Eu a fazer figura de parvo em Macau

terça-feira, 9 de Setembro de 2014 às 16:55

 

Às vezes tenho a mania que sou engraçado e, mesmo sabendo que nove em cada dez vezes a coisa vai dar mau resultado, a verdade é que raramente resisto à tentação e acabo por estragar tudo ou armar confusão.

A história que vos vou contar não aconteceu nas férias, mas foi como se fosse. Só com muita bondade se pode chamar trabalho a estar uma semana instalado no Mandarim Oriental de Macau, como convidado para a inauguração do aeroporto, ao serviço de um jornal que só sai uma vez por semana e numa altura (o Outono de 95) em que as esperanças ainda não tinham sido transformadas em recordações, ainda não tinham sido inventados os online e a imprensa ainda não sucumbira ao frenesim da notícia disparada na hora.

Nunca mais esquecerei a receção oferecida pela Soares da Costa (lider do consórcio construtor do aeroporto) no Westin da Taipa, uma experiência sensorial única marcada pelo contínuo e erótico plop plop do rebentar das rolhas das Moet et Chandon, o champanhe que escorria ainda mais divinalmente quando limpava o delicioso salgado que ficava depois de esmagar com a lingua, no céu da boca, as bolinhas de caviar distribuido generosamente em bandejas.

Também nunca esquecerei, se bem que por razões não epicuristas, a receção dada pelo BCP, que na  Primavera anterior conseguira finalmente comprar o BPA por 305 milhões de contos, ponto final a um thriller financeiro que durara dois anos  e que eu acompanhara para o Expresso, a meias com o meu colega e amigo João Cortez Lobão.

Baseado em Lisboa, o João - que após a passagem pelo mundo financeiro (trabalhou na Friends Villas Fisher Trust Company, com escritório no WTC, em Nova Iorque) se tornou num bem sucedido empresário agrícola, dono de um dos maiores olivais do país - assinava as peças que veiculavam os pontos de vista do BCP enquanto que eu, que estava no Porto, asinava todas as matérias cujo conteúdo tinha tudo para desagradar a Jardim Gonçalves pois continham informações fornecidas pelo BPA de João Oliveira e o núcleo de accionistas liderado por Belmiro de Azevedo, que tentava resistir à OPA hostil.

Dessa maneira, formos levando a água ao nosso moinho, proporcionando aos leitores do Expresso um bom acompanhamento noticioso do caso mais palpitante do momento da página económica.

Dada esta explicação, salto por cima do Verão de 1995 e volto à receção do BCP, que ao adquirir o BPA levara de brinde o Banco Comercial de Macau, mais concretamente ao momento em que na qualidade de anfitreão, Jorge Jardim Gonçalves desembarcou na roda em que eu estava (na companhia de Pinto Basto, secretário geral do banco, e de alguns jornalistas, entre os quais se contava o Jorge Jacinto) e foi-nos apresentando, um a um, à sua mulher Assunção, até que chegou a minha vez e ela não conseguiu reprimir um ar de espanto e comentou:

- Tenho ouvido falar muito de si!

E eu,que como já vos confessei, não resisto à tentação de me armar em engraçado, respondi:

- Presumo que mal...

Assunção, uma professora portuense que Jorge conheceu quando estudava Engenharia na FEUP (foto que ilustar este post é da época, com os dois a dançarem no baile de finalistas), sacrificou a diplomacia no altar da frontalidade e disse:

-  Muito mal, por sinal...

Mas ao ver o mer ar de espanto, tentou emendar o soneto e sossegar-me:

- Mas olhe que só profissionalmente. Nada de pessoal.

Quase 20 anos volvidos, continuo a arranjar encrenca quando tenho a mania de que sou engraçado. Mas com este episódio de Macau aprendi a ser mais cuidadoso no diálogo com mulheres de banqueiros.

Algures em 2004, era eu editor de Economia do Expresso e um dos motivos por o BES ter cortado a publicidade ao grupo Impresa, quando o Paulo Padrão (ex-jornalista que aderiu profissional e pessoalmente à família Espírito Santo) me proporcionava uma visita guiada à preciosa coleção de fotografia do banco, tropeçamos na mulher de Ricardo Salgado, e ele, coitado, não teve outro remédio senão apresentar-nos.

