi suspeito em inúmeros processos, desde insubordinação a um superior a apropriação indevida de dinheiros públicos. Quando, na década de 40,apareceram três cartas eróticas de Camões, em que fala de bordéis, os grandes camonistas disseram logo que era falso. Tiveram que engolir em seco, pois eram verdadeiras.

 

O que se pode saber mais sobre esse projeto?

Está em curso. Tenho gostado muito de desenvolver o trabalho, o que não significa que o resultado seja bom.

 

Será um romance?

Um romance passado na atualidade mas que atravessa várias fases históricas. A figura central é o Camões. Como ele é lido em várias épocas e as construções de que a sua obra foi sendo alvo.

 

Se Camões nos fosse apresentado hoje como a figura humana e imperfeita que foi, atrairia mais leitores?

Acho que sim. Essa vida acidentada não retira o crédito inalienável que é a sua genialidade. O que é quase miraculoso é como um comportamento cívico tão sobressaltado coincidiu com um génio da escrita e um erudito a vários níveis. Mesmo o Cervantes e o Shakespeare não tiveram uma vida tão aventurosa como a de Camões. Ele andou pelo mundo inteiro a fazer patifarias e a escrever genialmente.

 

Estilisticamente, os livros da trilogia também apresentam várias nuances.

Cada livro procura refletir uma época. O contexto de O fotógrafo e a rapariga, inglês e aristocrático, nada tem que ver com o de Milão renascentista, em que decorre Retrato de rapaz, ou o cenário lisboeta do século XX, de Boa noite, Senhor Soares.

 

Como autor, é desafiante essa polifonia?

Gosto muito de abordar o espírito do tempo e do lugar, projetando essas diferenças na própria linguagem.

 

Há uns anos, um escritor inglês vencedor do Booker dizia-me numa entrevista que os tempos não estão fáceis para os autores exigentes ou de referência, porque o leitor médio, que anteriormente lia os chamados autores difíceis, prefere cada vez mais as leituras simplistas. Revê-se nesse comentário?

Vejo-me como um resistente, alguém para quem a qualidade da escrita e o rigor formal são muito importantes. A construção novelística também é importante. Para mim, a literatura não é uma atividade recreativa. Nem como autor nem como leitor. É uma atividade formativa e alteradora da personalidade. Continuo a insistir no que considero serem os meus valores. Quando acusavam o Aquilino de usar uma linguagem regionalista, ele dizia que via a língua portuguesa como o teclado de um piano. Não tocava apenas as teclas do meio, mas sim todas. Há palavras que tendem a desaparecer e eu gosto de capturar, da mesma forma que há palavras recentes que gosto de usar. A língua faz-se disto tudo. Do que se vai perdendo e se vai ganhando. Há uma dimensão de registo que se está a perder e urge manter. O Tomaz de Figueiredo, grande estilista, quando captava um regionalismo que não conhecia anotava logo no diário que tinha ganho o dia.

 

Essa menor exigência de muitos leitores não acaba por ter um impacto negativo em quem escreve?

Acredito que sim. Há uma escrita branca ou nosso, com um vocabulário restrito, que usa mais verbos do que adjetivação – os herdeiros do Musil -, contra a qual não me insurjo. É uma escrita admirável, porque postula o conhecimento. O que está mal são os livros escritos com os pés... Isso nota-se muito na área da tradução, por exemplo.

"Lewis Carroll era um pedófilo em potência"

16

Março

2015

Publicado por Sergio_Almeida às 18:38
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Sérgio Almeida


Depois de Fernando Pessoa e Leonardo Da Vinci, Lewis Carroll. Com O fotógrafo e a rapariga – novela que explora a relação entre o escritor inglês e Alice Lidell –, Mário Cláudio encerra uma trilogia dedicada às diferenças geracionais. Na maioria das vezes insanáveis, diz.
Crítico do poder excessivo que as crianças detêm hoje na nossa sociedade, o romancista defende que os anos aumentaram a sua esfera de independência.
Esta é a primeira parte de uma entrevista que terá continuidade nos próximos dias.


Quão próxima da vida real é esta Alice de O fotógrafo e a rapariga?

Há todo um enquadramento psicológico da Alice e de Lewis Carroll que procurei respeitar. O resto foi imaginação. O que se sabe é que a relação de ambos era de fascínio mútuo. Ele tinha um interesse por rapariguinhas impossível de esconder. Na altura, o conceito não estava explorado, mas não tenho dúvidas de que era um pedófilo em potência.

Mas a relação foi platónica.
Nunca a molestou. Estou certo. Alice manteve sempre um grande afeto por ele, o que não acontece quando existem abusos. Alice via em Lewis Carroll um amigo mais velho que a fotografava. Como todas as crianças, ela procurava seduzir.

A relação também era alimentada por Alice?
Claramente. Basta ver o olhar dela na célebre fotografia. Não é nem frio nem contrariado.

O olhar também denota alguma tristeza.
Sempre foi uma mulher muito triste. Ela sentiu um enorme vazio por se ter casado com um homem sem interesses culturais. E mais tarde ficou devastada quando dois dos seus três filhos morreram em combate na Primeira Guerra Mundial. Essa solidão começa muito antes. Com Carroll, manteve, aliás, um diálogo de solidões, que foi agravado por ser uma miúda imaginativa, mas sem o afeto familiar que deveria ter. A mãe só se assusta com a aproximação porque o Lewis Carroll pertencia a uma estrato social inferior e não por ela ser menor. Chegou a propor-lhe em casamento, mal atingisse a idade núbil, que na altura era de 14 anos.

Não teme que o tópico da relação entre Alice e Lewis Carroll ofusque uma avaliação sobre os méritos do livro?
Acredito que sim. No entanto, o que quis provar foi que as relações humanas não podem ser definidas de forma simplista, entre preto e branco. Há zonas de penumbra complicadas. Para mim, é pacífico que ele não foi criminoso. Ou seja, não praticou atos pedófilos.

Os diários que ele escreveu, porém, estão cheios de recriminações.
Sim, há elementos de suspeição. Ele recriminava-se por comportamentos que considerava menos próprios. Estaria, por certo, a referir-se à masturbação. Havia uma pulsão sexual nele em relação às meninas. Denunciou-se uma vez, quando disse que nas fotografias que tirava a rapazes nus eles mostravam ter qualquer coisa a mais. Claro que, tal como Nabokov, ele tinha uma grande curiosidade, por meninas.

Inserido na sociedade atual, como agiria Lewis Carroll?
Se fosse hoje, ele nem sequer teria tirado essas fotos. Sou de uma geração em que os bebés ainda eram fotografados nus em cima da almofada... Hoje é impossível.

Passámos da permissividade para o pólo oposto?
O que há hoje é uma autêntica caça às bruxas. Um histerismo absoluto. A pedofilia é um comportamento inadmissível e doentio. Mas isso não significa que se rotulem de pedoeróticos todos os comportamentos. Fazer uma festa na cabeça de uma criança é arriscado para um desconhecido. Mesmo um avô pensa duas vezes em fazê-lo de forma pública. Isso envenena as relações afetivas. O que dantes era impensável, hoje tornou-se superpensável.

É um livro com uma carga sensual e até erótica, mas aborda o tema com uma grande contenção e elegância. Fê-lo apenas como opção narrativa ou por achar, pelo contrário, que uma abordagem mais explícita trairia o que efectivamente se passou?
O que aconteceu entre eles foi um diálogo gentil, um diálogo de afetos. Isso não significa que, da parte dele, nos seus subterrâneos, não houvesse outras intenções. Na apresentação do livro em Lisboa, o Daniel Sampaio apontou, com uma certa pertinência, que só houve suspeição em redor de Lewis Carroll porque ele tirou fotografias de raparigas nuas. Mas quantos fotógrafos do tempo dele não tiraram fotos desse género.

Até há poucas dezenas de anos era normal.
Normalíssimo. A imagem do rapaz nu sentado em cima da almofada era do mais banal que poderia haver. Ninguém estranhava. Nunca fui molestado. Tenho muitos amigos e nenhum me disse que alguma vez molestado. Os comportamentos de pedofilia existem, mas certamente não no número que se diz. Caso contrário, estávamos todos doentes. Éramos todos criminosos. Na linha de pensamento atual, até o Pai Natal está claramente sob suspeição...

 

 

 

Defende que a lista de condenados por pedofilia devia ser facultada a pais, por exemplo?
Acho que, em casos de suspeição, sim. Justifica-se. Não defendo uma divulgação em massa, porque senão transforma-se numa caça às bruxas. Lamento apenas que um processo com a dimensão do da Casa Pia nunca tenha sido estudado como deveria por uma equipa interdisciplinar para que haja perspetivas variadas sobre o tema. Se um pedófilo é um doente, precisa de ser tratado. Tem que ir para um estabelecimento especial, não uma prisão normal. Na minha opinião, é um comportamento doentio. É-o pelo motivo de que apenas um dos envolvidos na relação sexual está na idade do consentimento. O outro não. Se um homem gostar muito de ser vergastado – há quem goste, eu não -, o problema é dele, se for maior de idade. Agora, se um dos parceiros for uma criança, as coisas já são diferentes.

Essa psicose de que fala não é sintomática sobre a perda de inocência da nossa sociedade?
Completamente. Mais: com esta história da pedofilia, quem perdeu a inocência foram muitas crianças. Ainda há dias, uma amiga minha contava-me que a sua filha pequena se virou para ela e acusou um homem sentado perto delas de ter “cara de pedófilo”... Houve uma regressão de valores que atingiu as pessoas que deveriam ser mais defendidas, as crianças, e acabaram por estar mais expostas.

Durante o processo de escrita do livro, alterou a conceção que tinha de Lewis Carroll?

Não. Acima de tudo, ele era um homem muito complexo, que deve ter sofrido muito, Era extraordinariamente solitário. Muito tímido. Foi educado para clérigo, mas devido ao problema da gaguez nem chegou a exercer, porque não conseguia fazer um sermão.

