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Resultados por tag: Ficção Internacional

Máquina de guerra

03

Maio

2011

Publicado por Sergio_Almeida às 15:39

Sérgio Almeida

 

Já todos nos confrontámos, tanto na literatura como no cinema, com a representação de combatentes de guerra. São, geralmente, seres tocados pelo heroísmo que devotam a vida a uma causa, indiferentes ao sacrifício de vária ordem a que são sujeitos.

 

A semelhança entre estes semideuses e o herói de Homem em armas fica-se mesmo pela condição de combatentes. O que o escritor salvadorenho Horacio Castellanos Moya nos descreve neste breve romance é a saga de um homem frio e implacável que vai eliminando vidas (sejam idosos, crianças ou mães) sem que um só resquício de consciência o sobressalte.

 

Ele é Juan Alberto Garcia, um soldado tão duro, dotado de um porte físico impressionante, que é apelidado de Robocop pelos seus companheiros. Após anos a fio a combater no Batalhão Acahuapa das Forças Armadas de El Salvador, vê-se privado do seu ofício assassino, a única verdadeira vocação que possui, quando a guerra chega ao fim.

 

A desmobilização do contingente militar a que pertencia atira-o para o desemprego e, mais preocupante ainda, sem saber o que fazer à vida. Mas ao receber os despojos de guerra (duas espingardas, uma dúzia de carregadores, oito granadas defensivas, uma pistola defensiva e o equivalente a três meses de salário), Robocop não tarda a aperceber-se, porém, que a violência intrínseca da realidade social e política da América Central poderá vir a ser-lhe muito útil. E é isso que acontece quando Garcia começa a ser requisitado para perpetrar um conjunto de actividades ilícitas que envolvem tanto o narcotráfico ao roubo de automóveis.

 

Sem sequer questionar a natureza ética dos pedidos, o mercenário executa os pedidos que lhe vão chegando. Com uma capacidade de resistência assombrosa, escapa a sucessivas traições ou contragolpes e, embora esteja envolvido numa complexa rede do crime organizado, em que tanto os terroristas como os supostos agentes da lei têm as mãos sujas de sangue, nunca pára um segundo sequer para reflectir, pois tal não é o seu verdadeiro ofício.

 

TÍTULO: Homem em armas

AUTOR: Horacio Castellanos Moya

EDITOR: Teorema

PREÇO: 10.91 euros

Divórcio em Buda

04

Abril

2011

Publicado por Sergio_Almeida às 19:14

Depois de As velas ardem até ao fim e A mulher certa, a D. Quixote prossegue a reedição da obra de Sandór Marai, escritor húngaro cujos romances figuram entre os mais significativos da primeira metade do século passado.

Na génese da narrativa encontra-se o reencontro de dois homens, antigos colegas de escola, que vão disputar o amor da mesma mulher.

Kristóf Kömives é um juiz na cidade de Budapeste que tem entre mãos um divórcio iminente. O que parecia ser um caso como tantos outros transforma-se numa evocação das memórias da juventude quando   se depara com o nome da mulher envolvida, a quem devotou um amor não correspondido muitos anos antes.

A recordação e a nostalgia do magistrado são bruscamente interrompidas com o anúncio do suicídio da mulher, o que levanta novos problemas a Kristóf, incumbido de ouvir o relato confuso e sentido do esposo desconsolado.

 

TÍTULO: Divórcio em Buda

AUTOR: Sandór Marai

EDITOR: D. Quixote

PREÇO: 14 euros

O fantástico como norma

01

Abril

2011

Publicado por Sergio_Almeida às 20:27

 Sérgio Almeida

 

Fazer de cada conto um microcosmos que sobrevive de forma autónoma é um mérito que não pode ser assacado ao primeiro livro do belga Bernard Quiriny publicado em Portugal, intitulado “Contos carnívoros”.

Mesmo os leitores avessos ou pouco familiarizados com o fantástico e o absurdo encontrarão neste conjunto de 14 histórias matéria de elevado interesse, dado o tom inventivo que Quiriny não abdica de empregar em cada história.