E apesar de, ao ouvir o meu nome, o espanto e a censura terem tomado conta da cara de Maria João, não me armei em engraçadinho que tem a mania de ouvir o que não é dito, e limitei-me a um circunspecto: "Muito prazer em conhecê-la". Portei-me bem!

Tags:
Comentar  |  PartilharPartilhar

Eu a fazer figura de parvo no Rio de Janeiro

quarta-feira, 13 de Agosto de 2014 às 16:21

 

 Estava uma enorme barafunda. Como era a época alta, a bilheteira, na praia Vermelha, abarrotava de turistas. Não foi fácil (nem barato) comprar o bilhete para o bondinho que sobe até ao Pão de Açúcar. Pensar que muito provavelmente não voltaria ao Rio de Janeiro – e por isso seria uma estupidez desperdiçar esta oportunidade de desfrutar de uma vista que só podia ser deslumbrante –, ajudou- me a aguentar a espera.

Para não ficar mais 20 minutos à espera do próximo bondinho, forcei a entrada junto com o rebanho de americanos que estava à minha frente na bicha e era pastoreado por uma brasileira grávida, grande e com bom ar.

Conhecem aquela imagem da lata de sardinhas? Pois era assim mesmo. Íamos todos uns em cima dos outros. Seguramente mais que os 65 da lotação oficial da cabina. Eu viajei esmagado entre o vidro e a guia brasileira grávida.

Apesar da viagem não ser demorada (menos de dez minutos), achei educado e de bom tom amenizar o facto de estarmos com os corpos tão colados como se dançássemos um slow (só que estando parados...) fazendo um bocado de conversa de circunstância com a moça grávida. Perguntei-lhe:

 – É o primeiro?

–  O primeiro quê?

 – O seu primeiro bebé?

Levei a ausência de resposta para o facto de ela não ter percebido o que eu queria dizer. Os brasileiros têm as suas idiossincrasias quando se trata de falar a nossa língua (ao fim de meia hora de conversa com um pintor naïf, na feira hippie de Ipanema, ele perguntou- me se eu era argentino), e por isso reformulei:

 – O primeiro neném. É o seu primeiro neném?

Ao que ela me fuzilou com o olhar enquanto retribuía a pergunta: – Neném?! Que neném?

– O seu!, retorqui. Então não está grávida?

A guia turística brasileira grávida, cujo corpo estava tão próximo do meu como se estivéssemos os dois com cio e a dançar o “Jealous guy”, não se dignou a responder. Só nessa altura se fez Eureka no meu cérebro e percebi tudo. Ela não estava grávida! Agora imaginem o tempo – horas! – que me custou a passar os dois minutos que faltavam para o bondinho chegar ao Pão de Açúcar. Não faz mal. Foi o justo preço a pagar pela minha enorme bola fora.

Tags:
1 Comentário  |  PartilharPartilhar

Eu a fazer figura de parvo em Paris

sexta-feira, 18 de Julho de 2014 às 15:16

 

Tropecei na loja da Monnaie de Paris, quando vagabundeava pela Rive Gauche, entre o Museu d’ Orsay e o Quartier Latin, onde tinha o duplo objetivo de me abastecer com duas dúzias de cadernos de notas quadriculados 9x14 cm da Clairefontaine (têm um papel divinal e custam um décimo dos Moleskine) e apreçar gravuras do brasileiro Piza numa galeria do Quai Saint Michel.

Como estava com tempo, entrei e deixei-me encantar pela profusão de condecorações militares, que iam desde a que distinguia atos heroicos praticados em Dien Bien Phu até à que premiava a bravura de um batalhão de paraquedistas na guerra do Kosovo.

Decidi-me logo a comprar uma, imaginando-me a usá-la a título de graça, na lapela do meu blazer azul escuro, em ocasiões semissolenes como o concerto comemorativo de mais um aniversário do Metro do Porto, na Casa da Música, ou a inauguração de uma exposição em Serralves.