O êxito alterou a sua maneira de ser?
Ficou assustado. Com o reconhecimento que obteve, nem sequer soube o que fazer. Já a Alice Lidell ficou marcada para o resto da vida. Deixou de ter vida própria e icou conhecida como a Alice do País das Maravilhas. Passou a vida toda a participar em conferências e a falar sobre o Lewis Carroll. Quem com ela conviveu, assegura que era uma mulher tristíssima.

"Cuba não pode continuar de costas para o presente"

11

Março

2015

Publicado por Sergio_Almeida às 18:03
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Sérgio Almeida

 

Mario Conde, o detetive nostálgico que atravessa vários livros de Leonardo Padura, volta a ser convocado no novo romance, Os hereges. Mas esta saga judaica que se inicia na II Guerra Mundial e chega aos nossos dias está longe de ser uma simples variação da obra do autor cubano, um dos mais destacados criadores latino-americanos do presente.

Concorda que Os hereges é, antes de mais, um romance sobre os diferentes estados da dor?

Os dois tónicos nucleares do livro são a busca da liberdade e a dor que essa mesma procura provoca. A dor é uma consequência da decisão que algumas personagens acabam por ter ao decidirem ir em busca da liberdade.

Este é um romance longo mas que se lê de forma fluida. Aliar essa complexidade à fluência narrativa foi o maior desafio que teve?
É verdade. Já tive esse problema em romances anteriores, como “O homem que gostava de cães”, e é sempre difícil conciliar estilos, formas de narrar, ambientes e personagens tão diferentes. Uma parte de “Os hereges” decorre em Amesterdão no século XVII durante o período Barroco. Procurei criar um ritmo associado ao barroco, sem, contudo, escrever como se escrevia na época. Neste livro, as diferentes partes encerram-se em si mesmas. Não há linhas cruzadas.  

O que facilita a leitura.
Acredito que sim, embora para mim tenha sido mais difícil fazer com que cada uma das três histórias tivesse a sua própria estrutura autónoma. O sentido dramático teve que ser muito maior.

É excessivo associarmos o desejo de liberdade das personagens ao facto de o seu autor ser oriundo de um país com um reconhecido défice da mesma?
Tentei que a História não tivesse demasiado peso político. Quando decidi que ia escrever um livro a sobre alguém em Cuba que entra em conflito com a sociedade e procura a maneira de realizar-se à margem, senti que a leitura ia ser inevitavelmente política. Para evitar  isso mesmo, comecei a procurar outros períodos da História onde houve conflitos similares.

Como vê as recentes reformas encetadas por Cuba?

Há seis anos, Cuba iniciou um processo de mudanças económicas com o objetivo de colmatar algumas das  suas muitas lacunas. A visão mais pragmática e realista de Raul Castro levou-o a encetar essas mudanças, liberando as pequenas empresas privadas ou permitindo uma maior liberdade para viajar no estrangeiro. Essas alterações ajudaram a mobilizar a sociedade cubana, que esteve estancada durante anos, e agora vive um momento de maior dinâmica. Mas ainda não se mexeu quase nada na macro-economia.

O processo devia ser mais rápido?

É complicado... Há situações em que achamos, de facto, que tudo poderia ser mais célere, mas, por outro, percebe-se que uma rapidez excessiva na implementação dessas medidas poderia ser traumática. Existe uma contradição entre o que desejamos e o que temos, gerando situações complicadas. Mas é impossível negar que há uma mobilização que não existia há uns anos. O movimento económico está a gerar um movimento social novo que, espero, se aprofunde nos próximos anos.

A aproximação aos Estados Unidos foi bem acolhida?

É muito positivo o que está a acontecer. Antes de mais, porque faz baixar a tensão acumulada durante décadas entre ambos os países. A notícia do restabelecimento de relações entre Cuba e os EUA foi uma surpresa para todos. Sobretudo porque sempre imaginámos que o processo fosse inverso. Todos pensávamos que o processo se iniciasse com a desmontagem do embargo, na sequência de declarações públicas de vários responsáveis norte-americanos. Mas, para grande espanto geral, Obama e Raul Castro começaram pelo final, restabelecendo relações.

Não teme que com a eleição de um presidente republicano o processo volte à estaca zero?

Esse é um problema. Se Hillary Clinton suceder a Obama, o processo continuará, porventura de forma até mais rápido. No entanto, acredito que, qualquer que seja a situação interna dos EUA no futuro, a desmontagem do embargo já não irá voltar atrás.

É devido às reformas que hoje sente mais liberdade?

Desde que começou a crise dos 90 assistiu-se à rutura da relação da dependência absoluta que os cidadãos cubanos tinham do Estado. Recordo que nessa altura o Estado deixou de garantir a subsistência dos seus: não havia comida, transportes, medicina, eletricidade, livros, etc... Essa distância acabou por criar um espaço de liberdade. Mas as mudanças económicas que se vão intensificar no futuro poderão levar o Estado a tentar controlar o domínio do pensamento, da ideologia. É um enorme desafio que todos vamos ter pela frente. Não podemos continuar a viver de costas para o presente. Estamos em pleno século XXI e é importante que vivamos de acordo com estes tempos. O acesso à Internet é terrível. Por uma conjuntura muito favorável, consegui ligação.

O que falta alcançar?

As reivindicações dos cubanos eram fundamentalmente duas: direito a viajar e direito à informação, com acesso à Internet. O primeiro foi conquistado. No segundo, ainda falta avançar bastante. Há dois três anos, a Venezuela enviou um cabo de fibra ótica, agora os Estados Unidos propõem-se modernizar as telecomunicações em Cuba... Tudo isto vai criar plataformas para que o uso da Internet não tenha condicionamentos económicos. Não é possível fechar a porta ao Mundo.

Ao contrário da maioria dos intelectuais, nunca saiu de Cuba. Porquê?

Ainda ponderei seguir o que muitos amigos meus fizeram nos anos 90, mas resolvi ficar. A minha terra é Cuba. É lá que está a minha família, os meus amigos, a minha vida. Se fosse arquiteto, teria emigrado. Mas como escrevo sobre gente real e é da realidade que me alimento, fiquei. Com a ressalva de ir conquistando cada vez mais o meu espaço de independência. O que tenho  conseguido. Em 1995, deixei de trabalhar na revista onde escrevi e decidi tornar-me escritor profissional, mesmo sem ter um centavo no bolso. Escrevo para jornais

Os seus livros circulam em Cuba?

Sim, estão disponíveis, sem censura. São tiragens pequenas, mas, mesmo assim, tenho muitos leitores.

"O humor é uma arma, mas apenas destrói a estupidez"

25

Fevereiro

2015

Publicado por Sergio_Almeida às 16:48
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João Cerqueira acaba de publicar A segunda vinda de Cristo à Terra

 

 

Sérgio Almeida

 

 

O nome pouco dirá ainda à grande maioria dos leitores portugueses, mas João Cerqueira não é um debutante nas lides literárias. Com o livro A tragédia de Fidel Castro, obteve três prémios literários nos Estados Unidos (USA Best Book Awards 2013, o Beverly Hills Book Awards 2014, o Global Ebook Awards 2014) e recensões críticas elogiosas em várias publicações internacionais. Um reconhecimento que não foi suficiente, todavia, para atrair a atenção da generalidade da comunicação social portuguesa, que acusa de ter parcialidade ideológica. “Se em vez de ter escrito A Tragédia de Fidel Castro tivesse escrito A Tragédia de Angela Merkel ou A Tragédia de Passos Coelho, alguns jornais eram capazes de me colocar na primeira página...”, ironiza.
Agora, este doutorado em História da Arte pela Universidade do Porto, com um total de 11 livros já publicados, efabula sobre A segunda vinda de Cristo à Terra. Profundamente sarcástico, o romance retrata o Portugal contemporâneo sem subtilezas ou minudências, não se esquecendo de apresentar personagens decalcadas da nossa atualidade.

Nesta nova incursão pela Terra, coloca Jesus em situações, no mínimo, delicadas. Por isso mesmo, acredita que é um livro que pode chocar os católicos mais conservadores?
A capa, sim, poderá chocar alguns católicos com pouco sentido de humor. Mas quem ler o livro verificará que a figura de Jesus é tratada com grande respeito. Será que alguém se ofenderá por Jesus ver Madalena a tomar banho nua num riacho? São os homens quem são postos a ridículo. É Portugal quem é posto na cruz. Como digo no início do livro, considero Jesus Cristo a figura mais importante da história da humanidade. Ele sim – e não Castro ou Che Guevara - é o maior revolucionário de todos os tempos. Se existe liberdade, igualdade e democracia, Jesus é o grande responsável por estas ideias terem triunfado. E foi provavelmente por isso que o mataram.

Embora o contexto ficcional e o humor sejam evidentes, é verdade que o livro não esconde uma tentativa de reflexão. Se Jesus viesse novamente ao convívio dos homens, os desafios que enfrentaria seriam muito mais complexos?
O livro foi inspirado por três acontecimentos recentes: o ataque por ecologistas radicais a um campo de milho geneticamente modificado, o caso Portucale e o conflito racial no Bairro da Fonte. Convido pois o leitor a reflectir sobre problemas contemporâneos como os alimentos geneticamente modificados, a ecologia, a corrupção e as tensões raciais. Por outro lado, cruzo o humanismo cristão com a Utopia de Thomas More – o livro favorito de Madalena que ela vai citando ao longo da história –, o mito do bom selvagem de Rousseau com a teoria do pecado original de Santo Agostinho e apresento em cada capítulo um episódio do Novo Testamento transfigurado. Julgo, pois, que A segunda vinda convida o leitor a reflectir sobre muita coisa – embora esteja tudo relacionado. Quanto a Jesus, se viesse de novo à Terra creio que lhe sucederia o mesmo do que no livro: ninguém lhe prestaria atenção. Só os cães. Todavia, se se empenhasse mesmo na pacificação da humanidade – levado por uma nova Madalena – os homens acabariam por o maltratar de novo.

