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Resultados por tag: Ficção Nacional

Perpetuar uma vida

25

Abril

2011

Publicado por Sergio_Almeida às 15:08
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Rui Branco 


O mais recente romance de Mário Lúcio Sousa, O novíssimo testamento, move-se nas águas do realismo mágico africano, que tão bem conhecemos, por exemplo, através das histórias que Mia Couto nos conta.

 

Aqui vamos parar à pequena vila do Lém, situada na ilha de Santiago, em Cabo Verde, durante o princípio dos anos 70, onde a maior beata da região se encontra no leito de morte, assistida pelas netas. Apesar de a sua situação ser preocupante, eis que a idosa surpreende as jovens ao solicitar um fotógrafo em vez de um médico.

 

“Estou a morrer, não estou?, então cumpra-se a minha vontade, quero um fotógrafo pois o médico adia a morte e o fotógrafo perpetua a vida”, justificou.

 

Mas quando um fotógrafo italiano tira a fotografia, eis que a padecente desaparece assim que o flash dispara. As netas acreditam que a avó está dentro da câmara e exigem ao fotógrafo a sua revelação e ao mesmo tempo a ressurreição.

 

Consumado o seu retorno à vida, eis que o padre local proclama que se trate do regresso de Cristo à terra depositado num corpo de mulher. A partir daqui a vila despediu-se dos sinais de pacatez para se transformar num autêntico freak show, com um desfile de toda a casta de endemoninhados à procura da salvação junto da cristiana figura, entre os quais se contavam a criança que podia desnudar mulheres só com o assobio, o entrevado que provocava o uivo dos cães, a rapariga cujas glândulas produziam alfinetes-cabeça, a menina Rainbow que continuava ligada à mãe pelo cordão umbilical e muitas outras personagens verdadeiramente delirantes.

 

A presença de Cristo na vila começa a provocar sentimentos de independência entre as mulheres e mesmo de autodeterminação entre os habitantes, que viviam à sombra da tutela portuguesa. E isso as autoridades não vão perdoar…

 

A história tem passos semelhantes à odisseia do verdadeiro Jesus (será que Ela não seria mesmo Ele?) e acaba por ter um desfecho sereno que clarifica toda a narrativa.

 

Mário Lúcio Sousa foi nomeado recentemente ministro da Cultura de Cabo Verde. Nasceu no Tarrafal, em 1964, e licenciou-se em Direito na Universidade de Havana, em Cuba. O novíssimo testamento é o seu primeiro romance editado em Portugal. Já publicou várias obras de poesia e é músico de reconhecido mérito, o que transparece na sua escrita.

 

TÍTULO: O novíssimo testamento

AUTOR: Mário Lúcio Sousa

EDITOR: D. Quixote

PREÇO: 16 euros

Um Porto sem amarras

11

Abril

2011

Publicado por Sergio_Almeida às 14:28
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Sérgio Almeida 

 

Miguel Miranda volta a convocar Mário França – auto-intulado "maior detective do Mundo" – numa história cujo verdadeiro protagonista é, no entanto, a cidade do Porto.

Apesar de algumas incursões por outras paragens, como Nova Iorque e Veneza, Dai-lhes Senhor, o Eterno Repouso é pródigo na visitação de locais incontornáveis da Invicta, como o Majestic, Ribeira, Castelo do Queijo.

Não é, todavia, um Porto turístico ou artificial o que habita as páginas do sexto romance de Miguel Miranda. Muito graças às personagens criadas pelo autor de Dois urubus pregados no céu, que captam com rara acuidade os tiques e os principais traços de carácter do maior património (porque vivo) do Porto: as suas gentes. Mas para lá da ode à cidade, há também um grito de alerta face a alguns dos seus principais problemas, como o esvaziamento progressivo do centro da cidade.

Algumas das melhores páginas do livro são aquelas em que Miranda se refere à urbe "envelhecida, fenecendo devido ao despovoamento do casco histórico". Sobressaem nesta visão assustadora mas real "os edifícios sombrios, a precisar de restauro", "os prédios devolutos, as lojas fechadas, casas vazias" que lembram "órbitas de cego cintando as ruas".

E não faltam sequer evocações de outras eras, quando o Porto possuía uma dimensão cosmopolita inquestionável, por demais evidente na forma franca e aberta como recebia gentes de outras paragens, incorporando essas diferenças culturais com uma tolerância incomum.

