Cães de Gado

29/10

2010

às 20:21

                                      

 Autores: Paulo Caetano, Joaquim Pedro Ferreira e Sílvia Ribeiro

 Editora: Bizâncio

 PVP: € 27,25

 

 

 

Do lobo ao cão. E do cão ao cão de gado.  Foi longa e tortuosa a evolução. Difícil. Mas as características que, actualmente, estão fixadas nas raças nacionais de cães de gado constituem um património genético invejável. Que não se pode perder. Contribuir para a preservação dos cães de gado e para divulgar a exigente tarefa que constitui o árduo quotidiano destes cães é o desafio deste livro. Esta obra vive da imagem e dos testemunhos de pastores e investigadores – plena de cor, acção e dramatismo. Para o leitor constituirá o regresso a um universo que julga perdido: o mundo rural, com os cães em acção guardando rebanhos e manadas, defendendo-os dos lobos e realizando combates de vida ou morte. Os cenários são naturais: as grandes serranias a norte do Douro, os cumes de Castro Laboreiro, os alcantis da Peneda, as encostas do Alvão. Aí, nesses ambientes selvagens, veremos como se entrecruzam destinos: ovelhas e vacas das ameaçadas raças autóctones, velhos pastores armados com cães e cajados. E como sobrevivem os velhos costumes e saberes – ante o desaparecimento de tradições como a transumância.

 

Entrevista a Paulo Caetano:

 

O que são cães de gado e desde quando existem?

Cães de gado são cães que têm como função defender o gado, quer se trate de rebalhos de ovelhas e cabras - que é o caso mais comum -, quer sejam manadas de vacas e cavalos ou mesmo varas de porcos. É dificil saber desde quando os cães desempenham esta função, mas podemos afirmar com alguma segurança quecães existem deste que o Homem domesticou o gado e que, para o manter alimentado, precisava de o acompanhar em busca de pastagens frescas. Como esses rebanhos, durante as suas deslocações, eram particularmente vulneráveis aos predadores - como os lobos, linces, ursos ou outros homens - começaram-se a utilizar cães de grande porte na sua protecção. Diria que os cães de gado, que mais tarde darão origem às raças actuais, têm alguns milhares de anos.



Num mesmo rebanho, podem coexistir cães que conduzem o gado e cães que o protege do ataque dos predadores. Qual a função específica de cada um?

A própria designação ajuda a perceber a função. O cão de gado é o que protege, o cão pastor ou cão de condução é o que conduz o rebanho ou a manada, seguindo as indicações do dono. E claro que podem e devem coexistir num mesmo rebanho, convivendo pacificamente uns com os outros, quando bem socializados.



Em Portugal, quais são as raças de cão que melhor se adaptam a este trabalho?

As raças portuguesas de cães de gado são o Cão de Castro Laboreiro, o Cão da Serra da Estrela, o Cão Rafeiro do Alentejo e o Cão de gado Transmontano - a raça mais recente em termos oficiais.



São raças geneticamente próximas?

Sim, muito próximas! Umas mais do que outras, porque várias raças estavam confinadas ao seu solar de origem e os gados da região apenas faziam pequenas deslocações e os acessos montanhosos impunham um grande isolamento. É o caso do Castro Laboreiro ou do Cão de Gado Transmontano. Já entre o Rafeiro do Alentejo e o Serra da Estrela existe grande proximidade porque, tradicionalmente, os rebanhos transumantes da Estrela passavam os meses do Outono e do Inverno nos campos do Alentejo ou da Idanha, e os cães acompanhavam essas deslocações, cobrindo fêmeas ou parindo fora do seu solar...



Como se treina um cão de gado?

Não se treina. O cão deve nascer numa corte do gado - ou ser lá colocado mal é desmamado - e deve socializar com os membros do rebanho que vai defender. Para ele, o gado passa a ser a sua família, que defenderá mesmo que tenha de arriscar a sua vida a lutar com um predador.



Como é que o cão e o gado interagem?

O cão integra-se no rebanho, acompanha-o para onde quer que vá. Descansando quando o rebanho pasta, movendo-se à sua frente ou no meio dos outros animais durante as caminhadas. Com frequência, o cão lambe os recém-nascidos do rebanho num gesto de aceitação na família e de reconhecimento. Quando é juvenil, brinca com as cabras ou as ovelhas, como faria com outro cão ou com um humano.



Há algum tipo de apoio, em Portugal, a quem crie, treine e trabalhe com estes cães?

O Grupo Lobo e o Parque Natural de Montesinho têm em terreno vários projectos que pretendem promover estas raças de cães, fomentar a sua criação e o seu uso na pastorícia. Compram cães, oferecem-nos a pastores, garantem parte da sua alimentação e cuidados veterinários, acompanham a sua integração nos rebanhos de risco, aqueles que, com frequência, sofrem prejuízos causados pelos lobos.



Assim como a transumância desapareceu no nosso país, a pastorícia é também uma prática cada vez menos utilizada. De que forma este abandono da pastorícia tem afectado a sobrevivência dos cães de gado portugueses?

O confinamento do gado a estábulos ou cercados, a perda dos saberes tradicioinais e das artes antigas, a desvalorização do mundo rural e dos seus produtos está, de facto, a matar a pastorícia de percurso e, com ela, os cães de gado. Estas raças estão muito ameaçadas e os exemplares vão deixando de ser usados em trabalho, ficando como cães de companhia ou como guardas de propriedades. Se quisermos defender e fomentar estas raças, temos também de valorizar as raças autóctones de gado, vocacionadas para os nossos espaços geográficos, e os produtos que eles produzem. Se o fizemos, estamos a defender um vasto e antigo património biológio e cultural que nos identifica e distingue enquanto povo.

 

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