 


 

Em que sentido o sarcasmo e o humor a que costuma recorrer nos seus livros podem ser contributos para uma compreensão da realidade?
Os romanos diziam ridendo castigate mores – a rir se castigam os costumes. E Voltaire pedia a Deus para tornar os seus inimigos ridículos. O humor é uma arma poderosa, mas apenas destrói a estupidez. Todavia, como se viu recentemente, apenas nas sociedades democráticas os dogmas religiosos ou políticos podem ser alvos de troça. A sátira já foi um elemento fundamental da nossa literatura. Gil Vicente, Camões, Bocage, Camilo, Eça e Ramalho Ortigão, Almada Negreiros, satirizaram sem piedade a sociedade em que viveram – e graças a isso entendemos melhor esse passado. Contudo, no presente a sátira parece estar fora de moda. Mário de Carvalho, em livros como Fantasia para dois Coronéis e uma Piscina, é dos raros autores a usá-la de forma magistral. Eu uso a sátira, o humor e o non-sense para abordar temas complexos. A maioria das críticas que recebi na Amazon destaca isso mesmo: os leitores não esperavam que o texto os fizesse rir. A dado momento, Madalena e Jesus debatem o que acontece ao ser humano depois de morrer: vai para debaixo da terra e acaba transformado em ar pelas plantas, ou sobe aos céus? A morte perde o seu lado tenebroso se a abordarmos com humor.

Concorda que, apesar de se debruçarem sobre personagens muito distintas, tanto “A tragédia de Fidel Castro” como “A segunda vinda de Cristo à Terra” convergem na tentativa de dessacralização de figuras poderosas?

Castro é realmente uma espécie de Deus para muitos que distinguem ditaduras de Esquerda e ditaduras de Direita. Apesar dos personagens da tragédia o acusarem da desgraça de Cuba, dou-lhe, nos seus diários, a oportunidade de defender a sua revolução. Quanto a Jesus, praticamente se dessacralizou a si próprio no Novo Testamento.

Como definiria as suas convicções religiosas?

Apesar do que disse sobre Jesus, custa-me a acreditar que tenha sido filho de um Deus. Por outro lado, se Deus criou o homem por que existe o mal? Santo Agostinho dá uma resposta inteligente, mas não me convence. Um Deus omnipotente não poderia ter criado um mundo sem ódio nem guerra? Acrescento ainda que consigo entender a ideia de um ser infinito, mas conceber um ser que não tem princípio, isso transcende a minha capacidade mental. No entanto, como explicar a origem do universo? De onde veio a energia que deu origem ao Big Bang? Ninguém sabe responder. Sou, portanto, agnóstico. Mas, quem sabe se não encontro a minha estrada de Damasco um dia - sem me estatelar no chão, espero.

A temática do eventual regresso de Jesus tem atraído vários autores ao longo dos anos, como A segunda vinda de Cristo, de John Niven. O que, em seu entender, traz de diferente o romance que escreveu?

Deslocar personagens históricos para outras épocas é um grande risco. O registo humorístico é a melhor forma de sustentar a história. Além do livro de Niven ser mais burlesco do que o meu, a principal diferença é Jesus não ser o personagem principal. O personagem principal é Madalena. Ela, tal como os restantes personagens, é uma figura contraditória. As opiniões desta activista política que sonha com um mundo utópico, não divergem muito de personalidades como Joana Amaral Dias ou Raquel Varela. Todavia, ao mesmo tempo que vitupera o capitalismo e a globalização, Madalena disfruta dos bens de consumo trazidos pelo livre comércio. Computadores, ipods, telemóveis, etc. Na verdade, Madalena, tal como todos nós, ao comprar tablets, roupa ou até comida, está a financiar as empresas da globalização. Por outro lado, quer ajudar os camponeses, mas olha-os como labregos incultos. E diz-se amiga das minorias raciais, mas, ao falar com a cigana Romi, pergunta-lhe se o curso que ela está a fazer é para ser cabeleireira ou esteticista, revelando os preconceitos que tanto critica. Por que raio é que eu haveria de ser cabeleireira? Responde-lhe a jovem cigana.

Por falar em A tragédia de Fidel Castro chegou a ter alguma reacção do regime cubano ao livro?

Do regime, não, mas tive reacções de editores americanos admiradores de Fidel Castro. Kim Petterson, crítico da Dissent Voice, escreveu que o livro era imaginativo e bem escrito, mas que a leitura era irritante, pois eu confundia a ficção com a realidade. Trocamos alguns emails e ele acabou a dizer que em Cuba havia mais liberdade do que nos Estados Unidos e na Europa. Por outro lado, Dawn Gable, a editora do Havana Times – uma revista pró-regime -, após ter aceitado receber o livro para o divulgar, foi arrasá-lo na Amazon. Foi um golpe baixo. Mais honesta foi a escritora e encenadora inglesa Lizzie Eldrige – socialista convicta – que, apesar de não concordar com algumas partes do livro, escreveu uma das melhores críticas na BoldType Magazine. A versão inglesa e portuguesa já entraram em Cuba clandestinamente, e tenho a certeza que um dia irei lá apresentar o livro.

 

 

 

A avaliar pelos prémios recebidos, os seus livros têm captado mais atenção nos Estados Unidos do que no seu próprio país. Desgosta-o esse facto?
É claro que sim. Custa-me a entender que, tendo vencido três prémios de literatura num ano, sido finalista noutro, que o livro tenha sido considerado a terceira melhor tradução publicada nos EUA – numa short list onde estavam Cervantes e Rulfo – e ainda que esteja a ser adaptado para o teatro (pelo editor James Palombo), nenhum dos principais jornais tenha escrito uma linha sobre o assunto. Os jornalistas da área da cultura receberam esta informação, mas decidiram omiti-la. O Seatlle Post, o El Nuevo Herald, o Examiner, a The American Culture e o Silvio Canto Radio Show, divulgam o meu trabalho, mas os jornais e as revistas portuguesas ignoram-me. Não venci o prémio Nobel, nem o Pulitzer, mas, afinal, que outro escritor português ganhou prémios na América? Acrescento ainda que competi com escritores de todo o mundo, e não apenas americanos, em concursos onde o número de júris chega a ultrapassar as duzentas pessoas. Atrevo-me pois a pensar que se em vez de ter escrito A tragédia de Fidel Castro tivesse escrito A tragédia de Angela Merkel ou A tragédia de Passos Coelho, alguns jornais eram capazes de me colocar na primeira página. Em Portugal, espera-se que os escritores satirizem o capitalismo – o que também sucede no meu livro – e não o socialismo.

Para que países está assegurada a publicação de “A segunda vinda de Cristo à Terra?”

Assegurada, está a publicação da Tragédia em Espanha pela editora Funambulista - que publicou O livro do desassossego. de Fernando Pessoa –, em Itália pela Leone Editore, no Reino Unido pela Freight Books, estando a decorrer uma negociação com a editora argentina Eduvim por causa dos direitos para língua espanhola. Por outro lado, as agências literárias que me representam em França, na Polónia, e no Brasil têm-me dito que há várias editoras a analisar o manuscrito. Quanto a A segunda vinda de Cristo à Terra, recebi duas propostas para publicação nos Estados Unidos e, se tudo correr como espero, poderá também ser publicada pela Funambulista e pela Freight Books. Acrescento ainda que foram publicados excertos em quatro revistas americanas e uma inglesa e que a editora brasileira Nova Litteris seleccionou um desses excertos para publicação numa colectânea de contos sobre a condição dos negros no Brasil.

Apesar de os seus livros terem distribuição por diferentes países, não abdica de falar de personagens ou contextos portugueses. A nossa História também pode ser aliciante para a literatura?

Sendo português, não podia senão escrever sobre o meu país. Afinal, não se trata de um país qualquer: já dividiu o mundo ao meio com os espanhóis, mas, depois, perdeu a independência, teve uma das ditaduras mais longas de sempre, foi três vezes à bancarrota em democracia, permitiu que três bancos falissem sucessivamente, e tem agora um antigo PM na cadeia. E isto não vai ficar por aqui. Não é preciso ser o Professor Kacimba - o único que reconhece Jesus – para o prever. No posso país, deve-se sempre esperar as maiores loucuras. Aliás, o meu próximo livro, 25 de Abril: corte e costura, trata de um assunto que diz respeito a todos os portugueses: por que motivo os nossos partidos preferem afrontar-se (e insultar-se) em vez de se unirem e tentarem resolver os problemas dos cidadãos? A propósito de uma celebração do 25 de Abril, a Direita e a Esquerda, esquecendo o simbolismo da data, aproveitam para tentarem irritar-se mutuamente com uma tourada e um desfile homossexual.

Como é que um doutorado em História de Arte se deixa tentar pela ficção literária?

A crítica de arte contemporânea – pintura, escultura e arquitectura – é uma forma de ficção surrealista. O leitor passa os olhos naqueles textos e fica sem saber patavina: a obra é boa, é má, assim-assim? Aquilo promana de outras esferas. Não me admiro nada que, um dia, sejam eles a demonstrar a existência, ou a inexistência, de Deus.

Viver da escrita sempre foi um objectivo de vida?

Já fui gerente de uma empresa familiar, já dei aulas e já abri um centro de apoio educativo no Porto. Como fiz o décimo segundo ano de Ciências e Letras, até ao nono ano ajudava os alunos em todas as disciplinas. Em termos educativos, não me saí mal; em termos de lucro, foi um desastre. O sistema capitalista é realmente complicado.

Que conselhos daria aos autores que gostariam de ver publicados os seus livros noutros países mas que, por vários motivos, nunca o tentaram realmente?