A Legião de Honra tem um preço proibitivo (400 euros a de comendador, 200 a de oficial) e mesmo a de cavaleiro das Artes e Letras ( 170 euros) estava claramente fora do alcance dos meus bolsos. Acabei por me decidir por uma condecoração, bonita e e em conta (20 euros), a Cruz de Guerra por Operações no Exterior, que casava um discreto aparato e uma serena dignidade.

Enquanto aguardava pacientemente para ser atendido, fui compondo mentalmente a ficção que serviria quando algum membro mais curioso da brigada da mão fria me inquirisse sobre a condecoração. "Bem, é uma história longa. Tem a ver com a minha participação, como especialista em armas anticarro, na Guerra do Suez, ao lado das tropas francesas e inglesas...". O ponto fraco da história é que eu tinha quatro meses e usava fraldas, à altura da ocupação do canal pelos Aliados, mas creio que numa conversa de circunstância ninguém daria por esse ruído cronológico.

Quando chegou a minha vez e disse o que queria, o empregado respondeu-me com um bem educado "bien sur, monsieur", antes de me perguntar se eu não me importaria de exibir a documentação que me habilitava a usar a Cruz de Guerra por Operações no Exterior. Fiz figura de parvo, mas poupei 20 euros. Em tudo, há um lado bom.



Tags:
1 Comentário  |  PartilharPartilhar

Uma reflexão sobre pipis suscitada por maracujás

sexta-feira, 20 de Junho de 2014 às 17:22

 

Bruxelas pertence aquele tipo de cidades em que o preço do quarto de hotel é muito mais barato nas noites de fim de semana do que a meio da semana, o que indica ser muito mais procurada por gente que a visita em trabalho do que em busca de diversão.

Fiquei agradavelmente surpreendido quando consegui marcar um quarto duplo num NH quatro estrelas, com pequeno almoço, a 90 euros por dia, para as noites de sexta para sábado e sábado para domingo. Mas não já consegui evitar um "arre porra!" quando tentei reservar no mesmo hotel, para a noite de quinta para sexta seguintes (a última antes do regresso do nosso périplo pela Flandres) e vi que o melhor preço ultrapassava os 150 euros, muito para além do limite psicológico de pagar um máximo de 100 euros/noite/quarto duplo que fixei a mim próprio, tendo em conta não só a limitada profundidade dos meus bolsos mas também o meu conceito pessoal de razoabilidade.

Como está bom de ver, andei pelo Booking até encontrar um bed and breakfast (BB) que nos albergou na noite de quinta para sexta a troco de 89 euros, sem pequeno almoço, bem, nós tomamos pequeno almoço, mas tive de o ir comprar a um supermercado da Delhaize, pois não estava incluido no preço, às vezes as designações enganam os nomes enganam, como acontece neste caso com o segundo B de BB. Mas isso já é outra história, que espero ainda relatar nesta modesta mas honesta Lavandaria.

Por falar em pequeno almoço, só tenho a dizer bem do bufete oferecido pelo NH do boulevard Adolphe Max - ótima localização, junto à centralíssima place De Brouckère, a dois passos do altamente recomendável café Metropole.

O petit dejeuner do NH - servido numa sala ampla com varanda, no último andar do hotel, de onde se desfruta duma curiosa vista de Bruxelas -  compreende na sua imensa variedade uma agradável surpresa, que muito me entusiasmou: uma tabuleiro cheio de convidativos maracujás que nos eram convidativamente oferecidos abertos a meio.

Estava eu a olhar para os arranha céus da zona circundante da Gare du Nord e a pensar em qual seria a melhor modalidade para comer os maracujás (à colher ou com o auxilio da lingua), quando me lembrei do Francisco José Viegas (a propósito acabo de ler o Colecionador de Erva, que recomendo vivamente, bom em qualquer parte do mundo, de leitura obrigatória!) e da passagem do seu fabuloso ensaio sobre pipis, publicada a páginas 191 e 192 de Um Céu Demasiado Azul, em que ele garante que um pipi deve ser, passo a citar, "suculento como um fruto".