Os exemplos dessa bem sucedida estratégia narrativa são abundantes, remetendo-nos para autores da estirpe de Julio Cortázar, Edgar Allan Poe, Thomas de Quincey ou mesmo Jorge Luis Borges.

Possuidor de uma imaginação delirante, Quiriny esforça-se por provar que, sob o manto tranquilo do real, tudo se pode esconder: pecados inconfessáveis ou histórias repletas de ignomínia, mas sempre imprevisíveis e, ainda que de uma forma tortuosa, sedutoras.

Num dos contos, um assassino a soldo partilha com o leitor algum dos trabalhos que teve que levar a cabo, como o de um abastado homem que encomenda a sua própria morte, deliciado com a perspectiva do jogo do gato e do rato, ou o assassinato de uma figura demoníaca, aprisionada no corpo de uma criança.

O surrealismo surge em força em mais do que um conto, como o que nos revela uma mulher-laranja que, durante o acto amoroso, se deixa beber. Ou ainda a história dos Yapus, uma tribo perdida na Amazónia que criou uma linguagem incompreensível até para os próprios falantes, com o objectivo de favorecer tanto os mal-entendidos como a diversão.

A criação mais conseguida do autor – cujo mais recente livro, ainda inédito em Portugal, imagina como seria a vida num país se porventura estivesse sob o jugo de uma ditadura... feminista – é, no entanto, Pierre Gould. Visionário, sábio ou charlatão, o singular homem aparece de forma recorrente nas histórias, confrontando o leitor com as suas máximas invulgares que revelam uma visão do Mundo assente na perplexidade.

 

TÍTULO: Contos Carnívoros

AUTOR: Bernard Quiriny

EDITOR: Ahab Edições

PREÇO: 18.95 euros

 

A armadilha da realidade

07

Fevereiro

2011

Publicado por Sergio_Almeida às 17:04

 Sérgio Almeida

 

As trilogias são um terreno movediço. Por muito tentadora que seja, para um escritor, a ideia de criar um conceito unificador que envolva as diferentes narrativas, dificilmente o resultado final prima pelo equilíbrio ou coesão. É o que ocorre com Ricardo Menéndez Salmón, muito provavelmente o mais talentoso escritor espanhol da nova geração, que se propôs dissecar a origem e o impacto do Mal nas sociedades contemporâneas ao longo de três volumes.

 

Depois de A Ofensa - ambientado na Segunda Guerra Mundial - e A Derrocada - protagonizado por um assassino em série que interrompe a pacatez de uma minúscula cidade costeira -, Salmón encerra a trilogia com uma incursão pelos atentados em Madrid de 11 de Março de 2004, nos quais perderam a vida quase duas centenas de pessoas.

 

Apesar da escrita poética e depurada ou da agilidade narrativa - virtudes já habituais nas obras do autor de La Luz es Más Antigua que el Amor, título que a Porto Editora vai publicar no próximo ano -, este é o livro menos conseguido da trilogia, para o que contribuem as excessivamente abundantes considerações de ordem moral tecidas pelo autor, que resvalam com frequência para o campo da demagogia.

 

"Ninguém, desde que existem ágoras, mentiu tanto como os políticos. Quando, entre os gregos, um político mentia, impunha-se-lhe uma condenação vergonhosa: o ostracismo. Hoje, no pior dos casos, dá-se-lhe um mandato, oferece-se-lhe uma autarquia ou adjudica-se-lhe um ministério. É o código não escrito da nossa meritocracia: mente e serás recompensado", escreve, a dada altura, numa passagem do romance que, embora mereça à partida a concordância colectiva, faria por certo mais sentido num manifesto partidário.