Se me é permitido dar algum conselho, dou o seguinte: globalizem-se. Foi o que eu fiz. Como sentia que no meu país não valorizavam o meu trabalho, arrisquei a publicação em língua inglesa. E foi a melhor decisão da minha vida. Discutir com um editor profissional a forma de melhorar um romance, processo que levou três meses, vale por todos os cursos de escrita criativa que se possam fazer. A internet oferece a possibilidade de descobrir editoras, revistas, forums, concursos em qualquer parte do mundo. Aconselho pois a fazerem uma pesquisa exaustiva e a enviarem os vossos textos, começando pela short fiction. Se tiver qualidade, alguém há-de reparar no vosso trabalho. Não tenho a menor dúvida de que há escritores não publicados em Portugal que, no resto do mundo, poderiam ter sucesso.

Comprimidos literários sem risco de sobredosagem

12

Dezembro

2014

Publicado por Sergio_Almeida às 18:31
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Sérgio Almeida

 

Que a poesia pode curar, já muitos leitores o sabem. O que muitos desconhecem é a existência de uma despretensiosa publicação mensal publicada no Porto que adota o nome e o formato das bulas médicas. Com uma nuance importante: em vez de indicações médicas, encontramos... poemas e ilustrações.

Um conceito original que, número após número, tem visto o seu número de seguidores crescer.

Em entrevista,o editor d'A Bula, Paulo Moreira Lopes, explica a origem da publicação e a sua forma de funcionamento.

 

Como surgiu este projeto?

A Bula constitui uma réplica da revista de literatura brasileira Um Conto. Foi a surpreendente conjugação do prazer intrínseco à leitura de poesia e prosa associado ao trabalho manual da criação do objeto, em que se vai dobrando e espalmando uma simples folha de papel de tamanho A4 até esta atingir a dimensão A7, que nos desafiou a repetir a iniciativa com textos e ilustrações de autores do distrito do Porto que íamos conhecendo no âmbito do projeto do Correio do Porto. O título advém da semelhança com os desdobráveis das bulas dos medicamentos (foi ideia da minha irmã mais nova), por sua vez o espírito e a solução gráfica (a autoria é do meu primo Leunam) acabaram por ser condicionados por aquela designação. Daí a alusão aos comprimidos literários e à advertência de que deverá ser mantida ao alcance e à vista das crianças e adultos. É importante salientar que, em momento algum, se deve confundir a nossa A Bula com a Bula Manifestis Probatum, pois não se pretende com aquela o reconhecimento da originalidade da literatura que se faz no Porto, quer seja por via papal, ministerial, associativo (SPA ou APE), jornalístico ou até académico. Ela existe e pronto!

 

A recetividade encontrada foi um incentivo?

Apesar da nossa forte determinação em concretizar a iniciativa (no Correio do Porto ou partilhando-a em família ou com os amigos), foi muito encorajadora a resposta positiva e entusiástica dada por Francisco Duarte Mangas e João Pedro Mésseder ao nosso convite. A participação daqueles autores nos números iniciais credibilizou A Bula perante o público mais interessado e representou, ainda, um estímulo para os autores menos divulgados pela comunicação social, os quais iam recebendo os nossos convites e tomando conhecimento das Bulas anteriores.

 

Como selecionam os autores em destaque?

O critério subjacente aos convites é, antes, depois e acima de tudo, o interesse do convidado em publicar, o qual se revela através dos blogues, da edição de autor ou da edição comercial. Perante a publicidade do trabalho artístico, presumimos a disponibilidade do autor em partilhar connosco o amor pela literatura. Por isso, tanto publicamos autores a iniciar como já consagrados. Não fazemos aceção de poetas ou escritores. Mas A Bula não é só literatura. É composta habitualmente por duas ilustrações (capa e interior) de um artista contactado por nós ou sugerido pelo participante. Os artistas plásticos também são convidados segundo o critério dos literatos. Podemos afirmar, com propriedade, que é um espaço de liberdade (cada autor sugere os textos), igualdade (não há diferença entre os autores) e fraternidade (o amor à arte é partilhado por todos) que nasce na internet às 00h do dia 1 de cada mês, em versão PDF, podendo ser impresso pelo leitor e depois dobrado no tamanho proposto (A7).

 

Que gastos estão associados ao projeto?

O único custo é a impressão, estando disponível no mercado da web sem qualquer condicionante (subscrição ou outra). Para acautelar a saúde das pessoas com quem nos cruzamos no dia a dia (indiretamente estamos a acautelar a nossa saúde) deixamos Bulas já dobradas nos cafés que frequentamos na cidade do Porto e em Gaia e na receção da Biblioteca Pública Municipal do Porto (S. Lázaro). À semelhança de Antero de Alda (autor publicado na Bula), só esperamos lucros no amor e na amizade (esta última é acrescento nosso). Um dos reforços positivos que temos tido é a representação mental de um português num lugar longínquo (China, Austrália ou outro país) a imprimir, dobrar e espalmar (três vezes) a Bula e a deleitar-se com a leitura e o seu manuseamento. A alegria provocada por aquela representação é, por si só, um suplemento que afasta qualquer desânimo que possa surgir. Será que estamos viciados?

 

O formato é para manter?

Sim. Já pensamos em acrescentar cor, mas decidimos apostar no preto e branco, sem prejuízo dos ilustradores criarem os trabalhos a cores. Uma das possibilidades de alteração será passar a publicar Bulas temáticas (Natal, por exemplo), alternando com as antologias. Advertência: para o caso dos utilizadores da Bula não sentirem, de imediato, os efeitos benéficos dos comprimidos literários, lembramos que devem ter paciência, pois como dizia Luís Veiga Leitão (autor a publicar na Bula), e nós acreditamos, o poema principia no fim.

"Já começo a vender mais em França do que em Portugal"

03

Novembro

2014

Publicado por Sergio_Almeida às 19:23
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 (Foto Paulo Barata/"Volta ao Mundo")

 

Sérgio Almeida

 

Na terceira e última parte da entrevista concedida ao JN, José Rodrigues dos Santos fala sobre as dúvidas que tem em partilhar o processo criativo com outros e assume a importância crescente do mercado francês na sua obra. O novo romance, A chave de Salomão, conheceu o lançamento mundial no início do ano precisamente em França.

Sobre a desconfiança que ainda suscita em parte do meio literário português, admite que o êxito pode gerar invejas. Prefere, porém, desvalorizar essas críticas, optando por canalizar esforços no que considera mais importante: os leitores.

 

Apesar das comparações com Dan Brown que, muitas vezes, são feitas, faz questão de demarcar-se dele, dizendo mesmo que, ao contrário do escritor norte-americano, não se serve da verdade para servir a ficção. Esta é, para si, a grande diferença que vos separa?


O que eu digo é que Dan Brown altera a verdade para servir a ficção, enquanto eu altero a ficção para servir a verdade. Essa é a grande diferença entre nós. Mas, além disso, não me demarco dele. Nem me “marco”, se assim posso dizer. Não acho que sejamos autores parecidos, mas se há pessoas que acham que somos... tudo bem. Não me aquece nem me arrefece.


As aventuras de Tomás Noronha são já familiares para alguns milhões de pessoas em todo o Mundo. Não teme vir a padecer de uma espécie de síndroma de Flaubert, ou seja, ver uma criação sua competir com própria popularidade do autor?


Uma vez fizeram essa pergunta a Hergé sobre Tintin, e ele respondeu: Tintin c’est moi. Ou seja, o Tintin sou eu. De certo modo eu poderia dizer: Tomás c’est moi. Não posso competir comigo mesmo, pois não?


É o autor português mais internacional (e popular) da actualidade. E, no entanto, raramente lemos recensões críticas aos seus livros nas publicações da especialidade ou vemo-lo a ser convidado para participar em colóquios. O meio literário português ainda tem dificuldade em lidar com o seu êxito?

Talvez, mas é normal. Ninguém é profeta na sua própria terra. De qualquer modo, a opinião, ou se quiser a inveja, existente nos meios literários não é verdadeiramente importante. Escrevo para os leitores, não para um punhado de pessoas. O que me incomodaria, para ser sincero, era se os leitores me ignorassem. Isso é que era aborrecido.

O livro foi publicado em França já em maio e depois disso noutros países. Alguma razão especial para ter saído antes da edição portuguesa?


A intenção original era de lançar as edições portuguesa e francesa simultaneamente. Acontece que a altura adequada de lançamento de romances no mercado francês é a primavera, enquanto em Portugal é no outono. Daí o desfasamento. Ambas as edições saíram no mesmo ano, mas em momentos diferentes.


Foi também uma forma de premiar os seus leitores franceses, cada vez mais numerosos?


De facto. Aliás, já começo a vender mais em França do que em Portugal. A fórmula de Deus, por exemplo, vendeu 197 000 exemplares em Portugal e 260 000 em França. Esta é uma realidade que não posso ignorar, o que não impede que o público português seja especial porque sou português e é aqui que vivo.


Vários leitores portugueses manifestaram nas redes sociais algum desagrado por isso. Compreende essa insatisfação?


Claro. O ideal era de facto a publicação ser simultânea no mesmo dia, mas os condicionalismos do mercado francês impuseram outra solução.


O que o impede, neste momento, de dedicar-se a tempo inteiro à escrita?

O gosto que tenho em fazer jornalismo e em dar aulas na faculdade.


Reconhece que lhe é cada vez mais difícil conciliar as solicitações literárias com as naturais exigências da atividade jornalística?

Não é. Estas atividades não competem uma com a outra. Complementam-se. A escrita ajuda-me a ser melhor jornalista, o jornalismo ajuda-me a ser melhor escritor.


Ao contrário do que acontece com quase todos os autores populares cujos livros envolvem pesquisa, continua a dispensar os investigadores. O “exército de neurónios”, como já lhes chamou, continua a ser o seu maior aliado?