Os méritos do romance extravasam a questão portuense. Ao longo de duas centenas e meia de páginas, Mário França enfrenta, com uma soberba que afinal esconde inseguranças profundas,  uma série de delicados casos que envolvem o pretenso assassinato de uma diva pop, tentativas de assassinato do Papa, memórias perdidas da II Guerra Mundial e até uma jovem cigana desaparecida... Nada que assuste um detective que se compara aos melhores. Com justa causa.

 

TÍTULO: Dai-lhes, Senhor, o Eterno Repouso

AUTOR: Miguel Miranda

EDITOR: Porto Editora

PREÇO: 16.60 €

Paixão louca mas azeda

04

Abril

2011

Publicado por Sergio_Almeida às 18:39
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 Rui Branco

 

A certa altura, o experiente inspector Paderne, do alto da sua sabedoria, solta para o jornalista Filipe, a propósito de crimes passionais:

– As paixões arrebatadas são como os vinhos de melhores castas: primeiro alegram, depois embriagam, no fim azedam.

Esta sábia tirada de Paderne é o melhor resumo da trama de Dama de espadas - crónica dos loucos amantes, o mais recente romance de Mário Zambujal, o sétimo de uma carreira iniciada com o famoso Crónica dos bons malandros, editado em 1980, que mereceu até adaptação ao cinema pela mão de Fernando Lopes.

A primeira sensação com que ficamos depois da leitura do novo livro de Zambujal é que se trata de uma história escrita por um jornalista. Aqui não existe a tentação de o autor se esconder atrás de vocábulos mais rebuscados ou de situações dominadas por qualquer tipo de esoterismo. Antes pelo contrário, temos uma narrativa cristalina, muito objectiva, notando-se que a única preocupação do escritor é comunicar com o leitor.

Algo que certamente lhe ficou de uma  carreira jornalística, que o fez passar por títulos tão diferentes como os jornais A Bola e o Diário de Notícias, entre vários outros.

Em Dama de espadas, Zambujal conta-nos a história de Filipe, um jornalista que vive frustrado na redacção de “O Exacto”, onde está condenado a redigir notícias do indigente mundo cor-de-rosa. Através de fotografias e de vídeos, Filipe descobre Eva Teresa, que tinha conhecido com apenas 11 anos quando namorava com a sua irmã, Rosália.

A visão da beleza em que Eva se transformou faz despertar uma paixão cega no jornalista, que o leva até a deslocar-se ao Brasil para a ver pessoalmente, mas depressa descobre que ela vai casar com um homem muito mais velho. Um idílico cenário em Sintra e um apartamento que aluga com uma cama com lençóis de cetim vão servir para ambos consumarem a sua paixão, condenada ao fracasso desde o princípio.

 

TÍTULO: Dama de espadas

AUTOR: Mário Zambujal

EDITOR: Casa do Autor

PREÇO: 15.95 euros

Um Livro em forma de livro

21

Março

2011

Publicado por Sergio_Almeida às 13:01
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Ivete Carneiro

 

"Um nome é suficiente? Não é. Um título também não. Esperar-se-ia muito mais de um romance intitulado Livro. Com expectativas mínimas, seria de supor que um romance que se apresenta como Livro tivesse, ao menos, a honestidade de ser aquilo que anuncia. Livro sugere perigosamente o livro, artigo definido que esta sucessão de páginas, por mais encadernadas, nunca merece. Na melhor das hipóteses é um livro. E triste".

 

Quando um livro conta o Livro e, a páginas tantas, desdenha do livro que é, a história poderá ser o que for. É simplesmente muito boa. Parte de um livro, inócuo, nunca se chega a saber bem sobre o quê. Pousado num banco, junto à criança do tempo do arroz de quinze que há-de dar à luz ao Livro, tratemo-lo como se fosse amigo de brincadeiras com pombas e palha. Passa pela emigração do Portugal profundo para a França a que se chegava a salto, por amores desencontrados, o correr mal é herdado. Perde-se em livros, com uma história de paixão de substituição, bonita porque iniciada com círculos à volta das palavras do primeiro livro, esse que não se conhece. "gosto". "de". "ti". E acaba no livro escrito pelo escritor que contou a história. "Uma obra rala", diz o Livro do livro. Duas personagens centrais, uma delas nas mãos do leitor.

