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A Saudade portuguesa segundo António Sérgio

20

Janeiro

2014

Publicado por Sergio_Almeida às 16:36
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José Carlos Casulo *

 

Memória pedagógica da Renascença Portuguesa
6. A polémica saudosista - António Sérgio: Epístolas aos saudosistas (1913) / Teixeira de Pascoaes: Os meus comentários às duas cartas de António Sérgio (1913) (1ª parte)

 

Na primeira das duas cartas do seu artigo, Sérgio criticava a definição pascoalina de Saudade - velha lembrança gerando novo desejo- e a sua fonte, isto é, a definição de Duarte Nunes de Leão - lembrança de uma coisa com o desejo dela -, Duarte Nunes de Leão a quem chama "… papá [dos saudosistas] que Cristovão de Moura comprou para seu amo Filipe II…" (1).  Como pérola de ironia anti-saudosista, a citação que se segue é insubstituível por quaisquer outras palavras que a tentem explicar:


 

"Um sujeito vê um dia um cão e bate-lhe. O cão foge, desmoralizado pelo inesperado do ataque. Decorridos dias o nosso homem passa outra vez pelo cão, sem dar por ele. Ao cão vem-lhe um desejo naturalíssimo de sentir a carne do agressor comprimida entre os seus caninos e… zás, estão daí vocês a ver a cena. Que se passará na consciência do animal? Nada de extraordinário: uma velha lembrança gerando um novo desejo: -a saudade (definição de Pascoaes).'

 

'Suponha-se agora o dono do cão a comer uma iguaria nova, e ao lado dele o seu cachorro. O dono estende-lhe um pedaço, e o focinho duvidoso aproxima-se, fareja, estende a dentuça, mastiga incerto, engole. Gostou. Passam-se dias. O cão vê o dono a comer o tal petisco, e logo se aproxima, de venta ávida. Que foi? A lembrança de uma coisa com desejo dela -, a saudade (definição de Duarte Nunes)." (2)

 

Estas escarnecedoras linhas de Sérgio serviam-lhe para avançar uma interpretação da Saudade essencialmente sentimentalista, afastando-se, assim, da concepção da escola saudosista assumida em Pascoaes, que elevava a Saudade acima do mero sentimento para lhe adivinhar uma dimensão estrutural de representação (lembrança) e de vontade (desejo).

 

Sérgio, sem recusar liminarmente tais dimensões, valorizou-a mais como um sentimento de fixação no passado, em algo que, no passado, nos tocou - o tal "gosto amargo" garrettiano em que vivem "os velhos e os desgraçados a quem a morte levou uma pessoa muito querida.". (3)

Para Sérgio, foram as causas sociais subjacentes a este "gosto amargo" que ditaram a existência da Saudade na literatura nacional. Foi o "gosto amargo" dos que viviam nas Índias distantes, em quilómetros e em civilização, dos exilados, dos frustrados nos amores, das recolhidas forçadamente nos conventos…

 

A Saudade, para Sérgio, não era, pois, o espírito luso que progressivamente se tinha manifestado ao longo do devir histórico nacional. Ela era, sobretudo, um sentimento doloroso provocado pela separação de algo de que se gosta (a terra natal, os entes queridos, um determinado estilo de vida…).

 

Assim sendo, e já estamos na segunda epístola, a Saudade não era unicamente nossa, mas de todo o género humano, o que Sérgio tentou provar demonstrando a traduzibilidade deste vocábulo noutras línguas: na galega (soledade, soedade), na catalã (anyoransa), na italiana (desio, disio), na romena (doru, dor), na sueca (saknad), na dinamarquesa (savn), na islandesa (saknaor).

 

Com lógica, mas também com ironia, Sérgio concluía afirmando não haver "… motivo para desesperar de que os bárbaros estrangeiros atinjam a nossa civilização: pelo menos os italianos, os suecos, os noruegueses e os dinamarqueses. Eles têm a saudade, têm a palavra correlativa; eles produziram (…) espíritos que, sem grande exagero, podemos considerar civilizados. Não desanimar, caramba! Não desanimar! Com mais algum esforço chegarão ao saudosismo…"(4).