O meu maior aliado são os meus leitores, pois são eles que me motivam a escrever mais e mais. Mas de facto dispenso ajudas externas para escrever os meus romances. Sinto-me mais livre a trabalhar sozinho.


Essa relutância em recorrer a especialistas externos não terá que ver também com uma crença segundo a qual todas as tarefas relacionadas com a escrita de um livro são eminentemente solitárias?

É isso mesmo. Mas, atenção, eu recorro a especialistas externos quando o romance está terminado. Procuro pessoas peritas na área do tema do romance e peço-lhes para o lerem, de modo a certificar-me de que não cometo erros.


Pela velocidade habitual do seu processo criativo, já deve ter bem adiantado o próximo romance... O que pode avançar?


Como de costume... nada. O romance do próximo ano está em adiantado estado de escrita, mas é prematuro falar sobre ele. Deixemos essa conversa para o próximo ano...

"Se a verdade incomodar alguém, paciência"

30

Outubro

2014

Publicado por Sergio_Almeida às 14:44
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 (Foto Paulo Barata/"Volta ao Mundo")

 

Sérgio Almeida

 

A chave de Salomão é o novo livro de José Rodrigues dos Santos. Há uma semana nas livrarias, já se encontra na segunda edição, que corresponde a uma tiragem de 60 mil exemplares. Números que prolongam o êxito de uma carreira literária em que já vendeu dois milhões de exemplares apenas em Portugal.

 

Em entrevista ao JN, o autor, que já vendeu dois milhões de exemplares apenas em Portugal, não se mostra preocupado com as críticas ao romance e reconhece que o grande desafio de A chave de Salomão foi transformar os conceitos científicos complexos presentes na narrativa numa linguagem acessível.

 

A morte está também presente no livro, através da doença da mãe do protagonista. Concorda que a morte é talvez o derradeiro tabu da sociedade ocidental?


Não é bem um tabu. É um mistério. A morte é mesmo o fim de tudo? Ou haverá algo mais? Por que motivo existiremos? Para que no fim deixemos de existir? Poderá a nossa existência ser um mero acidente? Na verdade a ciência já tem respostas para algumas destas perguntas e eu abordo-as em A fórmula de Deus e em A chave de Salomão.

Em que sentido essa ausência de debate sobre o tema, a par da tentativa de prolongarmos a vida por todos os meios, condiciona essa nossa aceitação?

É difícil aceitarmos a nossa morte, pelo menos enquanto estamos de saúde. Ou melhor, aceitamo-la por momentos, mas logo temos de a esquecer. Da mesma maneira que ninguém consegue olhar muito tempo para o Sol, ninguém consegue pensar muito tempo na morte.

Muitos dos seus livros ganharam o rótulo de polémicos, ao avançarem com teses que desagradaram a alguns setores da sociedade. Desta vez, quais os visados de que espera uma reação mais enérgica?

Para ser sincero, não espero reacção enérgica de ninguém. Gosto de escrever coisas verdadeiras. Se a verdade incomodar alguém, paciência...

 

Acredita que mesmo o leitor mais leigo em matéria científica não terá dificuldade em acompanhar os conceitos expressos no livro?


Suponho que um analfabeto não conseguiria acompanhar o romance. Mas os analfabetos não leem romances, pois não? Quem lê romances são pessoas com algum nível cultural. Essas pessoas não terão a menor dificuldade a ler A chave de Salomão.

Tornar acessíveis a um número alargado de leitores teorias e conceitos complexos foi um desafio particular?

Sim, é um desafio. Mas as descobertas científicas são de tal modo apaixonantes que a complexidade acaba por ser superada. Quem não gostaria de saber o que a ciência descobriu sobre o que nos acontece quando morremos?

A longa experiência jornalística foi-lhe particularmente útil neste campo?

Talvez na escrita. Os jornalistas procuram escrever de uma forma compreensível e interessante. Ora essas são justamente duas características que procuro imprimir aos meus romances. Quero que eles sejam compreensíveis e interessantes. Quando o leitor começa a ler, já não consegue parar. É isso o que procuro.

Falta cultura científica à nossa sociedade? Ou dito de outro modo, restringe-se o sentido de cultura apenas ao saber literário, esquecendo-se das outras vertentes, igualmente importantes?

Isso é verdade. As pessoas que escrevem são em geral avessas às ciências. As pessoas que fazem ciência são em geral avessas à escrita. Isto provoca lacunas na cultura científica da sociedade. O grande desafio é escrever sobre ciência de uma forma sedutora.

Rodrigues dos Santos diz que "estamos perto de descobrir o enigma da existência"

28

Outubro

2014

Publicado por Sergio_Almeida às 18:01
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(Foto Paulo Barata/"Volta ao Mundo")

 

Sérgio Almeida

 

Os mistérios da consciência estão no centro do novo romance de José Rodrigues dos Santos, já nas livrarias. Em A chave de Salomão, o escritor recorre a teses científicas para criar um ‘thriller’ que volta a colocar em apuros o herói Tomás Noronha.


Apesar da crescente popularidade internacional dos seus livros, o autor rejeita a hipótese de dedicar-se a tempo inteiro à escrita, frisando o gosto que continua a associar ao jornalismo e às aulas.

Esta é a primeira parte de uma entrevista concedida ao Jornal de Notícias pelo escritor e jornalista. As restantes serão publicadas ao longo dos próximos dias.

 

Concorda que este é o seu livro que mais se aproxima do celebrado A fórmula de Deus?


Sim, sem dúvida. É um romance que mostra o lado mágico das descobertas científicas. E todos estes assuntos têm ligações subtis ao maior mistério que cada um de nós enfrenta: o que acontece quando morremos? Esse é um tema central de A chave de Salomão. A única coisa que sabemos com segurança é o que nos dizem as pessoas que estiveram às portas da morte e que descrevem experiências de quase morte em que saíram do corpo, viajaram num túnel, encontraram familiares que já morreram, reviram toda a sua vida... etc. Estudos médicos reputados concluíram que até 23 por cento das pessoas com paragens cardíacas têm estas estranhas experiências de quase morte. Ninguém duvida que tais relatos são genuínos. Mas o que significam eles exactamente? É sobre isso que o meu romance fala, usando exclusivamente informação científica.

 

Escolheu para a apresentação do seu livro um físico e um psiquiatra. Quis demonstrar que as dimensões da matéria e da mente se relacionam mais do que muitos julgam?

Absolutamente. O romance gira em torno de uma experiência da física, chamada experiência da dupla fenda, que pode ser descrita como a mais misteriosa experiência que a ciência alguma vez fez. Einstein confessou ter passado mais tempo a pensar nas consequências dessa experiência do que na Teoria da Relatividade. E por uma boa razão. A experiência das duas fendas demonstra que, no limite, a Lua de facto não existe se ninguém a estiver a observar. Isso acontece justamente por causa das insuspeitadas relações entre a matéria e a mente. 

 

À semelhança de vários dos seus livros anteriores, A chave de Salomão levanta uma série de questões pertinentes aos leitores. E o autor? Chegou ao livro com mais certezas do que as que tinha no início do processo?

Os meus romances não são apenas descobertas para os meus leitores. São descobertas para mim próprio. Mas não sei se fiquei com mais certezas. Acontece com frequência em ciência que a resposta a um mistério levanta dez novos mistérios em que nunca se tinha pensado. Eu diria que isso acontece também em A chave de Salomão.

 

Que sensação lhe trouxe o regresso a alguns dos locais retratados no livro, Genebra e Bruxelas?

 

Gosto de visitar os locais da acção dos meus romances depois de escrever sobre eles, nunca antes. Deste modo vejo os sítios com outros olhos, compreendo-os melhor, conheço o seu passado e a sua história e avalio melhor a sua importância. 

 

Os resultados dessa viagem inicial que fez influenciaram o desenvolvimento do romance?

Não influenciaram a narrativa. São lugares, apenas isso. Têm ambiente e têm história, e é só o que me interessa neles.

 

O que mais o impressionou na viagem que fez a essas cidades?

 

A história por detrás dos locais onde as coisas aconteceram. Ser fotografado na mesma escadaria onde Einstein, Bohr, Heisenberg, Schrodinger e todos os outros grandes físicos se deixaram fotografar depois do grande debate sobre a natureza da realidade em 1927. Estar diante do Atlas, o grande detetor de partículas do CERN onde se encontram os pontos mais frios e mais quentes de todo o universo e onde foi produzida a famosa Partícula de Deus – e onde ocorre a morte do director da CIA no início do romance. Não é extraordinário visitar os sítios que antes apenas tinha visitado através da minha imaginação?

 

Recorreu a informação científica genuína para o desenvolvimento do livro. Por se tratar de questões complexas, a pesquisa ocupou-lhe mais tempo do que o habitual?

Sim, muito mais. Sou sempre detalhado na pesquisa, mas desta feita tive de ser ainda mais cuidadoso do que é costume por causa da extrema complexidade do tema. No fim de contas, os físicos descobriram que o mesmo átomo está em vários sítios ao mesmo tempo e que a realidade não existe se não for observada. Einstein ficou atónito com estas descobertas e questionou-se se a Lua existirá se ninguém a estiver a ver. À luz do que os físicos descobriram, a resposta é negativa. As coisas só são reais se alguém as estiver a observar. Poderá haver descobertas mais incríveis do que estas? Daí que tenha sido obrigado a estudar estas questões com grande detalhe.

 

Habituámo-nos desde muito cedo a colocar em pólos opostos fé e ciência, como se fossem incompatíveis entre si. Acredita que essa visão é não só redutora como insuficiente?

Acho que fé e ciência são de facto incompatíveis. A fé é cega, a ciência não é. Mas a questão que coloco em A Fórmula de Deus, e de certo modo também em A chave de Salomão, é saber se Deus não será uma entidade diferente daquela que os textos religiosos nos apresentam. Digo isto porque de facto já se provou cientificamente que Deus existe. Mas o Deus que a ciência encontrou não é bem o Deus de Abraão, Jesus ou Maomé.