Nesta Lavandaria já equacionamos as hipóteses de um pipi poder ser suculento como uma maçã ou como um dióspiro, mas lamentavelmente (esta cabeça já não é o que era!) esqueci-me de uma coisa tão óbvia e superlativa como a de um pipi ser tão suculento com o maracujá, o fruto da paixão (não é por acaso que os bifes, que sabem-na toda, lhe chamam o passion fruit) -. e penitencio-me deste terrivel lapso perante todas as  perspicazes preclaras e astutos preclaros.

E por falar na melhor maneira de consumir um maracujá, se com a lingua se com a colher, no consumo de pipis suculentos e no ingrediente erótico que deve estar presente em todos os best sellers, por associação de ideias (elas são como as cerejas, e como agravante estamos no tempo delas) veio-me à cabeça (a imaginação às vezes voa à velocidade de um avião supersónico) um naco bastante gráfico do primeiro thriller de Ken Follet  que não resisto a partilhar, a título de sobremesa, para as preclaras e preclaros que tiveram paciência para chegar até aqui:

"Ele deixou-se escorregar na cama, com o tronco entre as pernas dela, e beijou-lhe a barriga. Com movimentos rápidos de lingua, lambeu-lhe o umbigo. Era muito agradável. Depois, a cabeça desceu ainda mais. Com certeza que ele não queria beijar ali, pensou Lucy. Mas beijou. E não se limitou a beijar. A boca dele empurrou as pregas macias da pele dela. Lucy ficou paralisada pelo choque quando a língua começou a sondar as reentrâncias e depois, quando ele lhe afastou os lábios com os dedos, a penetrou.

"Por fim, a língua em movimento descobriu um pontinho sensível, tão pequeno que Lucy não sabia que existia. tão sensível que o contacto foi quase doloroso a príncipio. Ela esqueceu o choque ao ser dominada pela sensação mais forte que alguma vez experimentara.Incapaz de se reprimir, agitou as ancas para cima e para baixo, cada vez mais depressa, esfregando a pele escorregadia na boca, no queixo, no nariz e na testa dele, totalmente concentrada no seu próprio prazer. A excitação foi aumentando, como o feedback de um microfone, alimentando-se a si mesma, até Lucy se sentir totalmente possuída pelo júblio e abrir a boca para gritar. Então Henry tapou-lhe a boca com a mão, para a silenciar, mas o grito dela soltou-se na garganta quando o climax se prolongou e terminou com algo semelhante a uma explosão, deixando-a de tal modo esgotada que ela se julgou que nunca mais voltaria a levantar-se.

"A mente dela pareceu esvaziar-se momentaneamente. Lucy tinha uma vaga noção de que Henry continuava entre as suas pernas, sentia a barba dele no interior macio da coxa, a boca dele a mexer-se devagarinho, com ternura"

Estilete assassino, Ken Follet, pag 331

 (continua)  

Tags: , ,
1 Comentário  |  PartilharPartilhar

Quem se lixa é sempre o mexilhão

terça-feira, 17 de Junho de 2014 às 12:30

 

Sinto-me um escravo dos clássicos. Acho criminoso que um turista, na sua primeira vez no Porto, não coma uma francesinha, suba ao cimo da Torre dos Clérigos, dê uma passeio nos jardins de Serralves, veja a Casa da Música, estacione numa esplanada da Foz, faça uma viagem de elétrico, pasme com os azulejos (Capela das Almas, igreja do Carmo e/ou Estação de S. Bento) vá à Ribeira, faça o cruzeiro das seis pontes, atravesse a pé o tabuleiro inferior da ponte Luiz I e visite as Caves de Vinho do Porto.

Sendo um escravo dos clássicos, a nossa primeira refeição em Bruxelas teria obrigatoriamente de ser moules et frites, o prato nacional belga. Na escolha do restaurante resolvemos não inventar e refugiamo-nos num outro clássico, o Chez Léon, que a partir do restaurante original, aberto em 1893, em Bruxelas, por Léon Vanlancker, se transformou numa cadeia internacional, com largas dezenas de restaurantes espalhados por toda a Bélgica e França -  e que há dois anos ousou atravessar o canal da Mancha e estabeleceu-se em Londres, em Cambridge Circus.

A minha primeira experiência Chez Léon, no restaurante do boulevard Saint Germain, em Paris, foi satisfatória ao ponto de reincidir, em posteriores visitas à capital francesa, mas no Léon da Bastilha.