 

E não, não é rala. É um regresso ao passado muito bem contado para quem cresceu com um pé de cada lado das fronteiras. É Ilídio, filho do padre e abandonado a Josué pau para toda a obra, namorado obscuro de Adelaide, sobrinha de Lubélia. É a viagem forçada de uma, a viagem esperançada do outro, atrás dela, o reencontro atrás da fonte, num Verão de mala de cartão. É o Livro fruto do aperto furtivo e o livro, com passagens de humor. "Se elas se preparavam para fazer um turno, virava jalú, quando elas protestavam, ele ordenava: Tá gola. Elas respondiam: Mafú".

 

A escrita de José Luís Peixoto embala, leva-nos, também a salto, do Portugal passado para as luzes de Paris. E com simplicidade, destrói as fronteiras. As da terra, mas, sobretudo, as da literatura. "Não têm conta as vezes que me disseram: Livro, posso ler-te?" Atrevemo-nos a dizer: "Deves".

 

TÍTULO: Livro

AUTOR: José Luís Peixoto

EDITOR: Quetzal

PREÇO: 17.95 euros

Nós de Amor

08

Fevereiro

2011

Publicado por elmanomadail às 9:33

Sinopse (da editora): Nós de Amor é uma selecção de pequenas ficções escritas por Helena Sacadura Cabral sob diversos estados de alma. Trata-se da sua obra mais pessoal e mais intensa. É a escritora que se revela, escrevendo histórias envolventes, marcadas por personagens com quem facilmente nos identificamos, aprofundando sentimentos, evocando memórias de outras vivências. Ler Nós de Amor é mergulhar na intimidade de Helena Sacadura Cabral, é descerrar um pouco a enigmática cortina sobre a mulher e a escritora. Reconhecida pelas suas observações directas e francas sobre o que de mais importante acontece na sociedade portuguesa, Helena Sacadura Cabral revela em Nós de Amor o seu lado mais intimista, delicado e sensível. Poemas, contos, pensamentos. Alegria, tristeza, nostalgia. Nós de Amor é isto, é um livro sobre sentimentos íntimos, de sonhos, de desejos, de pedaços de um quotidiano que todos, a dado momento da vida, experimentamos.

 

Autora: Helena Sacadura Cabral é licenciada em Economia, tendo obtido o prémio para o melhor aluno do Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (ISCEF). Desempenhou vários lugares de chefia na Administração Pública, tendo sido a primeira mulher a ser admitida nos quadros técnicos do Banco de Portugal. Colunista de diversos jornais e revistas, foi também colaboradora da RTP. Actualmente, mantém uma rubrica na SIC. Autora de mais de uma dezena de livros, concilia ainda a participação cívica com a actualização regular dos seus quatro blogues.

 

TÍTULO: Nós de Amor

AUTORA: Helena Sacadura Cabral

EDITORA: Clube do Autor

PREÇO: 15,95 €

Massacre do mito imperial dos brandos costumes

14

Dezembro

2010

Publicado por elmanomadail às 9:00

Elmano Madail
 
Será, talvez, o romance mais conseguido de José Rodrigues dos Santos (JRS) até à data – e já não são poucos. Algumas características mantêm-se, como a linguagem depurada e a investigação exaustiva que cultiva o gosto pelo pormenor quase etnográfico, aqui espelhado na atenção aos diferentes contextos em que se desenrola a narrativa e que atinge o paroxismo na cena moçambicana, com o recurso ao dialecto local – lá estão maningue, tatá e matabicho, entre outros vocábulos.
 
Podendo parecer mero preciosismo para os que ignoram a realidade colonial de meados do século XX, é justo conceder que, dada a mobilização massiva de portugueses para aqueles palcos nos anos de 1960-70, muito encontrarão aqui uma sólida âncora nostálgica, principalmente aqueles que estiveram mobilizados em Tete, no Norte de Moçambique.
 
Para os outros, fica a galeria de figuras estereotipadas da sociedade colonial – há o intelectual negro, o criado doméstico, o funcionalismo público ultramarino, o PIDE repugnante, a tropa fandanga, os turras da Frelimo, a boazona, literalmente fatal, da Rodésia que se enrola, em Lourenço Marques, com o protagonista principal, o médico José Branco, e a sua mulher, estúpida como um calhau.
 