 

Ninguém questiona sequer a brutalidade dos actos cometidos pelos terroristas islâmicos e a manipulação torpe que foi exercida pelos governantes espanhóis da época. Todavia, construir um romance inteiro (ainda que breve) apenas em torno dessa condenação exaustiva e fortemente emocional, sem conseguir concretizar uma análise que vá além do plano imediato, constitui uma empreitada demasiado redutora para alguém com os recursos do autor asturiano, que se torna, deste modo, a mais recente vítima de um síndrome literário recorrente: confrontados com dramas que se desenrolam sob os seus olhos, muitos escritores mostram-se incapazes de escapar ao óbvio e ao lugar comum, como se a realidade tivesse superado a mais delirante das ficções.

 

TÍTULO: O Revisor

AUTOR: Ricardo Menéndez Salmón

EDITOR: Porto Editora

PREÇO: 14.50 euros

Os últimos dias de Sigmund Freud

07

Fevereiro

2011

Publicado por Sergio_Almeida às 13:32

 Rui Branco 

 

O austríaco Sigmund Freud foi um personagem fascinante da história da Medicina. Fundador da psicanálise, procurou ir o mais longe possível na compreensão da mecânica da mente humana, através de métodos polémicos, como, por exemplo, a hipnose, mas que foram passos gigantescos no tratamento de determinadas patologias.


E foi esta figura que a ex-psicanalista Salley Vickers decidiu convocar para o seu mais recente romance, Onde três Estradas se Encontram. Nesta história, Freud já se encontra exilado em Londres, depois de ter sido obrigado a abandonar o seu país, a Áustria, fugindo à fúria nazi: como judeu não lhe restava alternativa.

 

Mas os derradeiros anos que o mais famoso psicanalista passou em Inglaterra foram tudo menos pacíficos. Isto porque em 1923, ainda se encontrava por paragens austríacas, apareceu-lhe uma excrescência na boca que, a princípio, o seu médico considerou tratar-se apenas do resultado de ser um fumador de charutos quase compulsivo. No entanto, viria a descobrir-se tratar-se de um cancro, que o obrigaria a ser submetido a cerca de 30 intervenções cirúrgicas ao longo dos 16 anos que se seguiram.

 

A narrativa de Vickers descreve Freud nos últimos anos de vida, quando passava o tempo entre o hospital e o descanso da sua casa, onde recebia todo o apoio da filha, Anna. Num clima de delírio, talvez provocado pela morfina que lhe eliminava as dores, o médico austríaco recebe a visita de uma personagem da mitologia grega, Tirésias, o profeta cego de Tebas. Este conta-lhe a sua versão da história de Édipo, que serviu de inspiração a Freud para a formulação do famoso complexo.

 

A forma como Tirésias vai contando os episódios tem contornos de fantástico, aqui e ali interrompidos por comentários do médico, que tinha grande dificuldade em falar por causa de uma prótese que se viu obrigado a colocar e, inclusivamente, utilizava uma mola para lhe permitir manter a boca aberta para saborear os seus charutos. Não deixa de ser curioso este retrato de Freud nos últimos dias entre os vivos. Fica-nos uma imagem diferente da que habitualmente alimentamos sempre que ouvimos o seu nome.

 

TÍTULO: Onde Três Estradas se Encontram

AUTOR: Salley Vickers

EDITOR: Teorema

PREÇO: 15.90 €

Viagem ao íntimo da alma condenada à expiação

11

Janeiro

2011

Publicado por elmanomadail às 8:30

Elmano Madail

 

Poderia ser uma alegoria ao existencialismo de Jean Paul-Sartre, ou melhor, uma ampliação da famosa sentença daquele filósofo francês: "O inferno são os outros". Não o sendo, na medida em que os outros que viajam no comboio e atravessam a paisagem árida da pampa salitreira, num itinerário surreal pelo deserto de Atacama, Chile, têm poucos recursos e paciência para se dedicarem a grandes cogitações sobre terceiros, este livro não deixa de se constituir como um exercício de reflexão sobre as coisas essenciais da vida: o amor, claro, mas também as escolhas que se fazem em nome da sobrevivência e a finalidade da existência.