Estando em Bruxelas não resisti à tentação, conservadora (na esmagadora maioria das situações, preferimos não arriscar e navegar apenas mares já dantes navegados), de ir ao primeiro Chez Léon, que fica no número 18 da rue des Bouchers, a mais famosa das ruas de restaurantes de Bruxelas, sempre a abarrotar de turistas barulhentos (em particular os italianos).

Não houve lugar a arrependimento. Ficamos numa mesa cá fora e encomendamos a Formule de 16 euros: um copo de cerveja, as frites da ordem, as moules classiques - meio quilo delas, com os restos mortais armazenados em baldes, pois, nestes como noutros casos, quem se lixa é sempre o mexilhão.

Nem esteve particularmente mal, nem excepcionalmente bem. Muito antes pelo contrário. Pas mal, mas fiquei com a ideia que a oferta do Moules & Beer, de Campo de Ourique (primo direito do Moules & Gin de Cascais), não fica nada a dever à da célebre cadeia de Bruxelas. 

(continua)  

Tags:
Comentar  |  PartilharPartilhar

Jorge Fiel explica por que é que a Jeanneke é nudista

segunda-feira, 9 de Junho de 2014 às 17:53

 

O Manneken Pis desempenhou solitário a função de tirar a sede aos bruxelenses e ser o icone da cidade até que as forças mais vivas e criativas da sociedade civil de Bruxelas lhe arranjaram finalmente uma companhia feminina, a Jeanneke Pis, que está domiciliada no Impasse de la Fidelité (uma perpendicular à rue des Bouchers, a famosa rua dos restaurantes), onde urina sem descanso desde 1987.

Deus foi mais rápido a arranjar companhia feminina ao Adão do que os bruxelenses em providenciar uma Eva para o seu Manneken Pis, mas, enfim, mais vale tarde do que nunca.

A Jeanneke faz o seu xixi num rua sem saída, onde há bares porta sim porta sim, entre os quais avulta o Delirium Tremens, ou seja é natural que isso levante legitimas questões relativamente à observância ou não dos sagrados princípios da igualdade de genéros nesta matéria do par dos miúdos mijões de Bruxelas.

Enquanto o Manneken está principesca e faustosamente instalado numa esquina entre duas prestigiadas ruas (Chêne e l' Étuve), a pobre da Jeanneke vive e mija desterrada no fundo de um beco esconso, essencialmente frequentado por bêbados e apenas protegida de vândalos e dos tarados adeptos do golden shower (1) por um gradeamento próprio de prisão - e não da exposição de uma peça artística.

Está mal. A moça não está exposta com a dignidade que merece. Nesta coisa de estátuas é como no imobiliário. A localização é tudo.

Há ainda outra questão relativa à desigualdade, mas bastante mais problemática, que tem a ver com a indumentária. O rapazola está quase sempre vestido, e é dono de um riquíssimo e variado guarda roupa, constituido por 867 fatos e parcialmente exposto no Musée de la Ville, na Grand Place. O miudo mijão tem todo o tipo de fatiotas, de bombeiro, de astronauta, de piloto da Sabena, etc, etc.

Não há personalidade realmente importante que visite Bruxelas e não queira oferecer umas roupinhas ao mijão, uma tradição que terá sido inauguardo por Luís XV (ao saber que soldados do seu exército tinham abandalhado o Manneken, logo mandou fazer-lhe um uniforme de oficial e decretou que o fardassem a preceito, pelo que as tropas ao passar por ele teriam de lhe prestar a devida continência) e que nem Napoleão quebrou.

Já a Jeanneke está sempre ao natural, nuazinha, tal como veio ao mundo, o que pressuporia um grave tratamento discriminatório entre mijão e mijona, que seria altamente condenável se não se desse o caso dos rapazes beneficiarem de uma maior facilidade logistica em aliviar a bexiga que as raparigas. Por isso a generalidade dos homens (Zé Castelo Branco é a exceção a essa regra) mija de pé, enquanto que as mulheres sentam-se (ou agacham-se) para levarem a cabo com higiene idêntica operação.