 

Estamos muito perto de descobrir o tal enigma da existência ou, afinal de contas, o essencial continua por deslindar?

Estamos perto. Mas é importante sublinhar que, conforme Einstein certa vez observou, a natureza é majestosa na sua essência e esconderá sempre o seu derradeiro segredo. Ou, como costuma dizer o herói dos meus romances, o Tomás Noronha, haverá sempre mistério no fundo do universo.

"Estou sempre a escrever pela primeira vez"

10

Julho

2014

Publicado por Sergio_Almeida às 19:33
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Sérgio Almeida

 

Poesia e sonho caminham lado a lado no novo romance de Andréa del Fuego, As miniaturas”, publicado há dias em Portugal pela Porto Editora. Depois de se ter debruçado sobre a história da própria família em “Os Malaquias” – romance que lhe valeu o Prémio Saramago –, a escritora brasileira propõe agora uma engenhosa narrativa em que os sonhos  nos são sugeridos através de peculiares criaturas que dão pelo nome de oneiros.

 

Tratando-se de um livro que pode ser lido como uma fantasia onírica, pode dizer-nos se a história de “As miniaturas nasceu durante o sono?

 

As miniaturas, embora fale do sonho, não é nada onírico. Não veio de um insight que aumenta o coração de energia. Veio de um pensamento frio sobre a imaginação. O cérebro nunca dorme, a atividade de dar imagem à ação não acaba nunca, só com a morte.  Ainda assim acho que há mistérios depois do fim. A ideia surgiu quando li Sobre a interpretação dos sonhos de um grego do século II, o Artemidoro. O livro foi escrito para enfrentar seus opositores e também ensinar ao filho a arte da interpretação dos sonhos, sua profissão. O livro teria sido leitura de Freud, por exemplo. É um manual de atendimento, fiquei impressionada com o pragmatismo, com o facto de a interpretação se valer da realidade do consulente, o sonho é só um dado a mais. Não haveria uma realidade paralela, mas duas que se ligam organicamente, quase fisiologicamente. Então pensei num livro que não se passasse pós-sonho, mas antes mesmo de seu surgimento, um Edifício que sugerisse sonhos, no lugar dos Artemidoros, haveria os oneiros, criaturas que sugerem sonhos através de miniaturas prosaicas. Eles jamais teriam acesso ao sonho em si do consulente. Mas no decorrer da trama, vê-se que são as pessoas que interferem na vida dos oneiros, e não o contrário.

Acontece-lhe muitas vezes pensar no significado do que sonha?

 

Sempre penso no significado dos meus sonhos, e no de meus amigos também. Por vezes alguma amiga me pede a intrepretação do sonho, é uma brincadeira de boteco, regada à cerveja, claro. Mas adoro tentar desvendar metáforas, é puro exercício literário.
 
 

Acredita que, se existisse mesmo alguém incumbido de guiar os sonhos de quem dorme, existiriam menos pesadelos e, consequentemente, menos perturbações no dia-a-dia?

 

Tudo dependeria da ética desse alguém incumbido. Se um dia, numa sociedade pós-tudo, tivermos o serviço de dominar o cérebro em seu sono individual, para controlar esse mesmo cérebro quando estivéssemos acordados, então não haveria mais natureza humana, aquela selvagem, intacta, brotando água limpa. Mas um lago de peixe criado à ração. Seria um pesadelo acordado.
 

Apesar de haver elementos do realismo mágico na história, é redutor inscrever o romance nessa categoria?
 

As miniaturas intercala passagens de realismo mágico com realismo. E mesmo detro do realismo mágico as coisas se passam de forma burocraticamente realista. Talvez o livro seja melhor colocado em uma longa estrada de publicação, quando eu também possa entender porque a fuga da realidade me é tão incontornável.
 

Teria sido muito simples (e porventura vantajoso) escrever um livro próximo do anterior, o premiado Os Malaquias. Não hesitou nem por um instante no caminho distinto a seguir?
 
 

As Miniaturas foi escrito com uma bolsa de escrita que ganhei em 2009, uma bolsa da Petrobrás. Escrevi com um prazo institucional de publicação. Eu teria levado mais tempo, normalmente, para publicar. Então, em 2009 comecei a esboçar o que seria o livro, partindo do zero depois de escrever um livro tão pessoal quanto Os Malaquias, e tendo esgotado um ciclo nele mesmo, o do baú afetivo pelos ancestrais, pelo menos os meus. O romance que escrevo agora também remete aos espíritos antigos, mas desta vez são espíritos marciais.


 

 

Como afirmou, o livro foi escrito durante uma bolsa de criação literária de que dispôs. Ter um prazo temporal limitado para concluir um romance complexo como As miniaturas não é um grande constrangimento?
 

O prazo não é literário, não é da mesma natureza que a criação, sem dúvida. Ao mesmo tempo, essa é a história do livro, seu percurso. Cada livro tem um caminho próprio, sempre se começa do zero, um livro não ajuda o próximo, estou sempre escrevendo pela primeira vez.
 
 

Como o primeiro romance versava sobre a sua própria família, podemos concluir que o processo de escrita de As miniaturas, em contraponto com o anterior, foi muito mais cerebral e metódico?
 

Absolutamente, essa forma metódica está inclusive na trama do livro. Enquanto Os Malaquias é um livro fechado, há a visualização de um ciclo, em As miniaturas não há isso, divido com meus leitores uma questão sem resposta, o livro tem um fim que nem parece um fim, como seu eu tivesse esquecido de acabá-lo. Mas era esse o plano. Experimentei radicalmente outra forma de escrever depois de Os Malaquias.
 


Muitos escritores confessam que, quando recebem um prémio importante, têm que esquecer a escrita por uns tempos, tantas são as solicitações que recebem. No seu caso isso também aconteceu?
 

No meu caso, não foram as solicitações e as viagens (muitas) que vieram depois do Prémio José Saramago, foi meu filho, Francisco José, para quem dedico meu tempo integral em seus primeiros anos de vida. Faço questão dessa entrega materna, ela é como um tijolo, concreto, em função da verdadeira continuação do mundo, ter um filho é continuar e trabalhar. Agora estou me encaminhando para a volta da disciplina com o crescimento do menino, como se nós dois saíssemos da toca.
 

 

Além das solicitações e do prestígio, o prémio trouxe certamente maior responsabilidade. Sentiu isso durante a escrita?
 

Senti, claro. E me desafiei a escrever como se ninguém estivesse me olhando, com esse risco que se corre ao escrever saindo de uma estrada segura de sucesso, para um beco que ainda não conheço.

 

A sua ligação a Portugal saiu reforçada com o Prémio Saramago?


Completamente, por conta do prémio conheci Portugal pessoalmente. É familiar, como se eu voltasse ao país e não o tivesse conhecido pela primeira vez. Acho que ainda morarei em Portugal.

 

Por falar em Saramago, acredita que a língua portuguesa poderá vir a ser contemplada num futuro próximo com um novo Nobel da Literatura? Se isso acontecer, que autores da nossa língua merecem mais, na sua opinião, este galardão?

 

Direi um nome, há muitos mais, mas direi um: Herberto Hélder.
 

"Há uma elite muito corrupta"

01

Novembro

2013

Publicado por Sergio_Almeida às 17:33
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Sérgio Almeida


A investigação da morte de um abastado construtor civil com perigosas ligações ao mundo da política é o eixo do novo romance de Richard Zimler, A sentinela.  Um livro que nasceu da insatisfação do autor, a residir entre nós desde 1990, pelo rumo que o país tem seguido nos últimos anos.

 

Concorda que este é o livro em que mergulha mais na realidade portuguesa?

 

É um registo diferente, porque associam-me mais ao aos romances históricos. Mas não posso ficar à margem da realidade atual do nosso país. O meu compromisso é com Portugal. Ao fim de 23 anos, devo ficar por cá de vez.

 

Esse envolvimento faz com que lide pior com a corrupção dominante?

 

Estou a compreender melhor o funcionamento do país. Há uma elite muito corrupta e irresponsável que domina tudo, da política à economia, como vimos no caso do BPN. Fiz os cálculos ontem e nem quis acreditar: os oito mil milhões de euros gastos pelo Estado neste bando teriam dado para pagar um salário mensal de dois mil euros durante dois anos a qualquer coisa como 200 mil pessoas!

 

Continuamos a ser muito pacientes com os que maltratam a causa pública?

 

Concordo com o protagonista, Henrique Monroe, quando diz que o nosso sistema de filtragem está errado, pois permite que as pessoas sem escrúpulos sejam premiadas, enquanto as restantes, muitas das quais competentes e criativas, são excluídas.  Dou o exemplo de George W. Bush. Num sistema justo, ele jamais subiria etapas até ao topo. No máximo, seria um excelente rececionista num hotel de quatro estrelas em Filadélfia. Poderia dar exemplos idênticos de cá.

A situação em Portugal é ainda mais grave?

 

É, porque as pessoas julgam-se intocáveis. Miguel Relvas fez apenas quatro das 36 cadeiras necessárias para ter a licenciatura e, no entanto, tudo lhe parecia correto! Mas Portugal fez progressos incríveis desde a primeira vez que cá vim, em 1980. O problema é que os avanços sociais não foram acompanhados pelos progressos políticos e económicos, como o indicam os estudos da OCDE que apontam Portugal como um dos países mais desiguais do mundo desenvolvido. Não se pode ter verdadeira democracia sem apostas na educação e justiça.

 

O livro foi uma libertação?

 

Estou muito zangado com o sistema. Há 23 anos que pago os meus impostos cá com todo o gosto. Parti do princípio que esses milhares de euros seriam aplicados na educação dos nossos jovens, os quais, um dia, iriam ler os meus livros. Se esses jovens são obrigados a emigrar, por falta de perspetivas, quem beneficia desse investimento é o Brasil, a Inglaterra e outros países para onde eles vão. Quero ter como presidente alguém como Nelson Mandela, mas o nosso sistema não está a permitir isso, ao excluir os melhores.