 

A voz principal, passageiro num comboio cheio de personagens de óptima carpintaria obrigados a conviver durante os quatro dias e noites que dura a viagem, pertence Lorenzo Anabalón, acordeonista perseguido pela memória da mulher amada, Uberlinda Linares, que julga vislumbrar, nos olhos de uma quiromante, os daquela que o deixou assim, enfeitiçado. Os demais ocupantes, para lá dessa bendita encarnação, são gente que carrega, cada qual, uma condenação: um cego que canta boleros de Julio Jaramillo, uma mulher enlutada que vai resgatar o cadáver do filho, uma menina de 12 anos cujo destino há-de mudar antes do termo do excurso, um prestidigitador em busca do circo que lhe trará a glória, e um grupo de ciganos que comporta a catástrofe. Mas nenhuma tão grande como aquela que os uniu num mesmo destino – estão mortos.

 

Se o final traz certa reverberações do mexicano Juan Rulfo, esta novela, com apontamentos poéticos disseminados na exacta medida, evoca também o realismo mágico de Garcia Marquéz e, formalmente, Vargas Llosa. Uma convocatória de peso que torna Os Comboios Vão Para o Purgatório, vencedor o Prémio Alfaguara 2010, merecedor de deferência e do melhor acolhimento.

 

TÍTULO: Os Comboios Vão Para o Purgatório

AUTOR: Hernan Rivera Letelier

EDITORA: Ulisseia

PREÇO: 16,00 €

Fábula gótica sobre a vã imortalidade e o primeiro amor

04

Janeiro

2011

Publicado por elmanomadail às 9:05

Elmano Madail

 

Desprezado pela crítica e amado pela multidão, Carlos Ruiz Zafón afirma que Marina, o seu romance seminal, é também o seu dilecto. Nele, o catalão anuncia já o que viria a constituir o seu êxito planetário, A Sombra do Vento (Dom Quixote, 2004): uma viagem à decrepitude da Barcelona aristocrata, um amor tão casto como intenso ameaçado pelo funesto e a mesma técnica narrativa, servida por uma escrita poética sem exageros retóricos. Embora centrado na personagem do jovem interno Óscar Drai e na desmesura da sua paixão pela frágil, mas intensa e impositiva, Marina, que vive com o pai, outrora pintor celebérrimo, num palacete arruinado, o livro comporta uma segunda trama, porventura mais complexa, que debate a loucura implícita na busca pela imortalidade.

 

O par de jovens apaixonados confronta-se com ela quando se aventura a investigar uma estranha figura que presumem morar num antigo teatro, o Gran Teatro Real. Nessa demanda descobrem Mikhail Kolvenick, um génio tecnológico consumido pela ideia de substituir a caducidade orgânica do corpo pela perenidade protésica - que vai concebendo em experiências macabras sobre cadáveres -, com o nobre fito de recuperar a beleza perdida da sua mulher. Mas nada pode contrariar o seu destino, e ela própria almeja a morte do marido enlouquecido.

 

Pejado de personagens memoráveis, este romance não tem a solidez nem a destreza narrativa que viria a afirmar-se depois, mas tem Marina. E isso basta para fazer dele uma óptima leitura, que alguma lágrima há-de temperar. Recomenda-se.


TÍTULO: Marina

AUTOR: Carlos Ruiz Zafón

EDITORA: Planeta

PREÇO: 18,85 €

O Despertar das Trevas

02

Janeiro

2011

Publicado por elmanomadail às 19:04

Sinopse (da editora): Cassandra Palmer consegue ver o futuro e comunicar com espíritos – dons que a tornam atraente para os mortos e mortos-vivos. Os fantasmas dos mortos não costumam ser perigosos; apenas gostam de conversar... e muito. Os mortos-vivos já são outra conversa. Tal como qualquer rapariga sensata, Cassie tenta evitar os vampiros. Mas, quando o mafioso sugador de sangue a quem fugira há três anos a reencontra com intuitos de vingança, Cassie é obrigada a recorrer ao Senado dos vampiros em busca de protecção. Os senadores dos mortos-vivos não irão ajudá-la sem contrapartidas. Cassie terá de colaborar com um dos seus membros mais poderosos, um vampiro mestre perigosamente sedutor. E o preço que ele exige poderá ser superior ao que Cassie está disposta a pagar...
 