Enquanto o Manneken pode estar vestido até ao pescoço, que lhe basta abrir a carcela e já está, a Jeanneke tem de subir as saias (ou despir as calças) e tirar as cuequinhas para poder fazer o seu xixi. Nesse sentido, é compreensível que o ele seja têxtil e ela nudista, sem que isso implique estar a ser perpetrado um atentado à igualdade de géneros.

     (continua) 

.........

(1) Muita atenção às perspicazes preclaras e astutos preclaros que eventualmente vão para a cama com algum/a irmão/ã do outro lado do Atlântico. Fiquem desde já a saber que os brasileiros, que têm a mania de traduzir tudo, não chamam c huva dourada, mas sim esporte aquático, à prática deste fétiche bizarro e desviante, que consiste na obtenção de prazer sexual urinando em cima do parceiro, ou sendo urinado

Tags:
Comentar  |  PartilharPartilhar

Quando estamos apertadinhos, aliviar-nos é um prazer

terça-feira, 3 de Junho de 2014 às 16:38

 

Há praticamente tantas maneiras de cozinhar bacalhau como explicações para o facto de algures entre os finais da Idade Média e os inícios da Idade Moderna, alguém importante e poderoso em Bruxelas (muito provavelmente o próprio burgomestre), tenha encomendado a estátua de um miúdo a m ijar para decorar uma das fontes que forneciam água potável aos habitantes da cidade.

Assim como assim, pondo-me no lugar de um bruxelense dos séculos XV ou XVI, preferia de longe encher o meu cântaro com a água a jorrar dos biquinhos das mamocas de sensuais, simpáticas e oferecidas sereias com a cauda bifucarda (estou a referir-me em concreto à Fonte de Neptuno, de Bolonha, da autoria do falecido criativo Giambologna) do que esguichada, em arco improvável, do diminuto pirilau do Manekken Pis, da autoria do não menos falecido Jerôme Duqesnoy.

Mas, enfim, não fiquem por favor a pensar que tomei de ponta o pequeno mijão. Muito antes pelo contrário, até lhe acho graça ao ponto de me ter dado ao trabalho de coleccionar algumas das lendas que se contam a propósito da sua origem (e sublinho lendas, pois nenhuma das versôes que correm foi cientificamente certificada por um único historiador respeitado) em beneficio da satisfação não só da minha curiosidade mas também das perspicazes preclaras e astutos preclaros que ainda não conseguiram ver-se livres do vício de visitarem episodicamente esta Lavandaria. 

Uma das explicações que mais me agradam mete uma praga de toupeiras que sem respeito pela instituição monárquica construiam as suas galerias nos jardins reais, deixando-os num estado deplorável, completamente esburacados. O burgomestre já não sabia o que mais fazer quando, miraculosamente, um rapazola mijou num buraco e as toupeiras desaparecerem. Em homenagem ao mijão que acabou com a praga, foi mandada fazer a estátua do Manneken Pis.

Pode ter sido assim, mas também há quem jure que a estátua, que tem tanto de célebre como de pequena (55cm) é o tributo dos Bloemardinne ao filho do duque João por este petiz, sem qualquer cerimónia, ter desatado a urinar em plena via pública, durante uma parada deste movimento místico, árduo defensor dos prazeres terrenos - e que por isso logo ali saudou entusiasticamente o à vontade do manekken.

Faz sentido, porque qaundo se está muito apertadinho, com a bexiga quase a rebentar, aliviar-nos é um dos grandes prazeres que levamos desta vida. 

No domínio das explicações bélicas, a minha preferida é anti-espanhola. Durante os anos de chumbo do odiado dominio castelhano, em que os belgas foram colocados a ferro e fogo pelo Duque de Alba (antepassado remoto da excêntrica Cayetana) e a Inquisição, um irreverente miúdo m ijou do alto da sua janela em cima das tropas espanholas que desfilavam na rua, num gesto de desafio (não importa se consciente se inconsciente) que acabou imortalizado e chegou aos dias de hoje.