José Branco cria, tal como o pai de JRS, o Serviço Médico Aéreo, e acaba por ser a primeira testemunha do massacre de Wiriyamu, executado pela 6.ª Companhia de Comandos de Moçambique, pagando por isso com a prisão.
 
Ora, sendo este o episódio para onde converge todo o livro, talvez JRS pudesse ter sido mais lesto nesse percurso, e investido mais no julgamento moral que o testemunho de tal atrocidade certamente exigiria. Fora isso, um bom romance, incontornável na (escassa) bibliografia sobre os anos da Guerra Colonial.


TÍTULO: O Anjo Branco

AUTOR: José Rodrigues dos Santos

EDITORA: Gradiva

PREÇO: 24,50 €

A Boneca de Kokoschka

06

Dezembro

2010

Publicado por elmanomadail às 16:03

Sinopse (da editora): O pintor Oskar Kokoschka estava tão apaixonado por Alma Mahler que, quando a relação acabou, mandou construir uma boneca, de tamanho real, com todos os permenores da sua amada. A carta à fabricante de marionetas, que era acompanhada de vários desenhos com indicações para o seu fabrico, incluía quais as rugas da pele que ele achava imprescindíveis. Kokoschka, longe de esconder a sua paixão, passeava a boneca pela cidade e levava-a à ópera. Mas um dia, farto dela, partiu-lhe uma garrafa de vinho tinto na cabeça e a boneca foi para o lixo. Foi a partir daí que ela se tornou fundamental para o destino de várias pessoas que sobreviveram às quatro toneladas de bombas que caíram em Dresden durante a Segunda Guerra Mundial.
 
Autor: Afonso Cruz (Figueira da Foz, 1971) é um escritor, realizador de filmes de animação, ilustrador e músico português. Estudou na Escola Secundária Artística António Arroio, nas Belas Artes de Lisboa e no Instituto Superior de Artes Plásticas da Madeira.
 
 
TÍTULO: A Boneca de Kokoschka
 
AUTOR: Afonso Cruz
 
EDITORA: Quetzal

PREÇO: 16,95 €

Maria Velho da Costa ganha Prémio Literário DST

06

Dezembro

2010

Publicado por elmanomadail às 14:17

Maria Velho da Costa venceu a XVI edição do Grande Prémio de Literatura entregue pelo grupo DST, de Braga, com o romance Myra (Assírio & Alvim), que também já havia sido distinguido com o Prémio Literário Casino da Póvoa, no valor de 20 mil euros. No valor de 15 mil euros, o Grande Prémio de Literatura do grupo DST vai ser entregue a 30 de Abril.

Myra tem como figura central uma adolescente russa imigrada em Portugal, e da relação que aquela estabelece com um cão de uma raça perigosa. Nascida em 1938, Maria Velho da Costa, Prémio Camões em 2002, é autora de uma vasta obra ficcional, em que se destacam títulos como Maina Mendes, Lucialima, Missa in albis, Dores e Irene ou o contrato social.

 

(Lusa)

Nove Mil Passos

29

Novembro

2010

Publicado por elmanomadail às 0:52

Sinopse (da editora): Até ao século XVIII, Lisboa minguava com a sede. O projecto do humanista Francisco d’Ollanda, durante o reinado de D. João III, nunca se concretizou, e todas as tentativas de trazer a água à capital do reino foram fracassadas no meio do desinteresse dos sucessivos monarcas e às mãos de burlões. Quando, em 1731, a obra finalmente se inicia tudo se parece encaminhar para um rápido final feliz. Porém, vivia-se no reinado de D. João V… Nove Mil Passos, romance de estreia de Pedro Almeida Vieira – agora com uma revisão profunda –, constitui um repositório dos tempos de fausto do Rei-Sol português, envoltos em beatices, intrigas, libertinagens, superstições, perseguições e desgovernos, tendo como pano de fundo a história da construção do Aqueduto das Águas Livres, relatada pelo espírito irónico e mordaz (e também interventivo) de Francisco d'Ollanda.