Sobre a autora: Karen Chance viveu em França, no Reino Unido e em Hong Kong, mas regressa sempre à América. Vive actualmente em Orlando, na Florida, a terra do faz-de-conta, o que pode explicar muita coisa.Pode saber mais aqui.


TÍTULO: O Despertar das Trevas

AUTORA: Karen Chance

EDITORA: 1001 Mundos

PREÇO: 17.90 €

Sombras do Passado

02

Janeiro

2011

Publicado por elmanomadail às 18:06

Sinopse (da editora): Um momento decisivo – aos 19 anos – definiu o rumo de vida de Frank Mackey: quando a namorada, Rosie Daly, não compareceu a um encontro em Faithful Place e, dessa forma, não fugiu com ele para Londres como tinham planeado. Frank não voltou a ter notícias dela. Vinte anos mais tarde, Frank vive ainda em Dublin e trabalha como polícia infiltrado. Cortou todos os laços com a sua família disfuncional. Até ao dia em que a irmã lhe telefona a dizer que encontraram a mala de Rosie. Frank embarca numa viagem ao passado que o leva a reavaliar tudo aquilo que ele crê ser verdade. Obra considerada  o melhor livro de 2010 pelo painel de editores do top 100 da Amazon e o melhor da autora pelo New York Times; com Desaparecidos, publicado em 2008, ganhou o Edgar Award na categoria First Novel.

 

AUTORA: Tana French cresceu entre a Irlanda, a Itália, os EUA e o Malawi e vive em Dublin desde 1990. Estudou para ser actriz profissional no Trinity College de Dublin e trabalhou em teatro, cinema e locução. Desaparecidos (Civilização, 2008) foi o seu primeiro romance.

 

TÍTULO: Sombras do Passado

AUTORA: Tana French

EDITORA: Civlização

PREÇO: 20,90 €

Imaginar o mundo a partir de um barco

31

Dezembro

2010

Publicado por Sergio_Almeida às 16:38

Rui Branco

 

A instabilidade política e social do começo do século XX levou a que determinadas ideologias radicais ganhassem força e acabassem por se impor em muitos países. Foi assim que comunismo e fascismo  surgiram como contraponto  à democracia: havia que dar alguma esperança aos povos, nem que fosse alicerçada em consideráveis doses de demagogia.

 

Neste clássico da literatura japonesa, editado em 1929 e recuperado no século XXI para se tornar num best-seller, o seu autor, Takiji Kobayashi, dá-nos uma imagem do que eventualmente seria o mundo  de então, através da história do Hakku Maru, um navio pesqueiro que parte para o mar gelado de Kamchatka.

 

Kobayashi estava ligado ao Partido Comunista, daí que não se estranhe a forma impressiva como descreve a  população do barco, gente sem futuro, onde se encontravam seres destroçados pelo álcool e pelas mulheres, estudantes arruinados sem hipóteses de continuarem a sua formação e camponeses miseráveis.

 

Por cima de todo este cenário deprimente estavam o mestre dos operários, o capitão e o patrão da embarcação, este último descrito como o maior tirano que se possa imaginar, espécie de ariete dos capitalistas, que faz do capitão Bligh de Revolta na Bounty um verdadeiro menino do coro. Asakawa representa todos os patrões. Tortura os trabalhadores física e psicologicamente, é capaz até de chegar ao extremo de os assassinar. A produção está acima de tudo e de todos.

 

Os homens em fúria com o avolumar das situações desumanas revoltam-se, fazem greve e tomam conta do barco. Mas tudo acaba por abortar pela pronta intervenção da Marinha imperial. A segunda greve, no entanto, é um êxito. E no rastilho de tudo esteve a propaganda vermelha, que já tinha penetrado noutras embarcações.