Mas há mais explicações de cariz patrótico. Durante um prolongado cerco de Bruxelas, os franceses terão construido um túnel secreto debaixo da Grand Place e armazenado lá explosivos suficientes para mandar pelos ares a bonita praça. Mal acabaram de montar a armadilha, os manhosos levantaram o cerco, obviamente depois de terem acendido o rastilho, que foi apagado pelo xixi providencial de um menino, que assim evitou a catástrofe, tornou-se um heroi (não intessa se acidental ou não) e ganhou direito a estátua.

Mete-me um bocado de impressão que os belgas ainda não se tenham decidido a homolgar uma destas versões (ou até uma outra, mais coloricda e divertida do que estas) como oficial do menino mijão. Para o caso não interessa muito se é ou não verdadeira. A bem dizer, nas imediações do Castelo de Guimarães, a pequena igreja românica tem uma pia batismal com uma lápide a dizer que ali foi batizado o D. Afonso Henriques, o que é completamente falso até porque o Fundador já estava a fazer tijolo há muito tempo (morreu em Coimbra, a 6 dezembro de 1185) quando o templo foi sagrado, em 1239.

(continua) 

Tags:
Comentar  |  PartilharPartilhar

Não me incomoda nada que o mijão seja pequenino

segunda-feira, 26 de Maio de 2014 às 18:55

 

O ícone do Porto é a Torre dos Clérigos, o de Paris é a Torre Eiffel e o de Bruxelas é o Manneken Pis (o rapazinho que mija, em tradução literal), uma pequena estátua de bronze com 55 centímetros, situada a dois passos da Grand Place, mais concretamente na esquinas das ruas Chêne e de l´Étuve.

A reduzida dimensão do mais famoso símbolo da Bélgica impressiona quem o vê pela primeira vez e solta logo o banal comentário (e completamente desprovido de originalidade):  "Mas é tão pequenino!". Sim, é verdade, ele é pequenino e depois?

O pequeno mijão é pequenino mas neste caso o tamanho não é documento, pois isso não o impede de ser uma atração de primeira grandeza para as hordas de turistas (muitos deles japoneses, que lhe têm uma devoção especial), entre as quais me inclui, que não se cansam de tentar arranjar o melhor ângulo para o fotografar.

Mais. O facto de ser pequeno não desqualifica Bruxelas, nem a Bélgica. A Pequena Sereia de Copenhague também não engana ninguém, é mesmo pequena, como o próprio nome indica, quase insignificante, e isso não desmerece nem a bela cidade nem o próspero país de que é simbolo - não resisto a sublinhar esta afirmação com uma dado estatístico, apesar de serem metade dos portugueses, os dinamarqueses produzem anualmente o dobro da nossa riqueza. Ora toma!  

Não me incomoda nada que o moço seja pequenino, mas já não poderei dizer o mesmo relativamente ao arco do seu esguicho, que me parece exagerado atendendo à idade do pequeno mijão e, consequentemente ao tamanho do seu p ilau.  

O Manneken Pis é a coisa mais parecida com Deus que há em Bruxelas. Está praticamente em toda a parte. É o rei dos souvenirs kitsch. Está em milhões de t-shirt, sweats, postais ilustrados, saca-rolhas, pequenas estatuetas, abre latas, magnetos de frigorífico, copos, talvez até em preservativos, quem sabe, não vi mas o mais natural é que haja, até porque o rapaz está sempre com a mão na p ila...

Eu próprio enviei postais ilustrados com a foto do pequeno mijão para a Mariana, que está em Los Angeles, o Pedro, que está em Dublin, e o João, que está no Porto. E dei cinco euros por uma pequena estatueta de plástico, com a altura de seis cm, que reproduz o Manneken com alguma fidelidade - só não esguicha, o que até é conveniente, pois domiciliei-o provisoriamente na cómoda do meu quarto.

Ter como símbolo um rapazinho incontinente parece-me bastante adequado a um país com 1500 diferentes variedades de cerveja - desde as mais famosas, como a Stella Artois, Maes, Jupiler, Duvel, Leffe e Delirum Tremens, etc, até à imensidão de trapistas, inventadas pelos monges homónimos -, pois, como toda a gente sabe, a cerveja não se compra - aluga-se!. E quanto mais se bebe, mais se mija!

(continua) 

Tags:
Comentar  |  PartilharPartilhar

Controlinveste Conteúdos, S.A. Todos os direitos reservados.