 

Autor: Pedro Almeida Vieira nasceu em Coimbra em 1969, viveu a sua juventude em Anadia e licenciou-se em Engenharia Biofísica pela Universidade de Évora. Depois de uma experiência no associativismo ambiental, tornou-se jornalista em 1995, tendo colaborado sobretudo com o Expresso, Fórum Ambiente, Diário de Notícias e Grande Reportagem. Actualmente, escreve na revista Notícias Sábado. Nos últimos anos recebeu três prémios de imprensa e foi distinguido em 2003 com o Prémio Nacional do Ambiente "Fernando Pereira". É autor de O Estrago da Nação (2003), um ensaio jornalístico sobre o estado do ambiente em Portugal – considerado por dois críticos do semanário Expresso como um dos 10 melhores livros do ano – e de Portugal: O Vermelho e o Negro (2006), que aborda a dolorosa realidade dos incêndios florestais. Estreou-se na ficção com o romance Nove Mil Passos (2003), a que se seguiu O Profeta do Castigo Divino (2005), ambos aplaudidos pela crítica e pelos leitores.

 

TÍTULO: Nove Mil Passos

AUTOR: Pedro Almeida Vieira

EDITORA: Sextante

PREÇO:

Um manifesto contra a sisudez dominante

12

Novembro

2010

Publicado por Sergio_Almeida às 20:17
0 comentários

Sérgio Almeida

 

Quem leu Cartas de um louco (Gradiva, 2005) – da autoria de Ted L. Nancy, pretenso alter-ego de Jerry Seinfeld –, estará familiarizado com a fórmula: um indivíduo com ligações ténues à realidade (chamemos-lhe assim...) entretém-se a enviar cartas a empresas de vários ramos de actividade com pedidos, queixas ou simples comentário, no mínimo, insólitos. As cartas iniciais e as respectivas respostas são depois compiladas em livro, proporcionando resultados não raras vezes hilariantes.


A ideia foi seguida à risca pelo jovem português João Pinto Costa, com uma pequena actualização: em vez das românticas mas cada vez menos pulares cartas tradicionais, optou pelo recurso ao correio electrónico.

 

Mesmo com esse aparente défice de inventividade, Pinto Costa confere a Mail de um louco motivos fartos de interesse, pois o que vemos nas largas dezenas de exemplos aqui reunidos acaba por constituir, de certa forma, uma pequena representação do Portugal contemporâneo.

 

As cartas têm todas o mesmo remetente, Mário Dias, nome suficientemente comum para não levantar suspeitas, e traduzem uma curiosa multiplicação de personalidades, já que o mesmo se vai apresentando como cartomante, hoquista, golfista ou simples pai desmiolado, consoante o género da empresa em causa.

 

Ainda mais extraordinário do que o conteúdo de alguns dos comentários de Pinto Costa é percebermos que as cartas virtuais foram objecto de cuidada análise por parte dos visados. Claro que tal se deve ao mérito do autor de conferir o mínimo de credibilidade aos e-mails, pois a esmagadora maioria dos textos encontraram eco junto das "vítimas".

 

De entre os episódios memoráveis do livro figuram os textos enviados a uma conhecida empresa de porcelanas a solicitar autorização para a gravação de um videoclip musical que envolve o transporte de um elefante (!) para o referido espaço comercial, o pedido para promover uma nova marca de tabaco numa escola do ensino básico ou o surreal diálogo mantido com os proprietários de um restaurante no Brasil a pedir uma sessão espírita com uma pizza...

 

TÍTULO: Mail de um louco

AUTOR: João Pinto Costa

EDITOR: Presença

PREÇO: 13.60 euros

Absurdos que fazem sentido

04

Novembro

2010

Publicado por Sergio_Almeida às 15:13

Sérgio Almeida

 

Quem leu Caravana, o livro com que se estreou na publicação há dois anos, saberá que Rui Manuel Amaral não faz parte da imensa maioria de autores debutantes que insistem em escrever de acordo com os ditames de determinada época, numa espécie de moda prêt à porter mas ainda mais descartável do que esta.

 

Só assim se explica que as suas narrativas não só sejam protagonizadas por personagens, no mínimo, insólitos (Lazarus Leumorfis, Grugur Buxtorfius, Innocentius Prioris, Troysler Heusinkveld...) como envolvam situações desafiadoras da lógica. Ao longo destas micro-histórias encontramos deuses concebidos em laboratórios, homens que após uma noite de folia acordam dentro de uma garrafa ou pernas postiças que caminham sozinhas. Em todas estas suposições literárias prevalece o desejo de propor mundos que transgridam o senso comum e nos façam acreditar no poder redentor dos livros.