O livro nasce então do seu desencanto enquanto cidadão?


Curiosamente, não. A ideia para o livro surgiu-me em Nova Iorque. Estava numa livraria a consultar uma obra sobre fenómenos psicológicos insólitos quando vi uma artigo sobre o chamado transtorno de identidade dissociativa, que anteriormente era conhecido por personalidades múltiplas.

 

Por que decidiu manter os nomes de políticos, como Miguel Relvas?

 

Quis que o livro soasse real. Não fazia sentido inventar outros nomes para ministros, mesmo que corra o risco de, daqui a seis meses, já ninguém se lembrar deles.

 

A sentinela não é um policial convencional. Não quis escrever apenas mais um romance?

 

Sou incapaz de escrever um policial normal. Gosto dos que têm um perfil psicológico. O enredo, para mim, é o menos interessante. Ora, 95% dos policiais fazem o contrário e as cenas de sexo e violência põem-me a dormir.

 

A pesquisa para um romance histórico difere muito da que se faz para um policial. Qual a mais exigente?


Esta foi muito mais fácil. Através dos meus leitores consegui entrar em contacto com um inspetor da Polícia Judiciária do Porto. Expliquei-lhe o que pretendia e de seguida coloquei-lhe imensas questões sobre o quotidiano policiial.

 

Ao falar com os inspetores, apercebeu-se de que o imaginário transmitido pela TV é pura ficção?

 

Completamente. Tinha o preconceito de que ia encontrar algum durão como o Bruce Willis. Nada disso. Os inspetores-chefe de hoje são pessoas inteligentes, educadas e sensíveis. Outra ideia errada que tinha era a de que eles lidavam apenas com um caso de cada vez. Na realidade eles podem ter dezenas de casos... É muito duro.

 

Consegue abarcar um tema tão delicado como o abuso de menores sem ser propriamente gratuito. Encontrar o tom certo foi a parte mais difícil do livro?


Queria explorar o medo e a violência mas sem ser gratuito ou recorrer a demasiado sangue. Quis evitar sensacionalismos. Não foi muito difícil porque eu também tive um pai violento, emocionalmente e não fisicamente como acontece no livro. Sinto uma grande solidariedade por aquelas pessoas que conseguem quebrar o círculo de violência.

 

Este romance pode ser um alento para todos os que são ou foram vítimas de abusos?

 

Espero que sim. Durante muito tempo, este era um tema tabu em Portugal. No entanto, continua a haver muita resistência à ideia de que os abusos criam danos significativos. Não é verdade. São pessoas que precisam de ajuda e, como não encontram resposta, mergulham muitas vezes no álcool e na droga.

"A crise está a atacar estruturas civilizacionais"

21

Julho

2013

Publicado por Sergio_Almeida às 17:57
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Sérgio Almeida 

 

E se os portugueses, fartos de verem o seu futuro roubado, optassem em referendo pelo fim do país? É desta situação-limite que parte Despaís", o novo romance de Pedro Sena-Lino, situado em 2023. "Espelho negro" do país, e não "uma sátira à conjuntura portuguesa atual", o livro é uma "resposta" do autor a quem conduziu o país à presente situação.

 

Há uns anos este seu romance seria considerado pós-apocalíptico. Hoje, quando muito, é hiper-realista. Só esta transformação diz muito do estado a que chegámos enquanto país?

 

Mais do que pós-apocalíptico ou hiper-realista, tentei criar um romance seguindo os princípios da história virtual: alterando apenas alguns factores. Comecei a escrevê-lo há quase três anos, com uma enorme pausa pelo meio. Talvez isso explique a “transformação” de que fala. Para mim, foi um exercício quase matemático: como a manutenção de algumas variáveis e a alteração de outras podia gerar essa situação. Hoje fala-se no “segundo resgate”, no romance já vamos no quinto. Mas o que me importa mais é perguntar se de facto o conceito de país, assente no princípio de estado-nação, ainda faz sentido. E sobretudo, se serve aos cidadãos. Veja: a crise está a atacar as estruturas civilizacionais: cada um está preocupado consigo, e a União Europeia consigo própria. Mas quem estão a ser atacados são os Estados fracos e periféricos. Eles estão a servir-nos como representantes do bem comum, como “agregação” de cidadãos, como explicava Rousseau? Criámos o Estado e defendemo-lo durante gerações porque assegurava o bem comum e o progresso de cada um e de um todo. Será o caso hoje? Essa é a pergunta de biliões de euros.

 

Com a deterioração crescente das condições económicas sociais e políticas de Portugal, admite que o cenário de dissolução do país descrito no livro possa ter lugar muito antes de 2023?

Sou um escritor, não sou vidente (como parece que o são muitos comentadores políticos). Aliás, essa caricatura dos comentadores é uma das linhas de força da ironia que constrói o romance: nem terminam uma frase! Numa sociedade cultivada, os comentadores contribuem com o seu conhecimento e a sua análise para alargar a consciência da opinião pública; não para confundir e acirrar, para manipular segundo programas pessoais, como parece ser o caso em Portugal. É um espelho da falta de qualidade da nossa auto-reflexão. Todavia, o romance quer ser uma espécie de espelho negro: o que podemos fazer, o que podemos alterar, para que isto não seja possível? A uma crise que nos roubou o futuro e nos prendeu a um presente imediato de sobrevivência, estamos a responder a ela com as mesmas armas. A questão deve ser, parece-me: já não somos soberanos praticamente em nada; o estado-nação português, associação de todos os portugueses, está a ser destruído pelo financeirismo, “é um nome vazio que responde pela dívida”, como diz uma das personagens do livro. Não poderemos fazer voltar esta crise de identidade e soberania a nosso favor? Estive há anos num congresso no meio dos Estados Unidos, e muitas pessoas me diziam: «Ah, a União Europeia, um Parlamento, uma moeda comum; isto para nós é um milagre, como é que vocês venceram milénios de guerras e se uniram!». Não vemos isto. A Europa unida é uma potência poderosíssima, sobretudo porque o seu poder assenta num conjunto de valores civilizacionais e culturais. É isto que estão a tentar atacar, e é contra isto que creio, como criador europeu que sou, que deveremos criar uma solução. Que já não nasce dos políticos, mas que deve nascer, entre outros aspectos, da mais velha aliança da Europa: a do povo com a arte.

 

O projecto de “despaís” nasceu, antes de mais, da sua insatisfação enquanto cidadão pelo rumo que o país tem seguido?

Como criador (e como cristão) pergunto-me todos os dias sobre o que posso fazer pelo meu tempo. Os criadores mantêm o enorme espaço entre a realidade e a ideia, entre o quotidiano e a memória, entre a ficção e o real. É nesse tremendo espaço que se transcende o presente limitado, e se constrói o futuro. Quero deixar claro que o objectivo deste romance não é uma provocação. Mas que se insere numa linha bem mais clara do meu programa de trabalho enquanto romancista. O que pretendo fazer com o romance, com este e os que se lhe seguirem, é questionar o significado de objectos civilizacionais que consideramos inquestionáveis: em 333, o que é um livro e as redes que estabelece, e como essas redes e esse poder simbólico se mantêm para além do desaparecimento do próprio livro. Em despaís, com o próprio objecto que é um país assente no conceito de Estado-nação. Num próximo romance, o conceito de estadista, de cabeça e representante do Estado, como produto autofágico do próprio Estado.

 

Não teme ser acusado de catastrofista? Afinal, ao longo de quase um milhar de anos foram muitas as crises por que o país já passou, algumas das quais provocaram mesmo perdas de independência...

Portugal tem inscrito na sua história um movimento duplo, estaticidade e expansão: de resignação, de deixar andar, e outro de saída de crise. Portugal resolveu sempre isso concebendo a expansão como territorial, com uma dinâmica imperial. Não é o caso agora, essas estruturas acabaram, mas continuam fantasmaticamente activas. Trata-se de saber utilizar esta crise para recriar totalmente o país. Muito que se passa hoje é bem maior do que uma crise financeira da qual temos culpas muito limitadas: é uma crise de identidade nacional. Portugal não resolveu os seus complexos imperiais, tal como a Grécia, a Espanha e Itália: são estes países, no furacão da crise, que têm de repensar-se. Máquinas estatais pesadas, alimentadas por complexos de superioridade esmigalhados e que produzem fantasmas extremamente poderosos. Ainda mais fatalmente, no caso português, são os países de que foi potência colonial que agora compram o país. Todo o imperialismo é um boomerang – os Estados Unidos ainda não compreenderam isso, e não terão estrutura para viver essa situação quando lhes chegar.  Grande parte da situação actual revela que Portugal não superou o seu complexo imperialista: ou arrumam-se oito séculos de conquista, na Península Ibérica e depois pelo Oceano fora, em trinta anos de uma revolução pacífica e cordata, nem marxista nem social-cristã? Ou nesta social-democracia sul-europeia, um fantasma assassino e híbrido, que não funcionou nem em Espanha, nem em Itália, muito menos em Portugal. O Estado, diz Engels, é um produto de uma sociedade num certo estádio de desenvolvimento. Gerámos esta III República nos escombros do Estado Novo e da Descolonização, com teorias vagas e improvisadas de Democracia e Desenvolvimento. Não trabalhámos o fim do império. Passámos do complexo de superioridade colonial que o Estado Novo aumentou, para um complexo de inferioridade europeu que alimentou uma sociedade sempre ansiosa de ter ilusões de riqueza para compensar os seus complexos. Eduardo Lourenço estudou-o n’ O Labirinto da Saudade. Agora estamos a vivê-lo. O país foi-nos devolvido na sua dimensão de condado portucalense ingerível, dependente de um poder maior – a União Europeia – e da vigilância de outras entidades. Somos um protectorado. Outro aspecto. Veja os grandes momentos da história da Europa: há sempre obras de arte que impulsionaram esta mudança. Espero que este livro possa ser um grão de areia na engrenagem. 