 

Notas
(1) Cfr. Sérgio, António,  “Epístolas aos saudosistas”, em A Águia, Porto, IIª série, 1913, nº 22, p. 97.
(2) Ibidem, pp. 97-98.
(3) Ib., p. 99.
(4) Ib., p. 103.
                                          

* Instituto de Educação da Universidade do Minho

A polémica saudosista da Renascença Portuguesa

31

Dezembro

2013

Publicado por Sergio_Almeida às 15:02
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José Carlos Casulo *

 

Memória pedagógica da Renascença Portuguesa

5. A polémica saudosista: enquadramento

 

Entre Outubro de 1913 e Julho de 1914, as páginas da revista A Águia foram palco da disputa sobre o saudosismo  - célebre nos anais do nosso pensamento-  protagonizada por António Sérgio e Teixeira de Pascoaes.

 

Constou esta polémica de um total de oito escritos igualmente divididos entre os dois contendores. Sérgio iniciou-a com Epístolas aos saudosistas (Outubro de 1913), tendo Pascoaes retorquido com Os meus comentários às duas cartas de António Sérgio (Outubro de 1913).

 

Avançou de novo o futuro seareiro com Regeneração e tradição, moral e economia (Janeiro de 1914), artigo a que o Saudosista respondeu com Resposta a António Sérgio (Fevereiro de 1914). Sérgio intitulou a sua terceira missiva de Despedida de Julieta (Abril de 1914), merecendo esta a Última carta? (Maio de 1914) de Teixeira de Pascoaes.

 

Não deixou o dissidente da Renascença que as coisas ficassem por aqui e escreveu Explicações necessárias do homem da espada de pau ao arcanjo da espada dum relâmpago (Junho de 1914), a que o director literário da revista onde tudo isto era publicado respondeu com Mais palavras ao homem da espada de pau (Julho de 1914), tendo sido este o derradeiro artigo desta diatribe.

 

A invocação, na presente circunstância, desta polémica, justifica-se por dois motivos. Primo, porque é nela que, sem margem para dúvidas, se evidencia definitivamente a genésica e irreversível ambiguidade doutrinária da Renascença.

 

Secundo, porque, tendo começado por ser um debate sobre a aceitabilidade teórico-filosófica da Saudade, ela termina realçando, precisamente, que, no fundo, o que estava em causa na disputa, era uma concepção sobre a educação do Homem português, era, portanto, uma questão de índole teórico-pedagógica, ou filosófico-educacional, se preferirmos esta denominação.

 

Nestas linhas introdutórias, impõe-se, ainda, esclarecer que a polémica  decorreu com a civilidade e elevação que seriam de esperar dos dois émulos. Não obstante, o debate entre Sérgio e Pascoaes foi suficientemente aguerrido para que se instalasse algum equívoco no relacionamento entre ambos.

 

Se algo de mais houve, foi, por certo, totalmente sanado nos últimos tempos da vida do Saudosista. É que, aquando da homenagem que, em 12 de Maio de 1951, a Academia de Coimbra lhe promoveu, esta mesma editou o volume A Teixeira de Pascoaes: homenagem da Academia de Coimbra (1), no qual, entre outras colaborações, aparecia a de António Sérgio. Tratava-se de um soneto, que era, parece-nos, autêntico penhor de reconciliação, a demonstrar que à grandeza intelectual de António Sérgio não faltava correspondente hombridade. Ei-lo:

 

As pessoas são nada, e as cousas tudo!
Ah, se o pensaste assim, e se o disseste,
É que, infundindo-lhe alma, às cousas deste
Um coração represo, arfante e mudo!

O penumbroso monte, o tronco rudo,
Vivem na névoa humana em que os puseste;
Tornaste irmão ansioso o vento agreste
E carinhosa a relva em seu veludo.

Bendito o canto teu, porque desperta
Essa visão de uma alma já liberta
Das cadeias da luta e da miséria,

E ao Paraíso ao cabo regressada,
Porque viu, ao fulgor da Vida Etérea,
Que as pessoas são tudo, e as cousas nada!"(2)

 

No ano seguinte (1952), o da sua morte, Pascoaes proferiu no Conservatório Nacional, em Lisboa, no dia 4 de Março, a conferência Da Saudade. Entre a assistência estava Sérgio que, no fim, e de acordo com o testemunho da irmã do poeta, D. Maria da Glória, se dirigiu de braços abertos para o seu rival na polémica de quase quarenta anos atrás. "Isso é uma facada, ou um abraço?", indagou Pascoaes… e os dois homens caíram nos braços um do outro (3).