 

Além de manter intacta a inventividade já anteriormente demonstrada, Rui Manuel Amaral aprofunda um conjunto de técnicas narrativas que confirmam o seu talento. Influenciado por um naipe de venerandos autores como Mário Henrique-Leiria, Rabelais, Swift, Cervantes, Sterne, Fielding ou Gógol, Rui Manuel Amaral vale-se do absurdo para impor uma inventividade a todos os títulos notável que vai muito além da brevidade que pauta estas narrativas, nas quais sobressai uma escrita tão depurada quanto cortante.

 

TÍTULO: Doutor Avalanche

AUTOR: Rui Manuel Amaral

EDITOR: Angelus Novus

PREÇO: 14 euros

Estranha Noiva de Guerra

01

Novembro

2010

Publicado por elmanomadail às 11:36

Sinopse (da editora): Estranha Noiva de Guerra é um romance de Armor Pires Mota, cujos direitos de autor revertem a favor dos Centros de Apoio à Inclusão Social, da Liga dos Combatentes. A obra, inserida na colecção "Guerra Colonial", tem como pano de fundo o conflito na Guiné. Amor e morte cruzam-se numa história onde duas mulheres – Mariama, uma bela partisan, e Helena, mulher do capitão Castro Matias – protagonizam duas raças. João de Mancelos, escritor e professor da Universidade Católica Portuguesa, descreve a obra desta forma: "Um empolgante thriller bélico, narrado com desenvoltura, num estilo tão laborioso quanto intenso. Para ler, da capa al fine – sempre com o coração nas mãos e a memória no olhar".

 

Autor: Armor Pires Mota nasceu em Oiã, em 1939. Concluído o ensino primário, ingressou no Seminário de Aveiro, que abandonou em 1961. Foi mobilizado em 1963 e fez comissão de serviço na Guiné, como alferes miliciano. A guerra deixou-lhe feridas de muitas histórias e vivências. Sobraram-lhe dessa experiência vários livros (crónica, conto, romance e poesia). Entre eles, Tarrafo, apreendido pela PIDE, e Bagabaga, prémio Camilo Pessanha. A Câmara de Oliveira do Bairro distinguiu-o com a Medalha de Mérito Cultural, grau ouro, e o Rotary Club da mesma cidade atribuiu-lhe o galardão de Mérito Profissional, levando em conta os seus mais de vinte anos de jornalismo.

 

TÍTULO: Estranha Noiva de Guerra

AUTOR: Armor Pires Mota

EDITORA: Âncora

PREÇO: 16,00 €

As Bicicletas em Setembro

25

Outubro

2010

Publicado por elmanomadail às 14:27

Sinopse (da editora): Num bairro lisboeta inventa-se a felicidade em jogos de cartas numa obscura taberna, descobre-se a medo a iniciação sexual, vivem-se os pequenos dramas de um quotidiano triste, expõe-se a perversidade das relações humanas, sonha-se além das imagens que as nuvens vão construindo. Em jeito de homenagem, também, ao poeta Eduardo Guerra Carneiro, há ainda neste livro espaço para os sentimentos, para a partilha, para os afectos. E para a perda e para a solidão, porque ambas se confundem com a própria natureza humana. Metáfora de um tempo que já não existe ou dos sentimentos que vamos, a cada geração, renovando, As Bicicletas em Setembro é uma obra povoada de imagens e lirismo intensos que confirma, uma vez mais, a importância de Baptista-Bastos na Literatura Portuguesa Contemporânea.

 

Autor: Baptista-Bastos nasceu em Lisboa em 27 de Fevereiro de 1934. Aos dezanove anos, n'O Século, inicia uma intensa e aplaudida carreira de jornalista, mudando-se mais tarde para o Diário Popular, onde permaneceu 23 anos. Escreveu nos mais prestigiados jornais e revistas, colaborou em inúmeros programas de rádio, e na SIC conduziu o programa "Conversas Secretas". Como jornalista, romancista e ensaísta é autor de duas dezenas de livros, cujo reconhecimento foi objecto de algumas das mais respeitadas distinções, de que se destacam o Grande Prémio da Crítica, o Grande Prémio da Crónica da APE, o Pen Club e o Prémio de Crónica João Carreira Bom. Actualmente, é colunista do Diário de Notícias e do Jornal de Negócios.