 

O livro não possui um protagonista, pelo menos no sentido que habitualmente lhe conferimos, mas sim vários. Portugal acaba por ser, nesse sentido, o verdadeiro protagonista deste romance?

Portugal, sim, mas enquanto estado-nação. Repare que no romance, quando é proposto o referendo, este não assenta sobre o fim da “República Portuguesa”, ou sobre o sistema Parlamentar, mas assim mesmo num sentido genérico: o fim de Portugal. Quis com isto ironizar com a distância que os Portugueses têm hoje do sistema político. De tal forma vivemos uma crise de representação, de tal forma disruptiva, que as fronteiras entre o país e o modelo de Estado que temos estão esbatidas. A personagem principal, por isso, é Portugal como Estado-nação, asfixiado por uma crise e também pelo seu excessivo sistema de mitos.  

 

Há acusações bastante certeiras e severas à classe política. A provocação com que o livro vem rotulado advém também daí?

Impreparação, servilismo, incapacidade de servir a causa pública: foram estes os traços de identidade dos políticos que desenhei no romance. Qualquer semelhança com a realidade é uma wake-up call.  Mas também pergunto: o que acontece a um cidadão que rouba outro? Que rouba um banco? É julgado e preso. O que acontece a um servidor do Estado que rouba o Estado, ou seja, o conjunto de todos os cidadãos? Vai para uma empresa pública repetir o feito. Qual é o crime pior? E a punição? Como veículos do poder do Estado, a pena deveria ser bem superior.

 

O exercício de encontrar equivalentes na política portuguesa actual dos personagens do livro faz sentido? Dito de outro modo: qualquer semelhança não é mera coincidência?

Um romance é uma obra de arte, como a Torre de Belém, uma canção de David Bowie, ou a Gioconda. Encontrar num quadro de Da Vinci ou nos Concertos Brandenburgueses de Bach os senhores Sidónio Pais ou Helmut Köhl fará sentido?

 

 

 

Das várias medidas de austeridade que têm vindo a ser adoptadas, quais as que, como cidadão, lhe pareceram mais chocantes?

Não posso responder a essa questão. Deve perguntar aos economistas, responsáveis pela verdadeira ciência oculta assente em previsões e modelos que falhou redondamente nas últimas dezenas de anos. Já reparou que neste momento vivemos num sistema económico financeirista onde não sabemos quais são os limites da ficção e da realidade? Onde acaba a economia real e onde começa a economia virtual? Pergunto-me também o que é a economia real: é a bolsa de valores, são os mercados informáticos, irreais, da dívida, ou o resultado do trabalho de um cidadão integrado num grupo? O que devemos fazer é retraçar o caminho que nos levou até aqui. Fomos escravizados com um modelo de crescimento falso, que levou a um consumismo que agora nos mata. As pessoas pensavam gerar a sua segurança, e agora é uma prisão, como acontece com o mercado imobiliário. Isso levou a um predomínio do ter pelo ser, do aparecer pelo ser, que se liga de uma forma particularmente agressiva em Portugal pelo complexo imperial que está longe de ser resolvido. Porém, uma nota apenas: o ataque aos pensionistas é inqualificável. Repare: o Estado guardou uma parte do trabalho mensal dos trabalhadores durante anos, como guardião do bem comum. E agora retira esse valor para pagar os seus excessos. Diga-me se isto faz sentido. Quando, ainda para mais, são as reformas dos pensionistas que estão a segurar a economia: quantos pais pagam as rendas dos filhos, quantos avós as escolas dos netos? Quantas famílias almoçam e jantam à mesa dos avós?


Vive na Alemanha, país que, aos olhos da opinião pública, surge como um dos responsáveis pela aplicação da austeridade aos países do Sul. Impera a ideia entre os alemães de que estes povos são pouco trabalhadores e que a situação actual é consequência de excessos vários cometidos ao longo de muitos anos?

A Alemanha é uma realidade sócio-política complexa. O muro ainda impera de formas permanentes, duráveis e inimagináveis. Quero dizer com isto que não podemos fazer generalizações de um país sobre outro, porque não há uma voz única, e no caso alemão, isto é ainda mais uma dinâmica irresolvida. Temos a ideia de que a reunificação foi automática, quando é um processo lento; como temos a ideia de que Portugal viver apenas com o seu território europeu é uma coisa simples, quando viveu alastrado pelo oceano fora quase o triplo do tempo do que viveu apenas no seu território europeu. É certo que a Alemanha foi a responsável pela 2ª guerra mundial, com excessos inqualificáveis. Mas também é certo que fizemos pagar à Alemanha uma conta de dezenas de anos. O alemão comum é rigoroso no seu trabalho, nas suas contas, no respeito pelo próximo: numa economia de moeda comum, é demasiado pedir isso aos outros vizinhos? É igualmente importante separar povo e Estado. Nunca me senti, mas nunca, discriminado por ser Europeu do Sul. Em Berlim, todas as diferenças são operativas, constrói-se a partir delas.  Acho, porém, bem mais relevante pensarmos que há outro tipo de diferenças culturais; que são factores que contribuem para esta crise, como a herança do catolicismo e do protestantismo, como concepções diferentes do que é o Estado. Uma União enfrenta estas diferenças.

 

Tudo o que temos vindo a assistir nos chamados países sob assistência financeira vem provar que não só a solidariedade entre os países da UE é uma miragem, como o próprio conceito de construção europeia não passa de uma utopia?

Pelo contrário: este é o momento para uma construção europeia alargada. Se a Comissão organizasse um grande referendo europeu a perguntar pelo reforço de poder das instituições europeias eleitas democraticamente, não duvide de uma esmagadora resposta positiva. Em Berlim, convivo com muitos expatriados: sou mais próximo de um alemão da antiga RDA do que de um americano; de um polaco do que de um brasileiro, de um finlandês do que de um mexicano.  A maioria dos cidadãos europeus de 35-40 anos para baixo considera-se, sem problemas, mais “europeia” do que “alemã”, “francesa” ou “portuguesa”. Por outro lado, assistiremos a um cenário assustador nas próximas eleições europeias, em que os partidos contra a UE correm o risco de terem uma representação enorme no Parlamento Europeu. Mas, claramente, isto não é uma votação contra a UE, mas contra o que os nossos políticos entendem da UE, e dela fizeram. A haver uma revolução europeia, é pela integração, não pela desagregação.

 

Politicamente sempre foi muito activo ou os acontecimentos dos últimos anos fizeram despertar essa atenção?

Não sou politicamente activo. Intervenho como artista, com a consciência de que tenho de servir o meu tempo e os meus semelhantes com o meu trabalho. 

 

Aos que dizem que não há alternativa à austeridade o que responde?

Uma história: o médico disse ao meu sobrinho de 13 anos que tinha de perder peso para poder crescer. Mas também não lhe disse para arrancar o estômago. Estamos a ser demasiado maniqueístas nesta crise: ou austeridade ou investimento. Não é essa a questão, mas sim: planificação. Estamos num mercado comum. O que é que Portugal pode fazer bem e que a Europa não tem? Veja como o Marquês de Pombal percebeu isso no século XVIII.

 

Em termos formais, “Despaís” é um romance substancialmente diferente do anterior, “333”. Era a especificidade deste livro em concreto que exigia o tom que acabou por adoptar (menos experimental e mais directo) ou é consequência de uma mudança natural enquanto autor?

Tenho, como já referi, um objectivo programático como romancista. Porém, quando crio cada livro, espero que seja o livro a determinar o tom que pretende. O livro deve ensinar-me como posso eu servi-lo melhor. Os livros não nos pertencem nunca: sou mais um maestro do que um compositor, a seguir a pauta de uma ideia complexa que surgiu da minha experiência e do tempo em que vivo. Lembro-me sempre do célebre maestro Leopold Stokowski (o único maestro que falou com o Mickey Mouse, em Fantasia de Walt Disney), que dizia que não dirigia a orquestra, mas a seguia. Posso porém confidenciar que este livro correspondeu a uma série de equilíbrios difíceis que tentei articular. A ironia é um meio, não é um fim em si. Isso aprendi com os experimentalistas portugueses, como Ana Hatherly e Alberto Pimenta.

 

Vários escritores, como Miguel Real têm defendido que os intelectuais estão alheios dos problemas sociais, “dormitando narcisisticamente na sua concha”. O seu livro é um contributo no sentido de provar que há quem esteja alerta?

Miguel Real tem produzido uma obra não apenas ensaística que é de uma importância fulcral para a consciencialização de algumas ideias que andam arredadas da produção artística nacional. Essa sua chamada de atenção, como outras, parece-me de uma pertinência fulgurante. Porém, como notou Pierre Bourdieu, a “ilha sagrada da arte” está em muitos aspectos refém da sociedade capitalista, de uma Economia que deixou de ser “uma coisa em si” para tornar-se “uma coisa por si”. A crise actual pede também uma reformulação do que é o conceito de artista, como o próprio Bourdieu estudou relativamente à mudança que nesse campo se operou do século XIX para o Modernismo. O que quero dizer é que, se termos como “arte realista” deixaram de fazer sentido, a missão social do escritor também. Estes últimos 40-50 anos foram de pura apropriação da arte pelo mercado, que se estendeu ao papel dos escritores. Chegou o momento em que os produtores artísticos produzam não só obras, mas uma nova identidade para o artista. Ainda não sei o quê nem como, mas é para mim certo que neste momento de descivilização, em que perdemos a cada dia séculos de conquistas pelo bem comum, o artista deve desmontar os próprios princípios da civilização. Mas tudo está ainda por inventar, e é essa a grande força da Europa: reinventar-se do nada depois de cada devastação.


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