 

Notas


(1) Cfr. Sérgio, António, “Ao Teixeira de Pascoaes”, em AA.VV., A Teixeira de Pascoaes: homenagem da Academia de Coimbra pela voz de escritores portugueses e brasileiros, Academia de Coimbra, Coimbra, 1951.

(2) Ibidem, pp. 41-42.

(3) Cfr. Vasconcelos, Maria da Glória Teixeira de, Olhando para trás vejo Pascoaes, Livraria Portugal, Lisboa, 1971, p. 49.

 

* Instituto de Educação da Universidade do Minho

O projeto educativo da Renascença Portuguesa (2ª parte)

06

Dezembro

2013

Publicado por Sergio_Almeida às 20:19
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José Carlos Casulo *

 

Outros meios usados pelos renascentes para levar avante os seus intuitos de educação do povo português foram as conferências, exposições e saraus culturais. Basta ver a secção intitulada A Obra da Renascença, amiúde inserida em A Vida Portuguesa, para nos apercebermos da sua frequência e dos assuntos tratados.

Os renascentes tiveram, ainda, intervenção cívica importante na questão nacional levantada em torno da Grande Guerra 1914-1918 e da participação portuguesa no conflito, tendo tanto A Águia como A Vida Portuguesa dedicado algum espaço a fazer eco das preocupações do movimento sobre o assunto. De um modo geral, o movimento defendeu a intervenção de Portugal na guerra ao lado dos aliados.

 

Uma das excepções a este posicionamento foi António Sérgio  (12). Houve, aliás, renascentes de primeiro plano que chegaram a integrar o Corpo Expedicionário Português, como foi o caso de Jaime Cortesão, que o fez na sua qualidade de médico, e de Augusto Casimiro, militar de carreira, tendo-se este último coberto de glória nos combates da frente da Flandres.

 

Por deliberação do seu Conselho de Administração, a Renascença chegou mesmo a criar, logo em 1914, a Sociedade de Instrução Militar da Renascença Portuguesa, cuja anunciada missão era a de instruir militarmente voluntários que se quisessem preparar para uma eventual participação de Portugal na guerra (13).

Naturalmente, não poderíamos deixar de lembrar as Universidades Populares que, em número de cinco (Porto, Póvoa de Varzim, Vila Real, Coimbra e Lisboa), promoveram várias lições públicas e ministraram cursos no âmbito da História de Portugal, da Literatura Portuguesa, da Biologia, da Botânica, da Filosofia, da Física, etc.(14).

 

E já que em universidade se falou, convém recordar, a encerrar esta síntese das actividades educativas da Renascença, que existiu uma íntima relação entre o movimento e aquela que foi a primeira Faculdade de Letras do Porto, criada por Leonardo Coimbra (15).

 

Notas

(12) Veja-se, sobre isto, Sérgio, António, O que eu diria aos voluntários académicos, em A Vida Portuguesa, Porto, 1915, nº 39, p. 145

(13) Cfr. Renascença Portuguesa - Sociedade de Instrução Militar em A Vida Portuguesa, Porto, 1914, nº 32, pp. 89-90.

(14) Uma compilação das várias lições públicas e cursos das Universidades Populares da Renascença pode ser encontrada em Samuel, Paulo, op. cit., pp. 59-91. Note-se, ainda, que esteve prevista a criação de uma Universidade Popular em Ponta Delgada, não havendo, porém, notícia sobre a concretização deste projecto. (cfr. A Vida Portuguesa, Porto, 1 de Abril de 1913, nº 11, p. 83).

(15) Não só foi Leonardo Coimbra quem, como Ministro da Instrução Pública levou avante a iniciativa (cfr. decreto nº 5770 de 10 de Maio de 1919, publicado no suplemento ao Diário do Governo nº 98 da mesma data), como, entre o seu corpo docente, se encontravam muitos membros da Renascença (veja-se Pina, Luís de, “Faculdade de Letras do Porto (breve história)”, separata de Cale (vol. I), Porto, 1968)

 

* Instituto de Educação da Universidade do Minho)

 


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