 

TÍTULO: As Bicicletas em Setembro

AUTOR: Baptista-Bastos

EDITORA: Oficina do Livro

PREÇO: 13,90 €

A Tentação de Ficcionar as Sobras do Bom Jornalismo

17

Outubro

2010

Publicado por elmanomadail às 18:45
0 comentários

Elmano Madail

 

João Paulo Guerra, jornalista consagrado, debuta no romance com a súmula de uma série de (óptimos) trabalhos de investigação que publicou no jornal Semanário, entre Novembro de 1990 e Abril de 1991, sobre as ramificações em Portugal da rede clandestina da OTAN, denominada Gládio, entretecida pela tragédia pessoal de Pedro Costa, segundo-tenente da Armada.

 

Este, testemunha do assassinato do pai durante uma manifestação do 1.º de Maio em 1964, quando ainda era adolescente, e obrigado a conviver com o franciú - o sr. Jacques, como chamava a mãe submissa ao amante impositivo -, tutor distante e autoritário cujos negócios nunca foram percebidos, nem explicados os contactos nas mais altas esferas do Salazarismo, tropeça acidentalmente na Aginter Press, agência noticiosa que encobria as actividades da Gládio em Lisboa.

 

Pedro Costa, que será fulcral na descoberta da vasta conspiração da extrema-direita que visava impedir, em plena Guerra Fria, a instalação de governos comunistas na Europa Ocidental através da estratégia de tensão, e em Portugal o regresso triunfante do general conservador António de Spínola após o seu exílio forçado pelas forças revolucionárias, é, porém, um elemento supletivo, e um pobre personagem, afinal.

 

O subtexto de que é protagonista rapidamente se esgota, adivinhando-se o seu fado (que o autor repisa demasiadas vezes) nos primeiros capítulos, e o desfecho nos seguintes. Porque neste livro o ficcional é mero expediente de liberdade para complementar os hiatos que ficaram da abordagem jornalística, e não o fito primeiro da obra. Neste contexto, talvez tivesse sido preferível ao autor assumir o cariz ensaio-jornalístico que se adivinha ter pretendido.

 

TÍTULO: Romance de Uma Conspiração

 

AUTOR: João Paulo Guerra

 

EDITORA: Oficina do Livro

 

PREÇO: 13,90 €

Um Amor Sem Tempo

14

Outubro

2010

Publicado por elmanomadail às 16:29

Sinopse (da editora): Após seis anos de ausência, Eduardo regressa à aldeia onde nasceu para vender a propriedade da família, votada ao abandono desde a morte do avô. «Ia ficar pouco tempo», pensava encostado a uma árvore do carvalhal que bordejava a aldeia. Mas, subitamente, uma sucessão seca de tiros fez reverberar o ar sólido do estio e acabou com a paz daquele dia. Os famosos pombos-correio de Severino Sarmento, o homem mais poderoso da terra, tinham sido traiçoeiramente abatidos. E é, então, que se dá o reencontro de Eduardo com o seu passado e com todos aqueles que o marcaram de forma indelével. Sobretudo Mariana, a bela filha de Severino e seu grande amor. Carlos Machado, num romance apaixonante, conduz-nos através de uma trama que tem lugar nos tempos agitados do pós-25 de Abril e que nos coloca, sem moralismos, perante fraquezas e grandezas da natureza humana.
 
 
Autor: Carlos Machado nasceu em Montalegre, em 1954. Licenciado em Engenharia Electrotécnica tem desenvolvido a sua actividade profissional na área das telecomunicações. A paixão pela escrita foi desde sempre uma constante na sua vida, e a auspiciosa distinção do seu primeiro romance com o Prémio Alves Redol, atribuído pela Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, não faz apenas justiça à inegável qualidade desta obra, mas constitui também um excelente augúrio quanto ao futuro literário do autor.


TÍTULO: Um Amor Sem Tempo

AUTOR: Carlos Machado

EDITORA: Presença

PREÇO: 15,90 €


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