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Sexo, drogas e samba

13

Julho

2011

Publicado por Sergio_Almeida às 13:13
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Sérgio Almeida 

É impossível não pensarmos em Charles Bukowski, Henry Miller, Thomas Pynchon ou Jack Kerouac ao lermos o novo romance do escritor brasileiro Reinaldo Moraes. O forte apego à liberdade individual, a atracção pelo lado mais marginal da existência e o tom escabroso adoptado provam a filiação estética do autor de Tanto faz, novela publicada no início dos anos 80 que lhe granjeou imediata fama.

Mas esta odisseia – quase 600 páginas – regada de sexo, álcool e todo o género de estupefacientes é muito mais do que uma adaptação tropical da literatura beatnick. Porque Moraes constrói um delirante digressão romanesca em que o abjecto, a comédia e a filosofia se aliam para construir uma história que nos fornece um retrato vívido do bas-fond paulista em toda a sua decadência.

Zeca, o protagonista do livro, é um cineasta falhado que insiste em seguir um estilo de vida ferozmente hedonista, apesar das queixas constantes da mulher e das ameaças do cunhado, arrependido do dia em que o empregou numa produtora falida. Numa derradeira oportunidade para se endireitar de vez, é-lhe atribuída a realização de um pequeno filme promocional sobre embutidos de frango, mas o tresloucado documentarista recorre a todo o género de subterfúgios para escapar ao cumprimento da missão que lhe foi atribuída.

Cocainómano, alcoólico, viciado em sexo e misógino, Zeca comporta-se como se fosse a personagem principal de “uma opereta bufa escrita por um surrealista tardio com graves distúrbios de personalidade e muito ácido na cabeça”. Essa inconsciência inextricável levá-lo-á a participar em duvidosas aventuras, incluindo bacanais disfarçados de sessões místicas, descritos com uma minúcia quase obsessiva.

Mais do que os contornos do enredo, Pornopopeia impressiona pelo arrojo formal de Reinaldo Moraes, que, através do recurso a neologismos improváveis, trocadilhos insólitos e comentários diletantes, se revela um hábil manejador da língua, mesmo quando a subverte de um modo que não deixará de chocar os mais puristas.

Se o protagonista prima pelos excessos de vária ordem, o romance não o é menos. No afã de escrever uma verdadeira epopeia dos sentidos, Reinaldo Moraes incorpora na prosa tudo o que o rodeia, desde o ambiente circundante a pensamentos recônditos, transformando o livro numa desconcertante amálgama de sensações que, ora cativando ora provocando repulsa, deixará poucos indiferentes.

 

TÍTULO: Pornopoeia

AUTOR: Reinaldo Moraes

EDITOR: Quetzal

PREÇO: 18.90 euros


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Sérgio Almeida: sergio@jn.pt