 

Kobayashi consegue prender-nos à  história graças ao realismo das suas descrições do ambiente no Hakku Maru, na verdade bastante depressivo. As situações de luta dos trabalhadores,  os seus raciocínios colectivos, não deixam de ser um tanto ou quanto naïves, mas até isso lhe empresta um certo encanto.

 

TÍTULO: Kanikosen - O navio dos homens

AUTOR: Takiji Kobayashi

EDITOR: Clube do Autor

PREÇO: 14.95 euros

Policial irreverente que resgata a adolescência entre gargalhadas

07

Dezembro

2010

Publicado por elmanomadail às 9:14

Elmano Madail

 

"A inquietante, sumptuosa, hilariante, espectacular, erótica, violenta, sombria, escatológica, romântica, passional, inigualável, fabulosa, épica e deslumbrante aventura do primeiro serial-killer cego da história da humanidade", reza a capa de O Capitão das Sardinhas, romance paródia do catalão Manuel Manzano.

 

A capa é, aliás, o espelho (exagerado, pois…) do conteúdo mas também da forma, pois que a incontinência adjectivante prolonga-se pelo texto, o qual teria merecido revisão impiedosa que lhe amputasse os excessos para potenciar, enfim, o efeito hilariante - apesar de tudo, conseguido a miúde; e a imagem kitsch anuncia o culto do piroso hiperbólico que o autor pretende, esboçando dois ou três personagens interessantes. O mais conseguido é Gabriel Saviela, diabético recalcado e cego como uma toupeira que inicia a carreira de serial-killer pela própria mãe, esquartejando-a, e por Tamagochi, o chiuaua da família que morre de enfarte quando Gabriel lhe serve os bocados maternos.

 

O promissor início do livro prossegue numa catadupa de equívocos – principalmente do par amoroso, a incandescente e pragmática Emma Vasconzuela e o fracassado Manuel Bun – que há-de desembocar na aparente resolução dos crimes de Gabriel pelo infame detective Boris Beria Fuensanta, rematado sacana que tem por auxiliar Nicodemo, criatura com corcunda, mamas e parcos pêlos que se deixa escravizar a troco da frequência de um prostíbulo manhoso. Uma solução a contento de todos, enfim, excepto dos que foram morrendo entretanto.

 

Um divertimento irreverente para matar saudades da adolescência e soltar uma gargalhada perversa.

 

TÍTULO: O Capitão das Sardinhas

AUTOR: Manuel Manzano

EDITORA: Ulisseia

PREÇO: 18,00 €

Homenagem sentida a todos os progenitores

30

Novembro

2010

Publicado por Sergio_Almeida às 18:26

Rui Branco

 

A figura do pai representa aquilo que é insubstituível na vida de uma criança. Nessa altura da nossa existência olhamos para o progenitor como o maior herói que conhecemos, tal e qual como aqueles que nos conquistam os sentidos nas séries de televisão, a quem só lhes falta voar como o Super-Homem. E é, no fundo, a todos os pais que Richard Russo rende uma sentida homenagem nesta obra, escrita numa altura em que o seu pai se encontrava gravemente doente.

 

Oprotagonista é Ned, um pré-adolescente que vamos acompanhar até à idade de também ele se tornar pai. O jovem viveu os primeiros anos de  vida com a mãe, por que o seu progenitor, o impagável Sam Hall, regressou da Segunda Guerra Mundial completamente transformado, preocupado apenas com uma coisa: gozar ao máximo cada hora que passava. Com muitos copos e jogo à mistura. Uma forma de vida que resolveu adoptar depois de ter sobrevivido ao desembarque na Normandia, como lembrava.

 

A ausência de Sam em casa levava o pequeno Ned a dizer na escola aos amigos que o seu pai tinha falecido na guerra… Mas eis que a mãe é acometida de uma depressão e tem de ser internada numa casa de repouso. O jovem vai viver com o pai, em condições completamente diferentes, mas que o ensinam a sobreviver. Ned acaba por se afeiçoar ao carácter selvagem do pai e dos seus amigos. Começa mesmo a admirá-lo. E dois anos mais tarde, quando regressa ao lar materno, é com alguma mágoa que o faz.

 

O que, apesar de ter modos rudes e por vezes mostrar-se demasiadamente frio na abordagem das situações, Sam é no fundo um homem de bom coração: Ned acabará por compreender o seu carácter. Enquanto a mãe se casa com um advogado bem colocado, ao pai  resta o amor do filho.

Russo escreve Na sombra do pai com uma linguagem muito cinematográfica, tornando fácil ao leitor visualizar rapidamente cada cena que descreve. Não admira, pois, que o livro esteja a ser adaptado ao cinema, por Lawrence Kasdan, com Tom Hanks no principal papel, com estreia prevista para 2012.

 

TÍTULO: Na Sombra do Pai

AUTOR: Richard Russo

EDITOR: Porto Editora

PREÇO: 19.50 €

Dois Inocentes à Deriva na Podridão da Finança

29

Novembro

2010

Publicado por elmanomadail às 8:55

Elmano Madail

 

O mestre dos romances de espionagem, John Le Carré, regressa literalmente ao local do crime com Um Traidor dos Nossos, a Rússia, onde o autor situou alguns dos seus melhores momentos literários, fundados nos jogos de bastidores que foram distraindo a diplomacia soviética e ocidental durante a Guerra Fria. O império caiu, o país mudou, mas não Le Carré.

 

Este, com a capacidade de construir personagens e situações que lhe é reconhecida, e capitalizando o vasto conhecimento das relações difíceis entre Russos e Ocidentais – por mais cimeiras NATO-Rússia que façam… , constrói a trama em torno de Dimitri "Dima" Krasnov, um oligarca russo enorme, fugido da morte na Rússia e à espera de protecção britânica, que se passeia, acompanhado da família, pelos paraísos estivais de Antígua sob escolta.

 

Dima tropeça num casal britânico de férias, o dubitativo professor universitário Perry e a assertiva jurista Gail, que têm a desdita de se deixar seduzir pelo discurso do russo, entre o gangster e o sentimentalóide, com ligações à máfia e especialista no branqueamento de capitais.

 

A partir dali, o casal inocente e que apenas buscava paz suficiente para tomar resoluções ponderadas, é enredado numa teia, tão cruel como sofisticada, que envolve os serviços secretos ingleses em recomposição, o tenebroso mundo tentacular da alta finança, os escabrosos códigos da máfia russa e a cupidez de políticos com a corrupção inscrita no ADN.

 

Ao contrário da fleuma do velho George Smiley, agente impoluto de outros romances, neste livro não há gentilezas; todo ele é trepidação, conspirações e medo. Sem inocentes nem redenção. Um romance desencantado e brilhante.

 

TÍTULO: Um Traidor dos Nossos

AUTOR: John Le Carré

EDITORA: Dom Quixote

PREÇO:  17,95 €

Um livro que é uma ganza viciante mas isenta de ressaca

22

Novembro

2010

Publicado por elmanomadail às 20:25

Elmano Madail

 

Thomas Pynchon é um autor de culto que, na impossibilidade de o categorizar, muitos chamam de pós-moderno – termo que nunca compromete e fica sempre bem – e cuja carreira, longa de meio século, foi objecto do comentário laudatório do crítico Harold Bloom. Bastou para inscrevê-lo no restrito clube dos eternos candidatos ao Prémio Nobel, da Literatura facto que parece, no entanto, ter excitado mais editoras e leitores do que o próprio Pynchon.

 

Aquele é tão adverso à exposição pública que há quem duvide da sua existência material. O que torna Pynchon ele mesmo num plausível personagem dos seus romances caóticos e surreais, cuja leitura conduz rapidamente a um estado de espírito semelhante aos efeitos de um charro libanês, mas sem a correlativa ressaca.

 

O sétimo romance do autor constituído em ícone pop contracultura vinca essa marca identitária, agora já não imerso no psicadelismo libertino dos anos 1960, mas antes no seu limiar. Vício intrínseco parte de uma trama própria dos cânones do policial negro, que tem por protagonista Larry "Doc" Sportello, um detective privado que encara o charro permanente e o LSD ocasional como vias para o conhecimento.

 

O hedonista Sportello recebe a visita da ex-namorada, Sasha, no gabinete em Gordita Bay, em Los Angeles. E aquela, convertida entretanto na amante de Mickey Wolfmann, tubarão do imobiliário, suspeita que a mulher dele pretende encarcerar o marido num hospital psiquiátrico para "gerir" a bel prazer a fortuna do casal.

 

Ainda antes da primeira sinapse de Doc, Mickey é raptado e um dos seus guarda-costas morto, o que leva Doc a entrar no labirinto dos negócios de Mickey, num excurso canabinóide misto de erudição e humor, loucura e sensibilidade, que desemboca numa vasta conspiração envolvendo surfistas, traficantes, contrabandistas, polícias corruptos e uma entidade, tão difusa como temida, conhecida por Presa Dourada.

 

Pelo meio, há todo o género de referências cinematográficas e musicais dos anos 60, além de personagens mais ou menos resgatados a um vasto hospício. Em suma, este livro é uma ganza. Muito recomendável às meninges. E sem danos colaterais.

 

TÍTULO: Vício Intrínseco

AUTOR: Thomas Pynchon

EDITORA: Bertrand

PREÇO: 17,90 €

Libelo contra a guerra em tempo de depressão

19

Novembro

2010

Publicado por Sergio_Almeida às 17:01

Rui Branco

 

Nunca um primeiro romance terá dado indicações tão firmes de que estávamos em presença de um genial criador como acontece em A recompensa do soldado, que William Faulkner escreveu em 1925.


Os Estados Unidos estavam apenas a quatro anos da Grande Depressão e esse clima de drama, de instabilidade, de incerteza quanto ao futuro está presente em cada página desta história, com uma forte componente autobiográfica,que nos conta como é que o país recebeu os seus soldados após a Primeira Guerra Mundial, um conflito onde não morreria tanta gente como no seguinte, mas que terá sido mais desumano para as tropas, sobretudo pela falta de condições a todos os níveis.

 

Oherói da narrativa, Mahon, é um aviador que regressa ao lar paterno completamente estropiado, com uma enorme cicatriz no rosto, cego e acometido de amnésia (não se lembra de praticamente nada, nem sabe quem é).

 

Os pais (que, no fundo, representam o país) não sabem o que fazer com ele, ainda que acreditem  piamente que o jovem vai recuperar e voltar a ser quem era antes de ir para a guerra. Isto apesar do cepticismo dos médicos, que, no entanto, omitem o seu veredicto ao pai, a pedido de uma amiga que se intrometeu na família, Margaret Powers, que  tem como objectivo ficar com Mahon para si.

 

Cecile, a noiva que o espera, fica horrorizada quando o vê e corre para os braços de um novo amor. A presença  de Mahon atraiu uma série de parasitas que tornam o quadro da sua existência ainda mais dramático.
Estamos em presença de um libelo contra a guerra, que nada tem de romântica.

 

E tudo escrito de uma forma belíssima. Cada descrição feita por Faulkner é motivo para pararmos e voltarmos a ler, só para termos o prazer de saborear a forma sublime como acaricia as palavras. Um exemplo  a fechar: "A Primavera, como uma brisa suave, pousa na franja do cabelo do pastor, enquanto este, de cabeça erguida, calcorreava o alpendre como um velho cavalo de guerra que volta a ouvir o trompete depois de ter pensado há muito que todas as guerras estavam terminadas".

 

TÍTULO: A recompensa do soldado

AUTOR: William Faulkner

EDITOR: Casa das Letras

PREÇO: 18 euros


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